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EDP na América: “The answer is blowing in the wind”

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EDP Renováveis

O parque de Meadow Lake, nos Estados Unidos da América, é uma amostra do caminho feito pela EDP até se tornar um dos principais operadores de energia eólica nesse país. Como se prepara para continuar a dar cartas neste mercado. Este texto foi originalmente publicado na edição de maio de 2018 da revista EXAME

Ao final de uma manhã de abril, a fita de alcatrão da estrada estatal 43 estica-se pouco movimentada pela pradaria, reta e paralela à linha deserta do comboio. Quilómetros de paisagem monótona só interrompida por aparições de celeiros e silos, alpendres de madeira decorados com a bandeira americana ou restaurantes de fast food. Tirando o ruído de fundo dos carros e as quatro vezes por semana em que um comboio cruza o campo para ligar Indianápolis a Chicago, dá para apostar que no resto do tempo, nestas paragens, quem manda é o silêncio.

Na sucessão de pequenas aglomerações de casas, quase não se dá pela chegada à pequena Chalmers. E quem vê de longe esta povoação com cerca de 500 habitantes, plantada no coração do Indiana, não imagina a revolução tranquila que acontece algumas dezenas de metros acima das suas cabeças. Ou sequer que, por detrás dessa transformação, no meio de nenhures, esteja uma marca portuguesa.

“Daqui a uns meses, o milho vai estar mais alto do que nós, o trigo vai chegar-nos pela cintura”, diz Ryan Brown, a sorrir. O responsável pelas operações da EDP Renováveis no Leste dos EUA e Canadá não duvida de que o ciclo se repetirá: os torrões de terra negra darão lugar a hectares viçosos de plantações, mesmo que ao seu lado se tenham, entretanto, erguido mais de 350 torres eólicas que fazem de Meadow Lake o maior parque eólico da EDP nos Estados Unidos da América.

Para quem roda de sul para norte, na estrada interestadual 65 e daí para Brookston e Chalmers, é difícil não reparar nas estrelas de metal suspensas, apontadas ao céu. Há quase uma década, desde o arranque da primeira fase do parque, que os aerogeradores fazem parte da paisagem rural. E até ao final deste ano, com a fase VI em curso, superarão as 400.

“Dali até ali… E dali até lá ao fundo. É tudo isto”, aponta Rob Edinger, enquanto estende os braços para o horizonte carregado de nuvens, a mostrar até onde se alarga o parque eólico disperso por três condados — White, Jasper e Benton. Difícil perceber onde começam e acabam os 250 quilómetros quadrados — sensivelmente duas vezes e meia a área do concelho de Lisboa — que este diretor sénior de operações da EDP Renewables vai descrevendo junto a um aerogerador, hoje parado pela ausência de vento.

Convencer os hoosiers demorou mais de um ano

A primeira vez que as pás giraram neste parque foi em 2009, já a subsidiária norte-americana da EDP Renováveis tinha comprado há dois anos a Horizon Wind Energy ao Goldman Sachs, uma operação na altura avaliada em 2 200 milhões de dólares. De uma assentada, absorveu ativos nos estados de Nova Iorque, Iowa, Pensilvânia, Washington e Oklahoma e projetos em construção em Minnesota, Oregon, Texas e Illinois. Em dez anos, ampliou a presença de nove para 14 estados, dez dos quais no top dos maiores produtores de energia eólica. No final do terceiro trimestre de 2017, segundo a American Wind Energy Association (AWEA), a capacidade eólica instalada nos EUA ascendia a 89,77 mil megawatts, capaz de fornecer o equivalente a 25 milhões de casas. Só a capacidade atual da EDP em todo o país, com os seus 45 parques, permite abastecer quase 1,6 milhões de habitações.

No primeiro trimestre deste ano, a capacidade e produção eólica da empresa na América do Norte ultrapassaram as da Europa. No Indiana, a Renewables tem 801 megawatts instalados, 600 no parque frente a Chalmers e o resto na Headwater Wind Farm. Dentro de seis meses, concluída a fase VI de Meadow Lake, serão acrescentados mais 200 MW. E já se perspetiva uma sétima fase numa região onde estão concorrentes como a BP, a Pattern Energy ou a francesa EDF Renewables, como explica Ryan Brown.

