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O Rei vai para Hollywood. E leva os anéis

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Mural de LeBron James, em Los Angeles.

O melhor jogador de basquetebol do mundo na equipa mais glamourosa da NBA. LeBron James decidiu assinar pelos Los Angeles Lakers. Traz com ele vitórias, mas também muito dinheiro.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Ver os Lakers sentado perto de Jack Nicholson acabou de se tornar muito mais caro. A ida de LeBron James para Los Angeles vai trazer muitas alegrias aos adeptos, assim como efeitos económicos importantes para a equipa e para a cidade. Hollywood estende a passadeira vermelha ao Rei.

Terminado o seu contrato com os Cleveland Cavaliers, LeBron decidiu assinar por quatro anos com os Los Angeles Lakers por 154 milhões de dólares (132 milhões de euros). Isso permitirá dar-lhe o salário mais alto da NBA e colocá-lo mais perto de se tornar no jogador mais bem pago de sempre. No entanto, esse dinheiro é apenas uma fração do valor económico que a sua vinda representa para uma equipa de basquetebol. Mais ainda do que o futebol, o basquetebol norte-americano gira à volta de estrelas e, atualmente, nenhuma brilha tanto como LeBron.

No plano desportivo, a expectativa é que, depois de cinco anos de irrelevância, os Lakers voltem aos playoffs e, quem sabe, desafiem os campeões Golden State Warriors. LeBron James é tido como o melhor jogador no ativo. Vem de uma série de oito Finais em oito anos e terminou os playoffs desta temporada com médias de 34 pontos, 9 ressaltos e 9 assistências. Há quem argumente que, aos 33 anos, nunca jogou tão bem.

E se o sucesso dentro de campo envolve sempre alguma incerteza, o impacto económico está mais do que garantido. Antes da decisão ser anunciada, os bilhetes de época mais baratos dos Lakers custavam cerca de 3 mil euros. Vinte minutos depois, os mesmos lugares estavam à venda por 5 mil euros. A ESPN escreve que pelo menos uma pessoa pagou 160 mil euros por quatro lugares na 16ª fila. Longe de conseguir tirar uma selfie com Jack Nicholson ou Leonardo DiCaprio. O bilhete mais barato para o primeiro jogo da época está à venda por 400 euros.

O impacto não se sente apenas nos bilhetes. Minutos depois da decisão ter sido anunciada, já era possível encomendar equipamento. O volume das reservas online foi 600% mais elevado do que há quatro anos, quando LeBron James regressou aos Cavaliers, depois de quatro anos com os Miami Heat. Efeitos semelhantes são esperados no que diz respeito a exposição mediática, mais jogos com transmissão televisiva nacional e maior reconhecimento de marca.

“Todos esses elementos vão crescer. É o melhor jogador da NBA e provavelmente o melhor de sempre. Vai trazer os Lakers de volta à proeminência desportiva”, sublinha Andrew Zimbalist, um dos maiores especialistas em economia desportiva, à VISÃO. “Estão a pagar muito dinheiro – quase 36 milhões de dólares por ano -, mas ele vale muito mais do que isso.”

É difícil saber exatamente quanto dinheiro arrasta LeBron James. Mas existem algumas estimativas. Quando abandonou pela primeira vez os Cavaliers em 2010, o valor da equipa caiu 25%, segundo os cálculos da Forbes. A valores atualizados, isso traduz-se numa desvalorização de 250 milhões de euros. LeRoy Brooks, professor de Finanças na Universidade John Carroll, calcula que a sua presença numa equipa represente um bónus de 420 milhões de euros para a economia local, principalmente nos negócios em torno do pavilhão.

Esta segunda dimensão é mais fácil de quantificar. Um estudo publicado este ano calculava que a presença de LeBron James numa equipa aumentava em 13% o número de restaurantes e bares num raio de 1,5 quilómetros do pavilhão e subia em 23,5% o emprego nessa mesma zona. Um dos autores do paper, Stan Veuger, aponta à VISÃO que a média de espectadores nos jogos dos Cavaliers em casa esteve quase sempre acima de 20 mil pessoas com LeBron. Sem ele, a média ronda os 15 mil.

