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O futuro da banca, da caderneta digital à Avó do Activo Bank

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Banking Summit

Tiago Freire

Tiago Freire

DIRETOR DA EXAME

O sector bancário português, que tem gasto boa parte dos últimos anos a limpar problemas do passado, esteve esta quarta-feira a olhar para a frente. Na Banking Summit, organizada pela Associação Portuguesa de Bancos e pela SIBS, o desafio era simples mas enorme: discutir a “transformação digital na banca portuguesa”. Falamos de futuro, portanto, mas de coisas que já estão a acontecer.

Com os líderes executivos dos cinco maiores bancos a operar no mercado português, a primeira pergunta disparada por Vítor Bento, Presidente da SIBS e moderador do painel, tinha a ver com o que estão os bancos a fazer, neste momento. O mais concreto foi Paulo Macedo, presidente da Caixa, que deu vários exemplos. Lembrando que 10% dos clientes do banco público utilizam ainda a tradicional caderneta, Macedo afirmou a aposta na “caderneta digital”, que permite fazer as mesmas coisas, noutro formato. Não deixando, ainda assim, de expressar uma preocupação quando se fala do futuro: os clientes de agora são, em muitos casos, pouco tecnológicos, e a banca não pode abandonar os clientes mais idosos em nome de uma revolução tecnológica de sentido único.

Um bom exemplo deste fenómeno foi dado por Nuno Amado, do BCP, que contou um episódio relacionado com o ActivoBank, braço do grupo com um pendor mais tecnológico. O presidente do BCP recordou ter recebido um mail de um cliente cuja avó tentara abrir conta remotamente no Activo Bank. Não conseguiu, porque o sistema não aceitava clientes com a idade da senhora, 90 anos. “Era um bug, que não permitia”, afirmou o banqueiro, mostrando que a tecnologia não é só para os jovens.

Em termos de utilizações do digital, Paulo Macedo deu mais exemplos, como a utilização de “robôs” em vários processos internos da Caixa Geral de Depósitos e até o estudo de uma tecnologia de reconhecimento fácil. Esta é utilizada actualmente no BNU, em Macau, nas caixas multibanco. “Estamos a debruçar-nos sobre isso, essa tecnologia”, admitiu o banqueiro.

Com cinco concorrentes sentados à mesma mesa, não foram partilhados muitos segredos em desenvolvimento. Mas há correntes comuns a todos eles. A convicção de que o digital não é uma escolha, e sim uma obrigação; que vai ter efeitos na relação com os clientes e também nos processo internos, permitindo reduzir custos; e que a concorrência vai aumentar e, em certos segmentos, os bancos vão perder negócio.

Neste ponto, uma grande preocupação teve a ver com a regulação, sobre se esta vai ser neutral, ou seja, igual, para os bancos e para as fintech. Ou se, pelo contrário, as instituições financeiras tradicionais vão continuar a ter de cumprir a multiplicidade de requisitos regulatórios e de obrigações para com a supervisão, enquanto empresas tecnológicas mais pequenas poderão prestar os mesmos serviços mas, não sendo bancos, não terão quaisquer encargos e responsabilidades comparáveis.

Pablo Forero, do BPI, deu um exemplo, para o caso de António Ramalho, do Novo Banco, lhe querer fazer uma transferência. Elencou todos os procedimentos de ‘compliance’ a que essa operação é sujeita actualmente nos bancos, toda a informação que tem de ser validada, guardada e validade. E deixa a questão sobre se uma simples transferência através de um operador tecnológico especializado terá toda essa carga burocrática, e de custos.

É preciso saber “se os bancos ficam com os custos e os proveitos vão todos para outro lado”, questionou Paulo Macedo. “Ficam os depósitos, que ninguém quer e que consomem capital”, e outros segmentos menos regulados e com menos obrigações passam a ser feitos por outras empresas que não bancos. O problema é que, sem os proveitos desses outros segmentos da actividade bancária, o que resta dos bancos? Nas palavras de Nuno Amado, “esses novos concorrentes centram-se na área dos pagamentos, não dão crédito, muitas vezes estão fora do espaço europeu, não estão obrigados às mesmas regras. E quem supervisiona tudo isto?”, atirou. A conclusão, novamente em forma de pergunta, vem logo de seguida: num cenário em que os bancos são obrigados a manter custos e serviços não rentáveis e perdem outros, “quem vai financiar a economia portuguesa?”

No mesmo ponto, Pablo Forero manifesta-se optimista, num cenário em que a “regulação for neutral” para os vários agentes. Se não for, há serviços que os bancos não poderão continuar a ter. Ainda assim, para o líder executivo do BPI, os operadores tecnológicos querem, na sua maioria, “trabalhar com os bancos, não concorrer com os bancos”. E todos os presentes concordam que é preciso trabalhar com essas novas empresas e adotar boas soluções tecnológicas que estas possam trazer.

Para António Ramalho, a reinvenção da banca tem de centrar-se, novamente, no cliente, em eixos como a simplicidade e a conectividade permanente com a instituição financeira. O banqueiro salientou uma vantagem competitiva dos bancos face às fintech, é que estas não têm base de clientes à partida, e os bancos sim, bem como uma relação longa com aqueles. Este é, aliás, um ponto defendido por todos, como Vieira Monteiro. O presidente do Santander Totta admite que, em alguns segmentos, “vamos perder negócio? Vamos, com certeza. Mas temos uma relação de confiança com os clientes”, que pode ser trabalhada com novas soluções tecnológicas, algo em que o próprio grupo Santander está a apostar em força, a nível central.

Uma coisa parece certa: os bancos estão conscientes dos desafios, de concorrência mas não só, que têm pela frente. Todos estão a investir em conhecimento, dentro de portas mas também com muita atenção ao que se faz fora. Estão preocupados com uma regulação eventualmente desigual para os diversos agentes, com efeitos não só para a sua rentabilidade mas também para o tipo de serviços e de papel que poderão desempenhar na economia portuguesa. Mas o futuro está já à porta e vai acelerar. Há pistas, muitas, sobre o que vai ser, mas ninguém se atreve realmente a ser definitivo.