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De desertor soviético a trunfo em Wall Street

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Na Guerra Fria, o xadrezista Lev Alburt aproveitou um torneio para escapar da URSS e recorda à EXAME o percurso que o levou a dar lições a gurus da Finança de Nova Iorque

Rui Antunes

Rui Antunes

Jornalista

Como planeado, Lev Alburt saiu do hotel na cidade alemã de Solingen, perto de Colónia, com a roupa no corpo e duas latas de caviar enroladas num saco de plástico. O xadrezista não tencionava voltar, mas, naquela manhã de junho de 1979, qualquer bagagem levantaria suspeitas. Integrado na delegação soviética que atravessara o Muro de Berlim para disputar um torneio na Alemanha Ocidental, encenou uma caminhada para descontrair antes da competição. Embora a poucos quilómetros das fronteiras com a Holanda e a Bélgica, acreditava que ninguém o impediria de dar um passeio. E se algum agente mais desconfiado do KGB o abordasse, quando ele já estivesse mais afastado do local, Lev diria que andava a tentar vender o caviar. Só precisava de se distanciar uns metros para chamar um táxi sem darem por isso.

A capacidade de antecipar o próximo movimento quando existem muitas variáveis em jogo, como num tabuleiro de reis, damas e peões, é uma marca distintiva dos xadrezistas de elite. E daí talvez o fascínio pela modalidade nos círculos de Wall Street. Na meca da alta finança e da negociação bolsista, em Nova Iorque, o segredo do sucesso assenta num desafio semelhante: mesmo não sendo possível ponderar todas as jogadas seguintes, impõe-se apostar no cavalo certo, na hora certa, sem vacilar perante a pressão. “Além de exercitar a mente, o xadrez ensina a tomar decisões rápidas em contextos de muita incerteza e com fatores desconhecidos, em que é preciso usar a intuição. E também acontece o mesmo quando se negoceiam ações”, explica Lev Alburt à EXAME, a partir de Nova Iorque, depois de a revista Bloomberg Bussinessweek ter revelado a sua ligação, até aqui desconhecida, a vários protagonistas de Wall Street.

Stephen Friedman, antigo presidente do banco de investimento Goldman Sachs, Eliot Spitzer, o ex-governador de Nova Iorque e ex-procurador-geral que herdou a Spitzer Enterprises (gigante do ramo imobiliário com forte presença em Manhattan), Carl Ichan, afamado investidor, ou Doug Hirsch, que gere há mais de duas décadas o fundo Seneca Capital Investiments LP, são alguns dos nomes a quem o Grande Mestre (estatuto mais elevado no xadrez) foi dando aulas privadas nos últimos 25 anos. Para reforçar a lógica da associação entre as duas atividades, recorda que, na década de 1980, “muitas corretoras americanas contrataram com sucesso para negociadores vários grandes mestres do xadrez”.

Uma porta para o Ocidente

Também é conhecida em Wall Street a atração por outros jogos de estratégia, como o póquer, o bridge ou o gamão, mas quem procura as lições de Lev Alburt em Manhattan, onde se fixou em 1980, vai seduzido pelo xadrez e pela fama do tricampeão americano, que tem quase 20 livros publicados nos EUA e que privou com a nata soviética antes da drástica mudança na sua vida.

Numa era em que as duas superpotências evitavam as balas, mas mediam forças tanto no arsenal bélico como na corrida ao espaço, o xadrez assumiu grande preponderância, sobretudo na máquina de propaganda comunista, que vendia a ideia de superioridade intelectual sobre o capitalismo em forma de xeque-mate. Nesses anos de Guerra Fria (1945-1991), apenas o americano Bobby Fischer, em 1972, quebrou a hegemonia de sete campeões do mundo nascidos na URSS, onde os melhores eram tratados com privilégios.

Nascido em Oremburgo, na Rússia, Alburt cresceu na cidade ucraniana de Odessa e foi terceiro e quinto classificado no campeonato nacional, além de ser tricampeão ucraniano (de 1972 a 1974). “Ganhávamos cinco vezes mais do que um engenheiro. Não era uma vida de luxo, mas, além de salários acima da média, podíamos dar palestras, também muito bem pagas, e acima de tudo podíamos viajar”, conta Lev, hoje com 72 anos, em contacto telefónico com a EXAME.

