1. Na VISÃO de 31 de maio escrevi sobre o "caso" Miguel Relvas, em particular as acusações de jornalistas do Público de que teria ameaçado com um blackout informativo do Governo o jornal e com a revelação de aspetos da vida privada da autora de umas notícias sobre as suas relações com o "espião" Silva Carvalho. Repito tudo o que então disse. Como não poder esperar-se muito da decisão da ERC, nem dever dar-se-lhe grande importância. Conhecida a decisão, confirma-se. Tendo Relvas negado aquelas ameaças, embora admitindo ter telefonado, estar exaltado, etc., a ERC não as deu como provadas. Não deu como provadas quaisquer "pressões ilícitas": as pressões que fez foram lícitas e o que disse à diretora e à editora de política do jornal apenas poderá "ser objeto de um juízo negativo no plano ético e institucional" - que não lhe cabe a ela, ERC, formular, acrescenta, depois de, na prática, ter acabado de o fazer...

Para chegar a isto, a ERC esparrama-se em 237 itens de variada espécie: muita água para lavar poucas mãos. E uma decisão que não prestigiando quem a tomou, dá razão àqueles que, como eu, defendem este tipo de entidades, mas com membros não eleitos exclusiva ou maioritariamente pelo poder político, e por isso refletindo-o. Salva-se a fundamentação da certeira declaração de voto, de vencido, de quem tem "obra" no domínio do Direito da Informação e desde a ditadura provas dadas em defesa da liberdade de imprensa: Arons de Carvalho.

Quanto ao resto, como a ERC ilibou Relvas por se tratar de "palavra contra palavra", os cidadãos saberão em quê e em quem acreditar: se foi uma jornalista, a que não se conhece mácula no currículo nem interesse no caso, que resolveu "inventar" que o ministro fez aquelas ameaças, ou se foi ele que, tendo-as feito, depois as negou, para evitar as consequências. O juízo dos portugueses é que é o importante.

2. As receitas fiscais ficaram muito abaixo do que o Governo previu e o primeiro-ministro admite que isso pode pôr em causa (sendo óbvio que põe...) o objetivo do défice, que garantiu seria atingido. E vai daí, que conclusões tira? Que solução propõe para resolver o grave problema? Ou, pelo menos, promete que o Governo a vai estudar? Reconhece que houve incompetência, ou erro, no cálculo dessas receitas? E que houve, não obstante os numerosos aumentos de impostos, por austeridade excessiva?

As respostas, pasme-se, são todas negativas. Nenhumas conclusões, nenhum reconhecimento de erro ou falha, nenhuma proposta nova de solução ou do estudo de caminhos para a encontrar! De facto, o primeiro-ministro limitou-se a dizer que tal quebra não significava, "nesta altura", a necessidade de "novas medidas de austeridade"; ou, noutra versão, que ainda era cedo para falar nelas. Isto é: face a tão dura realidade, a única coisa que ocorreu a Passos Coelho foi insistir em apresentar como remédio o que, por ministrado em doses excessivas (a austeridade), só está a agravar a doença; foi até admitir aumentar a dose, se não anunciar implicitamente que o irá fazer, embora não para já! Assim, onde vamos parar?

3. E do que Passos de novo não falou - quando, dada a situação, mais do que nunca se impunha fazê-lo - foi da renegociação do acordo com a troika. Compreende-se a necessidade de mostrar que o País tudo faria e estava a fazer para o cumprir, mesmo importando isso enormes sacrifícios para os portugueses. Mas tem de haver um limite, que já foi atingido, ou mesmo ultrapassado. E julgo evidente, a não ser para quem use lentes ideológicas tão grossas e deformadoras que não lhe permitem ver, a necessidade e urgência dessa renegociação. Não se pode prolongar o que na melhor das hipóteses será uma "tática" de, sem publicamente o admitir, ir sugerindo nos bastidores pelo menos um prolongamento do prazo para atingir os objetivos do memorando de entendimento - ficando à espera de serem os outros a tomar a iniciativa. Basta! A responsabilidade é do Governo, a iniciativa deve ser de Portugal, e este é o momento para a tomar. Não se pode adiar mais, adiar sempre.