A primeira longa do realizador e produtor Rodrigo Areias, 33 anos, a chegar ao circuito comercial (hoje, dia 28) tem coisas boas e coisas originais. Por vezes, ambas coincidem. O mais extraordinário em Estrada de Palha,  talvez nem seja tratar-se de um  western passado em Portugal, nos princípios do século XX, entre o regicídio e a Primeira República.  Em que os fora-da-lei abundam, os pistoleiros "pistolam" em cada esquina, os xerifes são os agentes da autoridade, os vilões passam o tempo a convocar para duelos, os cowboys são guardadores de rebanhos (e de sonhos), os saloons  tascos de aldeia e se não há Monument Valley, também servem as paisagens rochosas da serra da Estrela, excelentes carreiros para emboscadas - e os campos de searas fazem as vezes das pradarias. O mais insólito nem é o "poor lonesome cowboy" (Vítor Correia) iniciar a sua "cavalgada", com umas raquetes nos pés, para galgar a neve com mais de uma metro e meio de altura, na Lapónia, com renas, o mar Ártico e muita hipotermia. O mais incrível foram as manobras, esquemas, e recursos vários a que o realizador teve de recorrer para de um subsídio para uma curta fazer uma longa. O estado do país na fase da primeira república era caótica. O estado do cinema em Portugal encontra-se, mais ou menos, em "modo faroeste". O que torna um realizador numa espécie de merceeiro manhoso, de lápis atrás da orelha, a fazer contas. "No meu caso, mais um padeiro", comenta Rodrigo, "a tentar cravar migalhas para fazer um bolo. Só que as migalhas vêm de sítios diferentes e o bolo pode não ficar homogéneo". Percebeu logo que, com o magro subsídio, não tinha hipóteses de fazer a curta prevista, portanto partiu para uma longa, "que sempre tem mais impacto e hipóteses de reunir pequenos apoios". Claro que, avisou a equipa, "iríamos dormir menos, ganhar menos, comer pior e carregar mais". Depois de estudar tudo minuciosamente, em três semans e meia de rodagem delineou-se ali um filme de época, com vários décors, animais, armas e figurinos, e "o grau de imprevisibilidade cresceu dramaticamente".

Desde os tempos do cinema mudo que os westerns são um género quase irresistível, há centenas e centenas de filmes, cabem neles obras-primas, os clássicos e os medíocres: é enorme a tentação, há sempre elementos cinematograficamente apelativos, cavalos, conflitos, aventuras, música, paisagens abertas ("e estas são de graça", comenta o lado de produtor de Rodrigo), e todos os clichés tão explorados quanto parodiados. Mas, segundo o realizador, o western não está esgotado: "Aliás, o objectivo não era copiar, mas apropriarmo-nos de um género". E pontoou o filme com citações de Desobediência Civil , de Henry David Thoreau, em que "cada frase é um tiro" e os acordes da dupla Paulo Furtado e Rita RedShoes, que compuseram a banda sonora, enquanto visionavam as cenas do filme.   

Rodrigo sempre a dominar esta ambivalência esquizofrénica de ser, ao mesmo tempo, o produtor ( Produtora Bando à Parte sedeada em Guimarães) que contém o orçamento e o realizador que requer mais dinheiro e tempo. O guião alterava-se todos os dias, os actores não sabiam o texto que tinham de dizer no dia seguinte, mas em contrapartida faziam-se muitas reuniões de trabalho e imperou o espírito de grupo. Os ambientes, os clichés do western, a química que se gerou influenciaram muito os caminhos que o filme ia trilhando. Até na sua maneira de filmar, com recurso ao campo e contra-campo - coisa que ele sempre renegou nos seus filmes anteriores. Autor de A Corrente (Vencedor Nacional em Vila do Conde, em 2008), programador dos filmes de Guimarães Capital da Cultura, este, considera Rodrigo, "é sem sombra de dúvida, o filma mais narrativo que alguma fez fiz". Geralmente, enquadra, e depois logo se vê o que se passa lá dentro. Seleccionado para Karlovy Vary Internacional Film Fest, na República Checa, e já estreado na Filândia (co-produtora), Rodrigo recebeu elogios rasgados de Aki Kiaurismati, "que vão deixar o meu ego afagado durante anos". "The best bloody wester since the fifties", disse-lhe. Rodrigo ainda tentou rebater. Mas Aki não permitiu. Depois disto está preparado para todas as críticas. A Filândia é outra história. E não esta coboiada em que é tudo do xerife. Até ver.