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João Portugal Ramos

João Portugal Ramos

Presidente do grupo João Portugal Ramos Vinhos

Mitos que alimentam a nossa cultura sobre vinho

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João Portugal Ramos

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Desde a sua origem que o vinho está envolto em mistério e tem um carácter religioso, onde os mitos que se propagam são bastantes. Uns com muita verdade, outros de apenas fantasia e de ideias feitas.

Um dos mitos mais antigos é que a vinha tem origem na Arménia, na região do Cáucaso.

Com efeito, está provado que nesta região do Mundo está uma das origens da vitis vinífera, a espécie de videiras europeia que produz as uvas para vinho e para comer. Foi também nesta região, no Monte Ararat, que, segundo a bíblia, Noé aportou a sua arca após o dilúvio e aí plantou a primeira vinha do Mundo.

No entanto, os mais recentes estudos genéticos apontam outra origem para a vinha. Na região mais ocidental da Europa, onde a última glaciação se fez sentir com menos intensidade e, por isso, serviu de refugio à Vitis vinífera. Falamos do território a que hoje se chama Portugal. É também uma explicação para o facto do nosso país ter hoje um enorme número de castas diferentes e uma enorme diversidade genética.

Outro mito ligado à vinha é o de que a poda foi inventada por um Burro.

Esta ideia foi expressa por Pausânias, geografo grego do Sec. II AC, que refere que foi um burro que, devorando os sarmentos de uma videira, ensinou aos habitantes de Náuplia, na Grécia, a arte de podar. Esta ideia, de a poda ter sido inventada por um burro, tem também uma versão nos mitos cristãos, onde terá sido o burro de São Martinho o protagonista.

Da observação sabemos que as uvas de uma videira podada são de melhor qualidade que de uma videira não podada. A influência da poda sobre a qualidade das uvas e dos vinhos daí resultantes é um facto facilmente constatável. Provavelmente, a ideia desta origem muar da poda da vinha advém da recorrentemente pouco reflectida e esclarecida prática da mesma ou longo dos séculos.

Por último, a utilização de carne no fabrico de vinho tinto é uma ideia antiga, que tem algum fundamento prático.

As histórias de colocar presuntos, toucinho, peças de borrego, etc., nos vinhos para os melhorar... Não sabemos até que ponto esta enologia carnívora tem um fundo de verdade. No entanto, a “colagem”, aplicação de uma proteína ao vinho para remover taninos adstringentes, é uma das práticas enológicas mais antigas.

Até aos anos 80 do século passado era permitida a utilização de albumina de sangue de boi. Mas esta prática foi abolida devido ao aparecimento da BSE, a doença das vacas loucas. Hoje em dia estas proteínas podem ter origem animal ou vegetal.

Assim, por entre mitos, verdades e curiosidade também se vai construindo a nossa cultura do vinho.

João Portugal Ramos

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