Um western cozido à portuguesa, talvez esta seja uma boa forma de definir Estrada de Palha, de Rodrigo Areias, por analogia aos Western Spaghetti. Areias foi por um caminho diferente de Alentejo sem Lei, a série televisiva. João Canijo, autor da série, fez uma transposição geográfica, mostrando que Portugal também teve o seu faroeste. Contudo não descura o jogo de equivalências. Porque apesar das planícies e da lei da bala, o Alentejo não é a América.
Rodrigo Areias aproxima-se mais do conceito Western Spaghetti. Não faz de Castelo de Vide uma novo Parque Oasys (de Almeria), até porque não lhe interessa um ambiente demasiado cerrado, mas enche o filme de iconografia americana, sem grandes preocupações com a sua justa e rigorosa adaptação ou com a verosimilhança do ambiente. Por haver uma referência vaga ao regicídio percebemos que a ação decorre no início do século XX. Obviamente num Portugal profundo, que funciona à lei da bala. Os vaqueiros são substituídos por pastores de ovelhas, o bourbon por vinho a martelo, mas, de resto, já que ia fazer um western, Rodrigo Areias não abdicou de nenhum dos seus lugares comuns, ou códigos (se lhes preferirmos assim chamar), desde saloons a duelos ao sol, passando por um xerife-vilão bem interpretado por Nuno Melo.
Estrada de Palha não será um exercício de estilo, mas antes um exercício de género. Rodrigo Areias quis fazer um western que fosse classificado inequivocamente como tal, com todos os seus ingredientes. Não se quis dispersar com elementos de fusão, que o poderiam alicerçar no tempo e no espaço.
Apesar das vagas referências, Estrada de Palha é um filme sem tempo nem espaço. Não é um filme de época nem deixa de ser. Essa ambiguidade, desconfortável, que deixa o espectador desconfiado, é dada logo nas primeiras imagens, em que encontramos o protagonista ermitão no meio da neve da Islândia. O filme começa com o desenterrar da arma e acaba com o seu enterro. Este início coloca-nos logo num patamar fantasioso. Contudo essa subjetividade é contraproducente, por tornar mais difícil a ancoragem do espectador no universo. O universo está mal colado, pela indefinição do tom, não é a América nem deixa de ser.
A isto acrescenta-se um outro ponto de ligação, presente nos separadores, que transforma (ou quer transformar) a obra num objeto de análise social. A narrativa é interrompida com citações de Desobediência Civil, um clássico do pensamento anarquista, do século XIX, da autoria de Henri David Thoreau. Estarão aí algumas pistas do que o realizador quererá dizer, mas parece-nos tudo demasiado longínquo e de encaixe rebuscado. Talvez pelo livro também se justifique a enigmática personagem do negro de cartola.
Valorosa é sempre a qualidade estética. Rodrigo Areias é um realizador que sabe olhar. Já tinha mostrado o seu talento em telediscos e curtas-metragens, de que se destaca Corrente, que ganhou Vila do Conde em 2008 e voltará certamente a fazer grandes filmes.
Uma palavra ainda para a boa interpretação de Vítor Correia, um verdadeiro duro, pastor sem ovelhas, cowboy solitário, e para a música original de Legendary Tigerman e Rita Redshoes, com uma participação muito especial de Sean Riley.

Estrada de Palha, de Rodrigo Areias, com Vítor Correia, Nuno Melo, Inês Mariana Moitas, Adelaide Teixeira, Ângelo Torres, 120 min