Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Trabalhadores felizes nem sempre são mais produtivos

Exame

Jos\303\251 Carlos Carvalho

Os trabalhadores portugueses ainda não são felizes, mas estão mais perto. Contudo, será que a felicidade ajuda mesmo as empresas a serem mais produtivas? Há quem ache que ainda não existem provas científicas suficientes.

Nuno Aguiar

Nuno Aguiar

Jornalista

Poucos empresários e gestores discordariam da ideia que é preferível um empregado satisfeito do que insatisfeito com o seu local trabalho. Mesmo que seja um patrão pouco sensível às necessidades das pessoas que emprega, ouviu vezes sem conta que trabalhadores felizes serão mais produtivos e que, no fundo, satisfazer os seus empregados é, mais do que um imperativo moral, uma decisão de negócio.

A verdade é que não é claro que essa equação (trabalhador + felicidade = maior produtividade) seja fiel à realidade. Há até estudos que apontam na direcção contrária. E mesmo que a relação exista, muito provavelmente não será linear.

Na semana passada, o tema esteve em discussão na primeira conferência internacional sobre felicidade nas organizações, organizada pela Atlântica School of Industry and Business e pelo projecto Happiness Works, em Lisboa. Como seria de esperar, o binómio produtividade-felicidade foi bastante discutido. José Maria Peiro (na foto), professor da Universidade de Valência, foi um dos oradores que questionou a linearidade dessa relação. “Durante mais de 50 anos, houve mais de 800 artigos publicados com o modelo “trabalhador mais feliz produz mais”. Fizemos meta-análises e concluímos que não existe uma correlação clara. Não é claro que a teoria “happy worker” faça sentido”, afirmou, durante a sua intervenção.

O problema, aponta Peiro, é que esse modelo não concebe que existam trabalhadores produtivos mas infelizes (e vice-versa) e parece partir do pressuposto que as situações são estanques, quando a realidade mostra que os trabalhadores flutuam entre diferentes estados de satisfação, bem como de produtividade.

De facto, ao contrário do que poderia pensar, a investigação científica existente não é capaz de nos dizer com certeza se um trabalhador mais satisfeito vai produzir mais. Há conclusões contraditórias, as ligações entre as duas variáveis são frágeis e um estudo encontrou até correlações negativas: aparentemente, quanto mais infelizes estavam os empregados de supermercado no Reino Unido mais produziam e mais faziam a sua empresa lucrar.

Ler estas linhas pode assustar qualquer trabalhador. Mas em vez de esconder este artigo do seu patrão lembre-o que ser produtivo não significa que deseje ficar nesse emprego. Posso até estar a ser super-eficiente no meu dia-a-dia, mas apenas à espera da primeira oportunidade para me pôr a andar.

“É isto sustentável?”, questiona Peiro, em conversa com a Exame. “Pode conseguir reter as pessoas por algum tempo, principalmente durante situações de crise. Depende do mercado de trabalho. Se não encontrarem alternativa, podem lá ficar. Em muitos casos, as pessoas estão a trabalhar por medo.”

A receita não parece propriamente apelativa. “Trabalhadores que não encontram alternativas no mercado de trabalho e são produtivos, apesar de serem infelizes” não é grande coisa como slogan, embora possa ser mais fiel do que a simplificação “trabalhadores felizes são mais produtivos”.

Felicidade vale dinheiro

Claro que nem todas as perspectivas são tão cépticas e, por mais que se duvide da influência da felicidade na produtividade, um melhor ambiente na empresa facilita muitas dimensões da vida no trabalho. Georg Dutschke, professor da Atlântica e principal dinamizador da conferência, explicou como as empresas conseguem monetizar a felicidade dos trabalhadores.

As conclusões da última edição do estudo “Happiness Works” - que a Exame publica anualmente - mostram que os trabalhadores mais felizes são 18% mais produtivos. Mesmo que se exclua esse impacto, os ganhos e as poupanças estendem-se a outras duas variáveis: menos faltas e menos vontade de abandonar a empresa. Segundo o estudo apurou, as faltas caem 24% entre os mais felizes (excluindo doença e gravidez) e a vontade de mudar de trabalho é reduzida em 38%. “Duas delas traduzem-se em dinheiro”, sublinhou Dutschke.

A felicidade dos portugueses tem melhorado desde os piores momentos da crise económica. Numa escala de 0 a 5, os trabalhadores assumem uma pontuação média de 3,8 (4 é o limiar da felicidade). Em 2014 foi atingido o valor mais baixo desde que o estudo começou a ser feito, em 2011, com uma média de 3,4 pontos. A melhoria dos últimos anos coincide com a recuperação do mercado de trabalho e da economia nacional.

“A remuneração é a variável com pontuação mais baixa, os objectivos têm a mais alta”, identifica Dutschke, que se tem especializado no tema da felicidade no local de trabalho. “Onde estão as maiores diferenças entre funcionários felizes e infelizes? Na organização e na liderança [da empresa].”

O inquérito mostra que o Estado é o sector com o mais baixo índice de felicidade e a construção o mais elevado. Porém, importa recordar que estas pontuações dependem das respostas dos trabalhadores e, como tal, das suas expectativas, avaliação subjectiva e até conceitos de felicidade e satisfação no trabalho.

As dificuldades da academia

Uma das dificuldades em encontrar evidência científica sobre o tema está precisamente em definir o que é felicidade. “Medir a felicidade é tão fácil como tirar a temperatura da alma ou determinar exactamente qual é a cor do amor”, escrevia há três anos a Harvard Business Review (HBR). Desde o século VI, a felicidade tem sido usada para nos referirmos a uma grande variedade de conceitos, do prazer à realização pessoal. É um conceito muito abrangente e, por isso mesmo, pouco preciso. “Para Jean-Jacques Rousseau, a felicidade era estar deitado num barco à deriva, sentindo-se como um deus (não exactamente um modelo de produtividade)”, nota a HBR. Muitos acharão a definição de Rousseau parva e cada um de nós conseguiria certamente dar uma muito diferente.

Além disso, ninguém nos garante que a busca pela felicidade seja agradável. A pressão para ser “feliz” - hoje ainda mais intensa - pode dificultar precisamente o seu objectivo final. Se a procura pela felicidade nem sequer garante ser feliz, como pode assegurar mais produtividade? Uma busca que passe por sucessivos filmes de gatinhos ao longo do dia pode não resultar em mais eficiência.

André Spicer e Carl Cederström, autores do texto da HBR, notam ainda que a boa disposição nem sempre nos ajuda a trabalhar melhor, citando um estudo que conclui que estar chateado com o mundo nos pode ajudar a detetar se alguém nos está a enganar e outro que sublinha que adoptar uma postura zangada pode contribuir para atingir um resultado mais desejável numa negociação.

Talvez o mais aconselhável seja não forçar a felicidade a entrar no seu escritório, seja através de citações inspiradoras coladas na parede ou exercícios de team building alimentados a vergonha alheia. “Se o seu trabalho parece deprimente e sem significado é porque se calhar ele é deprimente e sem significado. Fingir que não é assim apenas o vai piorar”, diz-nos a HBR, sem misericórdia pela felicidade dos seus leitores.