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Centeno: “Temos de deixar de tratar o euro como uma experiência”

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Patrícia de Melo Moreira / GettyImages

A poucas semanas de uma cimeira decisiva para a reforma da Zona Euro, o presidente do Eurogrupo pediu paciência aos responsáveis comunitários. “A impaciência é a raíz do populismo.”

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Perante uma plateia constituída em grande parte por funcionários das instituições europeias, Mário Centeno argumentou em favor de uma reforma profunda da arquitectura da moeda única. “Temos de deixar de tratar o euro como uma experiência. Passámos pelo inferno para o criarmos e depois para o defendermos. E acredito que somos vencedores líquidos", afirmou terça-feira durante a sua intervenção no Fórum Económico de Bruxelas.
O discurso de Centeno chega poucos dias depois de Angela Merkel ter colocado as cartas em cima da mesa, tornando público até onde está disposta a ir nas mudanças de arquitectura da união económica e monetária e temperando as expectativas de Emmanuel Macron. A crise italiana veio abanar o puxa e empurra de Paris e Berlim, embora ainda seja cedo para dizer em que sentido.

O Conselho Europeu de 28 e 29 de Junho será decisivo. Será nesses que deverá ficar definido que reformas vão para a frente. As mudanças ao Mecanismo Europeu de Estabilidade e a criação de um instrumento de segurança de último recurso (backstop) no Fundo Único de Resolução (responsável por resgatar os bancos) parecem ter boas possibilidades de avançar. Mas ideias mais ambiciosas, como um sistema europeu de garantia de depósitos, terão menos chances.

Na mesma conferência, Marco Buti, director geral da Comissão Europeia para os assuntos económicos e financeiros, falou da necessidade de “atravessar algumas linhas vermelhas”, quando questionado com a posição de partida da Alemanha para as negociações.
Além disso, notou ainda que, nove anos depois da crise, continua a haver narrativas divergentes sobre aquilo que a provocou e qual a melhor receita para sair dela.
Centeno sublinhou as dificuldades em avançar com o projecto de reforma, lembrando que, quando foi eleito para presidente do Eurogrupo, a conjuntura parecia favorável à mudança. As economias estavam a acelerar, havia um ciclo eleitoral iniciado há pouco tempo em muitos estados membros e as pessoas ainda se lembravam de quanto sofreram com a crise do euro. Porém, “não imaginam como as memórias da crise desaparecem rápido”, confessou o ministro das Finanças português, sublinhando que “o progresso económico recente não pode ser dado como garantido”.

No encontro do final de Junho, haverá uma escolha a fazer, avisou Mário Centeno: continuar vulneráveis a uma nova crise ou “levar o euro a sério”. “Agora, é a altura de decidir, não de procrastinar.”

Uma semana depois de o comissário alemão Gunther Oettinger ter feito declarações polémicas sobre Itália - em que referia que a reação dos mercados poderia ser tão violenta ao novo governo transalpino que os eleitores iam perceber que não deveriam votar em partidos populistas - Centeno pediu paciência aos responsáveis europeus, ao frisar a importância de fazer com que todos se sintam incluídos no processo. “A impaciência é a raíz do populismo”, lembrou.