Além das limitações técnicas — só a evolução tecnológica permitiu instalar o parque no Indiana, que ao contrário de Texas ou Oklahoma não é das zonas mais ventosas do país —, a equipa ainda se deparou com as reticências dos locais, que demoraram mais de um ano a ficarem convencidos. “Os habitantes são cooperantes. Mas primeiro querem saber o que é que viemos cá fazer”, aponta Edinger.

No modelo de negócio do parque do Indiana, os aerogeradores são instalados em terrenos alugados por 20 a 30 anos — a vida útil de uma turbina pode chegar às três décadas —, enquanto os agricultores hoosiers (a designação dos residentes do Estado) continuam a poder cultivar os terrenos em torno das torres. No caso de Meadow Lake o negócio rende pagamentos anuais aos proprietários na ordem dos 4,3 milhões de dólares (3,5 milhões de euros). Sem contar com o impacto na criação de emprego, que ao longo do desenvolvimento do parque já deu trabalho a 500 pessoas.

Há cerca de seis anos que Steve Wallpe, um agricultor do condado vizinho de Benton, aceitou a instalação de vários aerogeradores nas suas quintas, primeiro da BP, mais tarde da Amazon. Quando chegaram a Benton, as companhias explicaram tudo, mas só mais tarde se perceberam as áreas cinzentas: “Pensámos que as linhas de transmissão seriam enterradas e seguiriam as estradas. Mas não foi isso que aconteceu,” diz em entrevista por telefone à EXAME. Tirando isso e pequenas mudanças na orientação das plantações por causa das estradas de acesso, admite que praticamente nada mudou no uso agrícola dos terrenos com a chegada das turbinas. Já os cofres da comunidade ficaram mais cheios: cada aerogerador instalado vale no mínimo 7 000 dólares (cerca 5 600 euros) por ano aos donos dos terrenos, a que se juntam os impostos pagos localmente pelas empresas e a criação de startups associadas à manutenção dos parques.

Da quase total dependência do carvão (98%), o Indiana tem estado a diversificar as suas origens de energia. Esta fonte ainda é esmagadora (72% do total gerado), mas o gás natural já representa 21% e as eólicas aproximam-se dos 5%. E nem tudo o que é produzido no parque da EDP fica no estado. A partir dali, através da rede de interligação PJM, a eletricidade produzida chega até Washington, a capital norte-americana, e a mais de uma dezena de estados do centro-leste dos EUA, do Michigan à Carolina do Norte, do Illinois a New Jersey, num alcance potencial de 65 milhões de clientes finais. Em breve, a ligação será reforçada com a abertura, na região, de uma nova linha de transmissão.

Na sala de operações à entrada de Chalmers, onde estão os escritórios da EDP Renewables, o dia de trabalho começa cedo, pelas 7h00. É ali que as equipas de manutenção se reúnem para definir o dia e onde conhecem a previsão do tempo — vento, tempestades ou neve limitam as operações. Numa das paredes, há ecrãs que simulam a localização das turbinas no terreno, com luzes que piscam de acordo com as necessidades de reparação. Entre os colaboradores, está Cody Kolger, 25 anos, que conta que cresceu a uma hora dali, em Crawfordsville, e que começou há quatro anos a trabalhar como técnico de serviço de campo nas torres fornecidas pela Vestas. Esta empresa, que forneceu metade dos atuais aerogeradores do parque, vai colocar também a nova fase, com 61 turbinas desenvolvidas entre 80% e 90% nos EUA. A mais recente geração de equipamentos, com pás de 68 metros, produzirá mais um terço de energia do que as turbinas da fase I.

Amazon e Nestlé entre os clientes dos parques EDP

Estes investimentos só foram possíveis graças aos incentivos e regulamentação favoráveis ao desenvolvimento das eólicas nos EUA, nomeadamente a nível federal, como os créditos fiscais em função da produção (receita extra por porção de eletricidade gerada) e do investimento (que pode ascender a 30% do valor investido), ambos em descontinuação faseada até 2019. Além disso, 29 estados obrigam as utilities a comprar uma percentagem de eletricidade oriunda de renováveis.

