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Voando sobre um ninho de empresas

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Luís Barra

Incubadora ligada à Universidade de Coimbra gerou mais de 165 milhões de euros de volume de negócios e já criou mais de dois mil empregos diretos

A Critical Software, empresa portuguesa que trabalha para a NASA, foi criada com 5 000 euros e incubada no Instituto Pedro Nunes (IPN), que trabalha em estreita colaboração com a Universidade de Coimbra. Atualmente fatura perto de 30 milhões de euros e tem mais de 300 funcionários. Já a Feedzai, que desenvolve tecnologia na área da cibersegurança e tem no seu portefólio clientes como a Nike, o Lloyds Bank ou o Barclays, ainda tem os escritórios no IPN, enquanto continua a assinar contratos avaliados em mais de 100 milhões de euros. A incubadora, criada em 1995 – e reformulada em 2007 –, é uma das mais antigas do País e espelha precisamente o que o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, tem pedido: que se alargue o canal de passagem de conhecimento entre o meio científico e o meio empresarial. O programa Interface, por exemplo, tem no apoio aos centros tecnológicos um dos seus pilares fundamentais.

Foi precisamente aqui, em Coimbra, que foi lançada a iniciativa PME Líder 2018, uma parceria entre a revista Exame e o Novo Banco, e que tem distinguido, todos os anos, as companhias que se destacam no panorama nacional, sobretudo nas áreas da tecnologia e da inovação. 
O evento contou com as presenças do ministro da Economia, da administração do Novo Banco, da Universidade de Coimbra, da Câmara Municipal de Coimbra, da CCDR Centro e do IPN.

“Os laboratórios nasceram consoante as necessidades que foram surgindo”, explica Teresa Mendes, professora da Universidade de Coimbra e presidente no IPN, antes de revelar que tanto pequenas empresas como grupos de maiores dimensões procuram os serviços da incubadora. O problema é que a taxa de ocupação é 100%, “embora se faça sempre um esforço”, admite a responsável que conduziu a visita ao instituto. Aqui podem chegar alunos da Universidade de Coimbra para desenvolver ideias ou, então, empresas que precisem de ajuda – a título de exemplo, foram os laboratórios do IPN que conseguiram perceber por que razão uma determinada gama de papel produzido pela The Navigator Company estava a encravar nas impressoras (resposta: a qualidade do papel era demasiado boa).

“Já também entrámos com força em projetos europeus, e desde 2015 que coordenamos a incubadora de empresas portuguesas da Agência Espacial Europeia (ESA).” Teresa Mendes aproveitou também a ocasião para apresentar três empresas que servem como exemplo do que tem sido feito pelo IPN, onde já foram “incubadas” quase 300 empresas e onde a taxa de sobrevivência ronda os 75%, muito alta para empresas com poucos anos de vida. Particularmente ligadas à tecnologia, e sempre com estreitos laços com a Universidade, estas companhias apresentam uma capacidade de exportação elevada e já permitiram a criação de 2 200 empregos diretos, revelou ainda.

Volta à incubadora

A primeira empresa que visitámos, e que é o espelho desta excelência procurada pelo IPN, é a Active Aerogels, uma startup dirigida por Bruno Ramos de Carvalho e dedicada a produzir e a comercializar produtos nanoestruturados, que é como quem diz, “produtos que estão a revolucionar a tecnologia devido às suas capacidades de isolamento, flexibilidade e durabilidade”, explica o CEO da empresa. O aerogel é criado através de processos químicos e pode ter várias formas: em banda, flexível, em pedra ou em pó. Pode ser utilizado para isolar edifícios, por exemplo, ou para absorver produtos químicos. Devido às suas características únicas, o aerogel é capaz de absorver petróleo que tenha sido derramado em água, sem absorver a água que o rodeia, o que pode ser uma enorme esperança em caso de desastres ambientais. “Agora, do que precisamos é de escala”, atira Ramos de Carvalho, recordando que esta é uma tecnologia de conceção significativamente dispendiosa.

“A norte-americana Aspen Aerogel, o maior produtor de aerogel do mundo, fatura 100 milhões de euros, mas precisou de investir 500 milhões para o conseguir”, atira a título de exemplo. Apesar de a Active Aerogels usar uma tecnologia de produção mais barata do que a Aspen, são necessários “cerca de 50 milhões de euros para nos verem no mundo”. Já quanto ao volume de negócios, esse chegou aos 173 mil euros em 2016. Por essa razão, a Active Aerogels vai mudar-se para Taveiro, onde conseguirá um laboratório maior e mais adequado às necessidades – e está à procura de um parceiro industrial ou de um investidor para garantir a escala de que precisam.

