A indumentária assumimos não era a melhor... As calças de ganga prendiam os movimentos, a blusa de manga comprida não ajudava a aliviar a temperatura corporal e as botas, com um ligeiro salto, acabariam por valer-nos uma aparatosa queda... Conselho número um, portanto: calçar sapatilhas e levar roupa desportiva.

Quanto a nós, a verdade é que não tínhamos a certeza de ir participar. Mas as entrevistas iniciais aos atletas, na Praça do Infante onde estava a manga de partida, aguçaram-nos ainda mais a vontade... "Por que não?!" Ainda nem passámos sequer pela casa da partida, mas façamos um rápido salto até à meta, para dizer que, pela descoberta de um Porto escondido e pelo descanso (da vista, pelo menos...) que miradouros inesperados proporcionam, já valeria a pena. Mas depois há, ainda, a adrenalina da competição, o convívio entre os participantes, o terminar e fazer a análise da prova.

No dia em que metemos o turbo, a prova, também pelo centro histórico como a deste domingo, contava para Taça de Portugal nível 2 mas, como em todas as competições desta modalidade (nascida em meados do século XIX nos países escandinavos, em contexto militar), há sempre os "abertos", ou seja, uma categoria em que qualquer pessoa se pode inscrever e, se assim o pretender, solicitar um monitor para a acompanhar.

O nosso, o professor de Educação Física Sandro Castro, membro do Grupo Desportivo 4 Caminhos (organizador da prova), foi uma ajuda preciosa. Sem nos tirar o prazer da descoberta do melhor caminho a seguir, explicou as regras do "jogo" e deu dicas fundamentais sobre técnicas a utilizar. Lá chegaremos...

Para já, inscrevemo-nos e recebemos um mapa da zona devidamente assinalado: com a partida, a sequência dos postos de controlo (ou pontos) por onde teremos de passar e a chegada, devidamente assinalados.

A ligação entre os diferentes pontos, cuja ordem numérica não pode ser mudada sob pena de desclassificação, é traçada no mapa a linhas retas. Ou seja, na impossibilidade de subir edifícios e superar obstáculos cabe--nos avaliar os caminhos possíveis e decidir qual o melhor itinerário a seguir.

Junto com o mapa, vem também um chip eletrónico, uma espécie de pen que há que introduzir nuns aparelhos colocados em cada uma das "balizas" (uns prismas brancos e laranja que identificam os pontos no terreno). Será o chip que permitirá comprovar a passagem sequencial por cada uma das etapas e contabilizar o tempo no final da prova.

Mas aceleremos agora o passo, porque já ouvimos o "pi-pi" ao introduzir o chip no ponto de partida. A partir de agora, o tempo não para de contar... Havia dois percursos, um mais curto a pensar nos principiantes (1,4 quilómetros, 11 postos de controlo), nós arriscamos o mais longo para não perdermos pitada - cinco quilómetros e passagem por 23 pontos até à vitória final. Será?! Só no final saberemos quantos quilómetros percorremos na realidade e qual o lugar em que ficaremos na prova...


A 'TÉCNICA' DO POLEGAR

As partidas dos atletas são feitas a cada três minutos, talvez para evitar a tentação de seguir os passos de outros participantes. Mas, mais cedo ou mais tarde, acabaremos por nos cruzar com os adversários. Segui-los é arriscado... Podem estar a fazer um circuito diferente do nosso, procurar já outro ponto ou, naturalmente, estarem eles próprios enganados...

Como nos aconselha Sandro, o ideal é seguirmos os nossos dedos, pondo em prática a "técnica do polegar" colocar o mapa na direção para onde nos estamos a dirigir e ir avançando com o dedo gordo sobre as ruas que estamos a percorrer.

Será melhor não prestar muita atenção às curvas de nível... podem assustar. "Quanto mais juntas, mais íngreme é o terreno", ensina Sandro. Ora, do ponto um ao dois tivemos logo direito a uma diferença de 30 metros! Lá para o fim, os declives somados ao cansaço custarão bastante mais. Mas, pelos primeiros acordes, dá para ver que a prova é coisa séria e preparação física prévia agradece-se...