Por outro lado, os acordos de compra de energia (PPA, contratos de longo prazo para a venda de eletricidade a 10 ou 15 anos a uma entidade) favorecem a operação. Aumentam o consumo de energia de origem renovável e, para os clientes, melhoram a previsibilidade dos preços. Parte da produção da fase VI de Meadow Lake vai abastecer a Nestlé na Pensilvânia por 15 anos e, em 2015, a tecnológica Amazon comprou parte da energia produzida num outro parque, no Ohio. No total, para projetos a serem instalados entre 2016 e 2020 nos EUA, a EDP Renováveis já assegurou 1,5 gigawatts nestes contratos de longo prazo, onde se inclui energia dos seus cinco parques solares no país. O sexto vai nascer em Riverstart, também no Indiana, até 2022, e os 200 megawatts que produzirá (o equivalente para abastecer 37 mil casas) já foram comprados pela Hoosier Energy por um período de 20 anos.

Para António Mexia, recentemente reeleito CEO da EDP, o mercado norte-americano — que representou no ano passado 43% do EBITDA da Renováveis e um capex de 707 milhões de euros — é uma das materializações da aposta da empresa para controlar o seu próprio destino. “A capacidade de irmos para as renováveis em 12 países, ter metade nos EUA, estar no Brasil e no Peru, tudo isto mostra a capacidade de criação de opções. Sem a aposta nas renováveis, seríamos uma empresa irrelevante, para não dizer que se calhar teríamos desaparecido. Se tivéssemos feito apostas erradas, como ir para o nuclear, provavelmente éramos uma empresa falida”, afirma em entrevista à EXAME em Washington, à margem da deslocação ao parque eólico.

Receios com Trump foram turbulência passageira

Para já, um dos maiores receios em torno da operação norte-americana — a hipótese de redução ou reversão generalizada das políticas de apoio às renováveis por parte da administração Trump — parece afastado. Isso se não contarmos com a tarifa inicial de 30% aplicada às importações de painéis solares ou com o impacto indireto das taxas a aplicar à compra de aço e alumínio no estrangeiro, que podem ter influência no preço das matérias-primas usadas na construção dos aerogeradores. “As tarifas sobre o aço vão reduzir a concorrência e o comércio, tornando mais caros os projetos de infraestruturas em energia, de capital intensivo, acrescentando custos aos fabricantes norte-americanos em toda a cadeia de fornecimento”, alertou o CEO da Associação Americana de Energia Eólica, Tom Kiernan, na altura em que foram anunciadas as tarifas.

“A realidade tem demonstrado — e acabámos de construir quase 700 megawatts em 2017 — que os receios foram, de certa maneira, infundados”, argumenta o presidente da EDP, referindo-se a um mercado no qual, no espaço de um ano, a energia gerada pela EDP R aumentou 15%. Segundo o CEO da elétrica, não só o poder presidencial nos EUA é limitado pelos checks and balances no Congresso como a necessidade das renováveis no país é inquestionável, desde logo pelo encerramento de capacidade de geração através do carvão. Assim, e pese embora as dúvidas iniciais, Mexia diz que vingaram as regras do jogo e a estabilidade institucional. “Sobreviveu mais uma vez aquilo que é um princípio básico. Quero mudar, mudo para o futuro. Não mexo no passado”, conclui.

No ano passado, segundo a AWEA, o investimento de todos os operadores no reforço de nova capacidade de geração eólica nos EUA ascendeu a 11 mil milhões de dólares. Parte desse esforço veio da EDP, que está a acrescentar quase 500 megawatts em dois parques e na nova fase de Meadow Lake. E pode em breve pôr um pé no mar, já que um consórcio integrado pela empresa foi escolhido para desenvolver 100 a 150 megawatts em offshore, na costa norte da Califórnia.

Para já, a expansão prossegue em terra. E um dia que se faça a história das renováveis nos EUA, Chalmers talvez brilhe no mapa das eólicas. Para a interestadual, rumo a sul, a estrada de saída deixa à vista o cemitério colado à linha do comboio, as igrejas de beira de estrada, as caixas multibanco em drive-through e os camiões possantes que transportam químicos. Enquanto à distância, vigilantes, as linhas de alta tensão acompanham a viagem no horizonte, levando silenciosamente a energia produzida pelos ventos do Indiana a um quarto dos estados norte-americanos. Com marca portuguesa.

*O jornalista viajou a convite da EDP