Seguimos viagem para outro piso, atrás do responsável financeiro da Feed-
zai. A empresa tem sido por várias vezes apontada como a startup de referência, por se ter destacado na área do combate às fraudes de pagamentos. “Recentemente, em cerca de 30 minutos, salvámos a Nike de um ataque de dez milhões de euros” revelou Filipe Neves, CFO da Feedzai, antes de explicar que esta foi fundada por cientistas de dados e por engenheiros aeroespaciais, e que atualmente têm armazenados dados de aproximadamente 670 milhões de cartões de todo o mundo. A empresa desenvolveu uma plataforma informática alimentada por Inteligência Artificial e Big Data para combate à fraude nos pagamentos (lembre-se dela cada vez que usar o PayPal, por exemplo), uma ideia que surgiu em Coimbra e que foi desenvolvida na Universidade de Austin, no Texas, durante um intercâmbio. No ano passado, a Feedzai garantiu um financiamento de 50 milhões de dólares naquele que foi o maior levantamento de investimento de uma startup nacional. Fatura mais de 11 milhões de euros por ano e debate-se atualmente com um problema que tem pouco que ver com dinheiro: precisa de talentos, e esses são escassos no País. 
A vinda das multinacionais como a Google não está a ajudar, uma vez que precisará de recrutar profissionais num mercado já em esforço no que às tecnologias de informação e às engenharias diz respeito. “Não temos talentos”, repete Luís Silva, CEO da WIT, “que já não é bem uma startup”, atira com um sorriso. Fundada em 2001, no seio da Universidade de Coimbra, vai perder o estatuto de PME devido ao número de empregados – que eram três centenas em 2016. “Vou continuar a preencher Portugal com centros para conseguir captar todos os engenheiros de software que conseguir”, afirma, perante o ministro da Economia, o engenheiro informático que lamenta a falta de capacidade de mobilização do País.

“Já abrimos centros no Porto, em Leiria, em Aveiro e em Lisboa”, mas a mão de obra continua a ser escassa. “Por isso, desculpe, mas não partilho do seu entusiasmo com a vinda da Google”, diz a Caldeira Cabral, meio a sério, meio a brincar. A estratégia passa por abrir centros de forma descentralizada, para conseguir captar o talento local. A WIT desenvolve software para empresas de telecomunicações e exporta para todo o mundo, numa altura em que fatura mais de 25 milhões de euros. Como resposta, o ministro da Economia recorda que o Executivo está a criar uma espécie de “Via Verde” para que as startups possam contratar rapidamente pessoas vindas de fora, ou seja, descomplicar a burocracia dos vistos que atualmente existe para muitas nacionalidades e que atrasa significativamente os processos de recrutamento.

“Nós temos pessoas que querem vir para cá, mas depois demoramos tanto tempo a tratar dos vistos que muitas vezes os projetos já estão a meio”, lamenta Filipe Neves. Caldeira Cabral garante que o novo mecanismo deverá ajudar nestes constrangimentos e que serão as próprias incubadoras a fiscalizarem o processo de recrutamento e a fazerem a ponte com as autoridades competentes. Na prática, ficarão como responsáveis pela validação do perfil das pessoas que virão ao abrigo deste programa, até porque têm mais capacidade do que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras para avaliar se estes profissionais são ou não qualificados. O ministro da Economia reconhece ainda a urgência na aposta em algumas áreas críticas e recorda que “a geografia perde peso nesta área de software, de telecomunicações”, instando as empresas a terem mais academias próprias ou a trabalharem em estreita colaboração com universidades e politécnicos, de forma a garantirem que haja mais oferta adequada à procura. No fundo, se é cada vez mais difícil ir buscar gente qualificada ao mercado, então uma boa alternativa será a criação interna de talento, da qual todo o ecossistema acaba por beneficiar.

Particularmente atentos a tudo quanto foi debatido e mostrado estiveram António Ramalho e Vítor Fernandes, respetivamente CEO e administrador-executivo com o pelouro das empresas do Novo Banco, instituição que se distingue exatamente pelo foco no segmento empresarial – daí também a associação, há largos anos, à distinção das empresas PME Líder.

O selo de distinção como PME Líder foi criado pelo IAPMEI e é atribuído anualmente em conjunto com o Turismo de Portugal, contando com a colaboração de uma dezena de bancos e ainda com sociedades de garantia mútua. Na prática, esta classificação é vista como uma marca de qualidade e de sustentabilidade das empresas que a recebem, tendo em atenção os indicadores financeiros e o desenvolvimento operacional equilibrado.

No caso do Novo Banco, o envolvimento vai mais longe, já que há vários anos que a instituição liderada por António Ramalho se associa à publicação de uma revista especial sobre as empresas distinguidas e sobre a realidade das PME portuguesas. A próxima, que é já a décima, será editada pela Exame com a edição de junho.

A visita ao Instituto Pedro Nunes, que já recebeu várias distinções que o posicionam entre as melhores incubadoras do mundo, completou o ciclo virtuoso desta ligação à universidade e à investigação: uma empresa jovem, uma em fase de franca expansão e outra que já bateu as asas para fora deste ninho de excelência. Estas são, no fundo, as empresas que os bancos procuram apoiar e que Caldeira Cabral quer ver multiplicadas pelo País, nos próximos anos.