Ninguém podia sair da URSS sem autorização, mas o xadrez abriu-lhe a porta para o Ocidente. Que ele se lembre, jogou na Suécia, em Chipre e na Alemanha Federal, sem falar nos países da chamada Cortina de Ferro, na Europa Oriental, sob o domínio soviético. Conhecia bem um lado da barricada e não era totalmente ignorante quanto ao outro, como a maioria dos seus compatriotas, sem acesso a livros, filmes e informações sobre a vida no mundo ocidental. Ansiava por liberdade desde muito novo, garante-nos: “O comunismo tira tudo às pessoas. Os seus governantes são muito cautelosos a evitar que as pessoas saiam do país. Exigem que sejam escravas. Também aconteceu com Mao, Castro, todos eles. Quando me dizem que agora está muito mau na Rússia e que no tempo de Brejnev é que viviam bem, acho totalmente errado. Claro que Brejnev foi melhor do que Estaline, mas também não podíamos sair da União Soviética.”

Metade russo, metade americano

Segundo escreveu num artigo de opinião no The Guardian, em 2016, desertar nunca o fez sentir-se um herói. “Não me atrevi a combater o regime soviético a partir do interior”, justificou-se, mas foi preciso coragem para, aos 33 anos, cortar com as raízes e a família, sem olhar para trás (não voltou a ver o pai, que morreria de cancro no ano seguinte, e só reencontrou a mãe e o irmão em 1988, numa visita aos EUA, autorizada já no tempo de Gorbachev). Por norma, na melhor das hipóteses, quem era apanhado era enviado para um gulag.

“Sabia que era um risco, mas nunca entrei em pânico. Na Europa, houve casos de raptos e de assassinatos, mas eu previ que nada me aconteceria, nem à minha família, e assim foi. Apareceram lá com um mandado de busca, mas não encontraram nada. Os meus pais continuaram a trabalhar normalmente e ficaram com a casa”, recorda este dissidente soviético – um dos muitos desse período da História –, a quem o xadrez acabou também por conceder o privilégio de não ser perseguido. “Alguns dos nossos melhores amigos eram figuras proeminentes no governo local, em Kiev, e nem eles nem o Governo soviético tinham interesse em enfatizar a minha deserção. Tomei precauções, mas o facto de ser conhecido – não lhe queria chamar fama – implicava que eles teriam de pagar um preço político alto para me levarem de volta.” Limitaram-se a boicotar torneios em que participasse o Grande Mestre perdido para o inimigo. Nada que o levasse a renegar a Rússia – apenas o regime: “Sinto-me metade russo e metade americano.

80 dólares no bolso

Após percorrer alguns quarteirões na cidade alemã de Solingen, naquela manhã de 1979, entrou num táxi. Num “alemão fluente”, pediu ao motorista para o levar a Colónia, uns 30 quilómetros a sul. Dirigiu-se primeiro à estação de rádio internacional Deutsche Welle, que seguia diariamente, mas ainda não eram nove da manhã e não encontrou ninguém daqueles que, só de ouvi-los, considerava amigos. Tinha esperança de que o aconselhassem sobre o próximo passo. Só que passaram dez minutos e Alburt começou a temer que as polícias secretas, da URSS ou da Alemanha de Leste, pudessem aparecer. Meteu-se noutro táxi – e desta vez deu a indicação para a esquadra de polícia.

Depois de um mês de hotel em hotel, sob forte vigilância policial, aterrou nos Estados Unidos da América, que aceitaram o seu pedido de asilo. “Na Alemanha ofereceram-me guarda-costas para toda a vida, uma nova identidade e até mudar a minha aparência, mas disse-lhes que não podia. Queria poder falar publicamente sobre o regime comunista e continuar a jogar xadrez.”

E assim continuou, até porque chegou a Nova Iorque com 80 dólares no bolso e precisar de dinheiro. Logo nos primeiros dias, disputou dois torneios e nunca mais parou. Já com dupla nacionalidade, tornou-se tricampeão americano, na década de 80, representando o país nas olimpíadas da modalidade. O xadrez foi sempre o seu sustento, mesmo após a reforma da competição, já nos anos 90. Entre as opiniões políticas que foi manifestando, sempre favoráveis a uma aproximação entre EUA e Rússia, a vintena de livros que publicou, assim como as aulas particulares, são fontes de rendimento com o mesmo enfoque: ensinar xadrez desde a base, mesmo a quem não sabe jogar. Uma realidade pouco comum entre os grandes mestres da modalidade. “Já trabalhei com centenas de alunos, de todas as profissões. Alguns apenas por uma vez, do género presente de aniversário, outros durante décadas. Artistas, congressistas, professores, médicos, jogadores de póquer, crianças, donas de casa, reformados, um peixeiro... E, sim, também homens de negócios, entre eles vários gestores de fundos, não há mistério quanto a isso.” Ou eis como um filho do comunismo totalitário se converteu num aliado do capitalismo puro.