Na Rua dos Caldeireiros, a segurar uma alface entre mãos, Marinha Sousa, 49 anos, está intrigada. "Tenho visto muita gente a correr. Dizem que andam à procura do número três mas assim, coitados, a gente não os sabe ajudar", ri-se... Mais à frente, já a passo de corrida, entre as bancas da Feira dos Pássaros, na Cordoaria, ouviremos homens gritar-nos: "Vão atrasadas, já passaram uns quantos à vossa frente", "Acelerem, acelerem!". Agora temos o consolo de ser a descer até ao ponto seguinte, São Bento...

Quem não conhece o Porto, terá certamente dificuldade de concentração... Ainda não chegámos a meio do percurso e já passámos por um bom número de monumentos e edifícios históricos, que não será fácil ignorar: Palácio da Bolsa, Instituto Português de Fotografia, Clérigos. Muitos se seguirão...

Já subimos, descemos e voltamos a subir. Agora andamos perto da Sé e da Casa Museu Guerra Junqueiro que se esconde nas suas costas. Até à zona da ribeira, os pontos levar-nos-ão pelo Porto característico, popular, que se sabe existir mas com o qual poucas vezes se convive de perto. Ruas estreitas, escadas muitas, roupa a secar por cima das nossas cabeças, mulheres a falar de janela para janela, crianças a brincar, música pimba a marcar-nos o passo...

Daniela Silva está a guardar o ponto 16. Não pode abandonar o local, mas também se diverte: "É engraçado porque há pessoas confusas, umas chegam aqui, veem que não marcaram o ponto anterior e voltam para trás. Algumas reclamam!", diz bem disposta. Nós começamos a ter noção do quão atrasadas vamos quando ainda nos faltam sete pontos para chegar ao fim e nos cruzamos com um atleta, José Pereira, que já cruzou a meta. Bom, há que dizer que isto de fazer a prova com bloco e caneta na mão não ajuda... "Desculpas!" diria o atleta que se cruza connosco inúmeras vezes e nos vai lançando "não vale, estão acompanhadas por um monitor que é organizador da prova"...

José Pereira anda a fazer o percurso para tentar encontrar a peça que perdeu do relógio. Deu uma queda numas escadas enquanto estava em prova "Apercebi-me, mas não parei", diz. Nem pela peça nem pelas dores que sentiu num dedo. Ou não estivesse ele a competir no escalão de elite, onde a competição é levada mesmo a sério. Teria sido bom termos tentado perceber exatamente o local da queda de José... Acabaríamos por ter o mesmo azar, no mesmo sítio, ao descer com velocidade precisamente as mesmas escadas, junto da Igreja de Santa Maria da Vitória, onde vale a pena subir para contemplar a vista sobre o Douro, a Ponte D. Luís, a Sé, o Palácio da Bolsa...

Até à meta será sempre a descer, e o pé agradece porque está ressentido da queda. Já perto do fim paramos a falar com o casal Ângela e Nuno Pedro que andam com os filhos, de um e quatro anos, a fazer o percurso curto. "Até a provas ao estrangeiro os levamos connosco", revela Ângela.

Para esta família de Mafra, o desporto é um hobbie. Gostam de "não correr por correr" e aproveitam sempre para conviver com outras famílias participantes e para fazer turismo: "Dá para conhecer sítios novos, desta vez passamos o fim de semana no Porto", contam.

Nós decidimos dar o sprint final para cortar a meta, em plena Ribeira. O relógio com mil e uma funções de Sandro revela--nos que fizemos um tempo de uma hora, 37 minutos e 44 segundos, e que percorremos seis quilómetros e 140 metros.

Para principiantes, não estivemos mal... (sobretudo se não dissermos que o primeiro classificado fez um tempo de 44 minutos...). No site do Grupo Desportivo de 4 Caminhos veremos mais tarde que ficámos em quinquagésimo lugar no nosso escalão, entre 53 participantes e uma dezena de desclassificados. Bem longe do pódio, é certo, mas o Kit-Kat e a água que nos deram à chegada souberam a prata e ouro...

 

II Porto City Race
O circuito de 12 de maio tem um cariz recreativo e pedagógico, pretendendo dar a conhecer a modalidade a todos os interessados. Haverá monitores disponíveis para acompanhar as pessoas que não tenham experiência em Orientação.
A partida é no Pavilhão Rosa Mota às 9h30
€7, €4 (até aos 20 anos)
Informações: Grupo Desportivo dos 4 Caminhos
T. 22 955 2641
Tlm. 93 626 4216
€3-€4