Exame

Siga-nos nas redes

Perfil

Minicrash nas bolsas: cinco razões para a queda dos mercados

Exame

Continua a sangria nas bolsas mundiais, depois de ontem os índices norte-americanos terem sofrido, em alguns casos, perdas históricas de valor. Receios da subida demasiado rápida dos juros dos EUA estão no epicentro deste comportamento. Mas não só.

Nas últimas horas os principais mercados bolsistas internacionais mergulharam no vermelho, com quedas acentuadas que em muitos casos anularam todos os ganhos registados desde o início do ano.

As praças norte-americanas e asiáticas foram das mais castigadas. Em Wall Street os índices de referência registaram perdas históricas – o industrial Dow Jones teve a maior queda em pontos de sempre (1.175,21) e tal como o índice mais transversal, o S&P 500, afundou mais de 4% num dia.

Na sessão asiática o comportamento não foi melhor: o japonês Nikkei caiu 4,73% e o Hang Seng de Hong Kong perdeu mais de 5%. Nas praças europeias a manhã desta terça-feira, 6 de Fevereiro, prolonga as descidas de ontem, mas aqui as quedas são ainda assim mais contidas. O português PSI-20 cede 1,06%, depois de ontem ter protagonizado das maiores descidas, e o europeu Stoxx 600 desliza 1,53%.

Mas o que está a provocar este mini-crash bolsista com epicentro nos Estados Unidos e efeito de contágio ao resto das praças internacionais, levando os índices de volatilidade a disparar? São várias as razões apontadas e todas elas interligadas a um receio comum: o de que possa haver uma subida demasiado súbita dos juros na maior economia do mundo.

Valorizações elevadas das ações

Tudo o que sobe tem de descer. O ditado é bastas vezes aplicado aos mercados e assenta que nem uma luva no caso do comportamento recente, em que as bolsas norte-americanas e várias europeias atingiram máximos históricos sucessivos no ano que passou. O movimento em curso pode indicar uma correção ao elevado valor que as ações atingiram nos EUA, impulsionadas pela expetativa em torno dos efeitos da reforma fiscal da administração Trump.

Quedas das tecnológicas e da banca

Entre as ações que pior reagiram nos últimos dias estiveram as da Apple – em mínimos de Outubro depois de a empresa apresentar previsões de receitas de 60 a 62 mil milhões de dólares (contra os 65,73 mil milhões esperados por Wall Street) - e as do banco Wells Fargo, depois de a Fed ter aplicado restrições ao crescimento da instituição, afastando quatro administradores. As más notícias para os dois títulos afetaram a generalidade das cotadas da banca e da tecnologia, contribuindo para as quedas do mercado como um todo.

Obrigações em alta

Coincidindo com a queda dos mercados acionistas, o mercado obrigacionista – nomeadamente o da dívida soberana norte-americana – deu sinais de fortes subidas ao nível dos juros associados a estes títulos, chegando a registar máximos de quatro anos, um sinal de que os investidores antecipam que o ciclo de recuperação económica está a atingir a maturidade e que se espera que a inflação recupere.

“O catalisador não é o medo de um abrandamento do crescimento; é o medo de demasiado crescimento e subida de juros das obrigações. Uma economia global sobreaquecida poderá significar uma mudança rápida dos bancos centrais, travando os estímulos,” afirmou Jeffrey Kleintop, da Charles Schwab, à Time.

"Se a correlação entre yields da dívida e ações mudar, com as yields a subirem ao mesmo tempo que as ações estão sob pressão, então teremos de revisitar todo o nosso paradigma," acrescentou Salman Ahmed, da Lombard Odier, à CNBC.

Inflação nos EUA a despontar

O momento de recuperação para a economia norte-americana começa a ter efeito nos preços ao consumidor, um dos elementos que a Reserva Federal analisa nas suas decisões de política monetária, nomeadamente para condicionar o preço do dinheiro através de mexidas nas taxas de juros. A economia está próxima do pleno emprego e os salários começam a subir, o que tem influência numa subida dos preços.

Por outro lado, a subida de salários significa que as empresas que queiram contratar novos profissionais terão de jogar com um aumento do vencimento que oferecem, o que poderá não só penalizar os lucros futuros das cotadas – reduzindo assim o apetite dos investidores por estes ativos – mas também ter efeito na inflação.

Que resposta da Fed?

A todos estes sinais de recuperação económica e pressões inflacionistas, como reagirá a Reserva Federal norte-americana? É esta a grande dúvida que paira nos mercados, agora que foram digeridos os efeitos da reforma fiscal de Donald Trump, que trouxe consigo baixas de impostos para as grandes empresas. Depois de o banco central dos EUA ter terminado a política de estímulos e iniciado a subida de juros, os analistas antecipam que já no mandato do novo presidente da Fed, Jerome Powell, o ritmo de aumento do preço do dinheiro acelere para quatro subidas este ano.

"Penso que quatro vezes é provável dado o impulso dos cortes de impostos. Isso levará a taxa de desemprego para abaixo dos 4% e colocará grande pressão sobre a Fed para normalizar as taxas muito mais rápido,” disse Mark Zandi, da Moody's Analytics, à CNBC no final de Dezembro. O receio dos acionistas é que, perante este cenário, a Fed possa subir juros depressa demais, o que poderia penalizar a recuperação em curso e desencadear, no limite, nova recessão.