"Espelho, espelho meu, existe alguma estrela pop maior do que eu?" A certa altura, o palco da MDNA Tour (que vai passar por Coimbra este domingo, 24) é um dominó de espelhos gigantes que envergonhariam a aritmética modesta da fábula infantil, meia dúzia de retângulos de megalomania à frente dos quais Madonna Louise Ciccone faz o seu espetáculo ou a sua pergunta fundamental: ainda sou a rainha? Madonna não é a Rita Hayworth da Dama de Xangai, mas usa o preto e o branco, literal e metaforicamente, como uma diva. Ei-la novamente de lingerie preta, com o corpete justo de atilhos que são puxados e apertados por um bailarino, espécie de imolação com ressonâncias sado-masoquistas enquanto canta sobre o amor. Ei-la a lamber o microfone, resgatando a bandeira do sexo. Ei-la a falar de amor e de fé e de guerras no mundo, ei-la a desfiar material pseudoconfessional, reinventando o velho hino Like a Virgin como um lamento ao piano. Apesar do material do disco novo, MDNA, o DNA da cantora é mais facilmente identificado em Human Nature, Vogue, Express Yourself. Ei-la ainda a mostrar, deliberada e provocatoriamente, o mamilo ao público turco, depois de falhar o "acidente" ensaiado com a alça do soutien. Ei-la, depois, a puxar as calças para exibir o rabinho, musculado à custa de disciplina férrea, ao público romano. Nas costas, uma frase carimbada: "No Fear" (sem medo). Já vimos isto antes? Sim. Já desconstruímos, revirá-mos, revisitámos Madonna, mas eis-nos chegados (quase) ao mesmo ponto de partida. "We love you, my queen!", ouve-se o público, convulsivo, em gravações do concerto em Itália.

Sangue novo

É o momento de júbilo desta outra rainha do povo, aos 53 anos de material girl a material mom e novamente a material girl. Desde a última vez que deu um concerto em Portugal, em 2008, durante a digressão Sticky & Sweet Tour, Madonna subtraiu, somou, investiu...

O rosto está mais esculpido do que nunca, e a cantora ganhou olhos de gato selvagem. Os bíceps estão trabalhados como os de um atleta de alta competição, e a cantora não se poupa a piruetas em cima de rapazes musculados e cheerleaders, a coreografias de (mais) piruetas em minissaias e pompons verbais. A cabala é ainda a sua devoção. Ao Malawi, foi buscar uma segunda filha adotiva, Mercy James, mas perdeu admiradores no país ao não conseguir cumprir o plano anunciado de aí construir dez escolas, através da sua associação de solidariedade, Raising Malawi.

Há, ainda, os fait-divers dos homens: divorciou-se do realizador inglês Guy Ritchie e adicionou dois namorados.

O primeiro, foi um jovem brasileiro de nome perfeito para mexer com os seus fantasmas católicos, Jesus Luz. O atual é um bailarino de 24 anos, Brahim Zaibat.

Dentro e fora do palco, as injeções de sangue novo são um modus operandi para Madonna: quem não se lembra dos duetos com Britney Spears ou Christina Aguilera? Agora, as duas novas raparigas malcomportadas na corte de Sua Madista (como, em Inglaterra, chamam aMadonna), que participam num dos temas de MDNA, Tive Me Hall For Login, são M.I.A. e a rapper Nick Minai. Apostolas da multiculturalidade, pode dizer-se: a primeira, pelo som e pela ascendência; a segunda, pela imagem deliberadamente artificial de boneca de manga japonesa. Nenhuma fez sombra à supercapaz Madonna.

Maria Capaz foi a canção que despertou muitos para o hip-hop de Capicua, Ana Matos no bilhete de identidade, nascida em 1982, no Porto. Isto é: tinha 3 anos quando Madonna editou Material Girl, 2 anos quando ela cantou, pela primeira vez, Like a Virgin, um ano quando saiu Holiday. "Foram músicas que marcaram a minha infância. Uma fase mais colorida e divertida de Madonna, que faz parte do meu imaginário como as pastilhas Gorila ou as canetas Molin", conta à VISÃO, assumindo que nunca comprou um disco da norte-americana nem tão pouco a viu em concerto. Mas reconhece Madonna como "uma música revolucionária que marcou o meio pop, pela sua atitude rebelde e desbocada.

E que continua a inovar permanentemente, ainda que eu não goste muito dos seus discos. Tem longevidade e está sempre na crista da onda; fazer simultaneamente parte do passado e do presente não é para qualquer um...". "Qualquer dia vou disfarçada de Madonna, no Carnaval! ", brinca ou será mesmo a sério?

O ar da rua

Rita Redshoes, nascida em 1981, diria mais facilmente ser influenciada pelos Abba do que por Madonna. Mas assume-se sua "ouvinte desde pequena".

Entre março e maio deste ano, a cantora portuguesa andou em digressão com The Other Women o Mundo nas Canções d'Elas, cantando temas de mulheres para quem o facto de serem mulheres tem um peso. Ao lado de nomes como PJ Harvey, Nina Simone ou Joni Mitchell, Rita cantou igualmente... Madonna.

"Madonna é singular. Olho-a e não é a cantora que me arrepia, nem a performer que me impressiona pelas qualidades técnicas, mas sim a personalidade dela que passa para o seu 'boneco'. O seu maior contributo é a libertação sexual, a libertação dos preconceitos do corpo que ela trouxe à pop. Essa dimensão sempre me inspirou e alertou." É um discurso com eco nas palavras de Capicua, feminista assumida: "Mesmo não se afirmando abertamente como feminista, Madonna acabou por demonstrar que é possível as mulheres marcarem o panorama de uma forma bastante diferente do que acontecia até aí. Muitos a consideraram demasiado sexual, mas acabou por provar que as mulheres conseguiram conquistar o espaço público, e ter sucesso, sem pactuar com a moral vigente. A objetivação do corpo da mulher também contribui assim para a afirmação do feminino, e isso é libertador." Outros legados de Madonna atravessam o discurso das duas portuguesas.

Rita sublinha, por exemplo, o sentido de "business girl" (miúda de negócios) e de "construção da linguagem do concerto pop". Capicua aponta outros méritos: "Uma coisa interessante é o apoio dela ao hip hop, à técnica das ruas. A ligação mais óbvia vê-se nas coreografias que vêm do breakdance, do espírito muito competitivo de rua, e na escolha dos bailarinos. Mostra que Madonna está atenta ao fenómenos mais underground, de franja. Isso é um trabalho importante de divulgação, e torna a estética e os clips dela mais inovadores e interessantes." "Madonna é o princípio de todas as Beyoncé...", define Rita Redshoes.

E Lady Gaga, a suposta herdeira e grande concorrente? É uma história complicada. Ao que parece, Mrs. Ciconne misturou Express Yourself com Born this Way da candidata ao trono Lady Gaga. E acrescentou um condescendente: "She's not me" (Ela não é eu)... Tomai e observai, este é o meu corpo, parece dizer Madonna, mesmo que as gerações mais novas questionem a sua relevância musical. "A arte não devia ser vista como um pódio", defende Rita Redshoes, "frases como 'Lady Gaga é a Madonna do século XXI' têm muito a ver com o campeonato em que ambas jogam, mas aquilo que a Madonna conseguiu e construiu, uma pop com densidade, não pode ser posto em causa: é demasiado tempo, são demasiadas transformações, provocações. Não é justo olhar para a sua música e descartá-la por hoje haver imensas cantoras que estão a fazer o que ela fez primeiro", defende Rita. Um jogo de espelhos, portanto.