Um dos pneus da frente derrapou alguns centímetros. Quando tentei corrigir a direção, o carro transformou-se numa matéria mais mole. A serpentear, só voltou a ser de metal quando chocou com o separador. Pronto, já não havia nada a fazer. Aquela tarde tinha mudado para sempre. A lateral raspou durante muito tempo no separador de cimento, mas não foi aí que o carro parou. A seguir, virou-se para o outro lado e chocou com a traseira de um automóvel que seguia à direita, na faixa do meio. A estrada tinha três faixas. Creio que ainda vi esse automóvel a afastar-se, mas não estou certo. Deixei de ver com clareza, o meu carro girava sobre si próprio. Atravessei toda a estrada a deslizar. Esse momento foi rápido porque não chegou para reparar em muita coisa, mas também foi longo porque chegou para pensar. Então, o carro chocou com o separador da berma e ainda voltou para o meio da estrada, onde se imobilizou.

Durante um ou dois segundos, esperei que algum carro desgovernado pudesse chocar contra mim.

Desde ontem, contei esta história várias vezes. Contei-a à minha mãe, aos meus filhos e a um polícia mais novo do que eu, que me tratava por senhor José. No papel do seguro, desenhei esta história com dois quadradinhos a serem o veículo A e o veículo B. Tentei reconstruí-la muitas vezes na minha cabeça.

Ainda não tinha saído do carro, ainda não sabia o que fazer e comecei a ouvir os gritos de uma senhora. O limpa-para-brisas balançava para um lado e para outro.

Enquanto deslizava na estrada, sem nada que pudesse fazer parar o carro, às voltas, antecipei que o para-brisas iria rebentar, pareceu-me que alguma coisa poderia atirar-se de encontro ao para-brisas. Ao mesmo tempo, também senti que algum pedaço de chapa podia facilmente lançar-se na minha direção e atravessar-me o peito.

Completamente amolgada, a porta custou a abrir. Afinal, a senhora só queria acalmar-se e perguntar-me se estava bem. Havia várias pessoas a rodearem-me. Eu acreditava que toda essa gente eram ocupantes de carros envolvidos no acidente. Nesse momento, eu não sabia se havia feridos ou mortos. Aquele era o tipo de acidente onde podia haver mortos.

Estavam vários carros desarrumados na estrada. Todas as pessoas precisavam de falar, precisavam de expulsar alguma coisa de dentro de si. Sem conseguir dizer frases completas, apercebi-me de que toda a gente estava bem e que só tinha acertado num carro. Aos poucos, apercebi-me também que um grupo aleatório de portugueses são muito melhores, muito mais prestáveis, simpáticos, cívicos e cordiais do que, à partida, poderia ter imaginado. Toda a gente quis ajudar, confortar. Várias pessoas deixaram contactos para o caso de serem necessárias testemunhas e houve um senhor que esteve uns bons dez minutos a tentar abrandar o trânsito para impedir que alguém esbarrasse nos carros acidentados. O condutor do outro carro ia na sua vida e, de repente, foi abalroado. Teria todo o direito a zangar-se com o destino e, no entanto, parecia entendê-lo e preocupava-se mais em resolver o assunto.

Ainda na estrada, à espera da polícia e do reboque, telefonei para os lugares onde me esperavam nessa tarde. Logo no primeiro, uma voz entediada, pouco interessada em detalhes e em desculpas, muito mais interessada em saber quando poderíamos agendar outra hora, porque estava atrasada para qualquer coisa. Essa voz não tinha entendido nada.

Somos uma folha de papel, somos um sopro.

Aquelas merdices que nos dão voltas na cabeça, que nos consomem, não têm qualquer valor. Haveremos de arrepender-nos de cada uma delas. A derrapagem de um pneu na estrada ou qualquer outro acaso banal irá abrir-nos os olhos para uma realidade maior. Então, iremos surpreender-nos com aquilo que, afinal, sempre soubemos que iria ser assim. Já lemos em livros, vimos em filmes, ouvimos em canções, fomos avisados mil vezes e, no entanto, precisamos que aconteça mesmo.

E irá acontecer. Mesmo. Já vem na nossa direção. Quando esse instante chegar, haverá verdades que se tornarão únicas e talvez nos admiremos por termos sido capazes de as ignorar com tanta força.