Veuger reconhece, por outro lado, que o impacto na economia de Los Angeles – uma cidade com quatro milhões de habitantes e rockstars e estrelas de cinema aos pontapés - pode ser menos significativo do que em Cleveland, que tem menos residentes do que Lisboa. “No paper, encontramos efeitos muito mais pequenos em Miami [onde LeBron jogou quatro anos] do que em Cleveland. Eu esperaria que os efeitos em Los Angeles se parecessem mais com Miami, dada quantidade de equipamentos que oferece”, refere.

Contudo, se o efeito pode ser mais diluído na cidade das celebridades e das estrelas de cinema, também é verdade que a força da marca “LeBron” pode ser amplificada na equipa com maior número de fãs nos EUA. Zimbalist considera que “o efeito de amplificação é mais forte”. “É a segunda maior cidade dos EUA, há mais dinheiro para gastar.”

Muito dele é gasto em merchandise. LeBron tem a linha de ténis mais vendida da NBA e a sua camisola foi a segunda mais comprada no ano passado. O casamento com Los Angeles pode ser uma mistura explosiva. Mesmo sem ter uma única estrela, os Lakers foram a 4ª equipa com mais vendas.

Claro que, o ganho de uns é a perda de outros. Os revendedores de bilhetes antecipam que o preço dos jogos dos Cavaliers afundem 60%. “No curto prazo, o basquetebol aqui não vai valer nada”, admite à ESPN um representante do site Amazing Tickets, sedeado em Cleveland.

Um final à Hollywood

Não faltarão também mais marcas a querer colocar-se nos ombros de LeBron. O atleta tem acordos com a Coca-Cola, Intel, Kia, Verizon, Beats e, claro, com a Nike, com a qual assinou um contrato vitalício, que lhe poderá render mil milhões de dólares até ao final da vida. As redes sociais são um espelho da sua popularidade, com 23 milhões de seguidores no Facebook, 39 milhões no instagram e 42 milhões no Twitter.

Para se perceber melhor a sua decisão de ir para LA – quando havia outras equipas onde teria mais probabilidades de ganhar o campeonato – é preciso tirar os holofotes do soalho de madeira e apontá-los para as gigantes letras HOLLYWOOD, no topo do Mount Lee. Este será provavelmente o último capítulo da sua carreira, pelo menos enquanto melhor jogador do mundo. A estratégia passa por começar a preparar o futuro pós-basquetebol.

Embora LeBron se tenha revelado até agora um autêntico homem de ferro, participando em perto de 1.400 jogos e sem lesões graves, é previsível que o corpo comece a ceder. Kobe Bryant retirou-se aos 37 anos, Michael Jordan aos 35 (voltaria aos 38 para os Washington Wizards, mas não vamos falar disso). LeBron está perto.

As incursões em Hollywood já começaram, com um papel de destaque no filme “Trainwreck” (2016) e rumores incessantes acerca de um Space Jam 2, a sequela ao filme de 1996 que trouxe Michael Jordan para o grande écran.

LeBron detém uma empresa de entretenimento – SpringHill Entertainment – através da qual já produziu quatro programas de televisão, dois filmes e lançou o canal Uninterrupted, que divulga conteúdo multimédia criado por atletas. A Forbes estima que, entre salários e outros rendimentos fora de campo, LeBron tenha ganho 650 milhões de euros ao longo da carreira.

O seu agente, Maverick Carter, reconhece que a ambição é grande. “O LeBron e eu sempre estivemos interessados na visão de longo prazo. E a visão de longor prazo é criar uma empresa de media.”

La-La Land é um bom sítio para começar. O homem que aos 17 anos tatuou nas costas “CHOSEN 1” em letras garrafais certamente não terá medo do desafio.