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Primárias, uma "falsa boa ideia"?

Quando ouço as razões de pessoas, incluindo das minhas relações, para se absterem em atos eleitorais, nunca lhes ouvi a pretensão de participarem nas escolha dos lideres partidários. Ouço, sim, o descontentamento com os partidos

O título não é meu. Fui encontrá-lo num artigo do Le Monde , escrito por  Bernard Lamizet,  professor  de estudos políticos, pouco antes das primárias efetuadas, em outubro de 2011, para a escolha do candidato do PS francês às presidenciais seguintes e que resultaram na escolha de Hollande. Foram as primeiras realizadas em França para aquele cargo.  Lá chamaram-se "primárias cidadãs" e foram abertas a "todos os que se reconhecessem nos valores da esquerda e da República".

O ponto de interrogação, esse sim, é meu. Como muitos outros portugueses, a minha primeira tentação é concluir que o resultado das primárias agora efetuadas no PS é positivo. A vitória de António Costa, sobretudo pela dimensão, deixa-o, inquestionavelmente, em melhor posição para disputar as próximas legislativas. Se bem que, nas últimas autárquicas, já tenha sido reeleito com mais de 50% dos votos.

Mas, analisando agora os resultados. Dos 248 573 inscritos, cerca de 150 mil, ao que foi divulgado, eram simpatizantes. Mas, no dia 28, apareceram a votar 174 770. Isto é, apesar da renhidíssima disputa - e da experiência inédita - cerca de 30% dos potenciais eleitores ficaram pelo caminho. E, no total de votos, quantos eram de simpatizantes? Até que ponto modificaram o resultado que dariam umas simples eleições diretas internas? Sejam quantos tenham sido, valeram sobretudo pela dinâmica criada: Costa já é um vencedor mesmo antes de o ser.

Retiremo-nos agora deste caso concreto, até porque algumas figuras conhecidas do PSD já vieram a público dizer que, depois desta experiência, o PSD dificilmente poderá escapar a adotar o mesmo sistema. Parece provado que as pessoas aderem.

Assim, a primeira vantagem das primárias seria combater os níveis de abstenção que, em Portugal como noutros países da Europa, se têm tornado elevadíssimos. Importe-se então esta solução "à americana". Mas sem esquecer que o sistema partidário é bastante diferente, com um leque partidário mais curto do que o europeu. E, já agora, olhando para as taxas de participação eleitoral nos EUA.

Em 1996, Bill Clinton - por sinal um político ainda hoje bem popular - foi re-eleito por 49,08% dos americanos em idade de votar, quando o escândalo Monica Lewinsky vinha ainda longe. Manda a verdade que se diga que, entre os eleitores registados, a taxa de participação foi de 65,97%. Mas o peso simbólico de escolher o presidente dos EUA, o único político eleito pelos 50 estados, não é comparável à eleição de um presidente europeu. E, já agora, existem nos EUA vários tipos de primárias nas eleições presidenciais, e nem todas são abertas. Depende dos estados.

Voltando ao artigo a que fui buscar o título, coloca uma questão pertinente. Se as eleições passarem a ser abertas a quem entender, "para que vão servir os partidos políticos?". Até agora têm sido - ou foram criados para isso - o espaço onde se debatem projetos políticos. E o autor receia que este tipo de eleições contribua para que "o debate entre projetos seja substituído pelo antagonismo entre os candidatos". Ou, dito, de outra forma, corre-se o risco de uma "despolitização dos debates públicos". Ainda maior do que hoje.

Temos bem presentes os debates entre Costa e Seguro, para nos lembrarmos de que, no final, os analistas eram quase unânimes em que, praticamente, não se verificavam diferenças entre os projetos dos dois candidatos. Aliás, eles próprios ironizavam sobre a semelhança de cor das suas gravatas.  Mesmo o projeto político de Costa passava, no essencial, por provar que ele era melhor do que Seguro. E era.

Uma ligeira pesquisa leva-me a concluir que têm sido Partidos Socialistas a introduzir este tipo de eleições. Foi assim, pelo que vi, em França, ou em Espanha. Aqui, Rui Tavares reivindica a inovação para o Livre, nas últimas europeias. Mas isso não me parece comparável a que um dos maiores partidos portugueses tenha adotado o sistema para a escolha do primeiro-ministro. E porque terão sido os Partidos Socialistas a dispor-se a essa mudança? Porque são mais abertos do que os outros à sociedade? Eventualmente. Mas são também partidos que parecem em dificuldade de re-encontrar precisamente o seu projeto político. Basta lembrarmo-nos da chamada Terceira Via, importada dos EUA para a Europa por Tony Blair e, depois, tão replicada.

Que, entre nós, a vontade de participação das pessoas é cada vez maior, sente-se. Está aí. Basta vermos os resultados que movimentos de cidadãos (ou algo apresentado como isso) conseguiram. Mas, quando ouço as razões de pessoas, incluindo das minhas relações, para se absterem em atos eleitorais, nunca lhes ouvi a pretensão de participarem nas escolha dos lideres partidários. Ouço, sim, o descontentamento com os partidos, muitas vezes considerados, com mais ou menos justiça, "todos iguais". E o descontentamento com uma classe política que, em muitos casos - não todos, como é óbvio - usa a despropósito a expressão de "serviço público", quando se refere aos lugares que ocupa. A soma de escândalos sobre tráfico de influências que vêm a público aí estão para o demonstrar.

Não creio que o sistema de primárias agora levado a efeito pelo PS vá remediar as questões de fundo. Mas, uma vez passado o entusiasmo desta primeira experiência, se pelo menos conseguirem envolver mais pessoas no debate político, então que venham mais cinco. Ou as que forem necessárias.

Emília Caetano | | 1 comentário

Os senhores que se seguem

A gritante impreparação de Sarah Palin parece castigo para McCain, que tem centrado o ataque a Obama na sua... falta de preparação
Se é dos que acharam morno, morno, o debate entre Barack Obama e John McCain, tem toda a razão, mas anime-se que a sua vida vai melhorar. Amanhã, dia 2, Sarah Palin, a lufada de ar fresco que o candidato republicano foi buscar ao Alasca para sua vice e que era, afinal, contra o aborto, a regulamentação das armas e a educação sexual nas escolas, confronta-se com o outro candidato a vice-presidente, o democrata Joe Biden, que tem um longo currículo de gafes. Por exemplo, já se referiu a Obama como "o primeiro afro-americano mainstream que é articulado, brilhante, limpo e bem parecido". Sarah Palin que, no início, fez John McCain disparar nas sondagens, começou a inquietar os republicanos logo na sua primeira entrevista, ao admitir que os EUA pudessem entrar em guerra com a Rússia por causa da Geórgia. Mas na semana passada a situação só piorou, ao verem a sua candidata, confrangedora, numa entrevista televisiva, literalmente a balbuciar, enquanto olhava para o colo à procura de um papelinho salvador, quando ia a tentar explicar as consequências que teria um chumbo do plano de salvamento de Wall Street. "Um desastre", confidenciaram senadores republicanos a alguns jornalistas. Por mais que o staff da campanha republicana tenha preparado à sua candidata um manual de sobrevivência para o confronto com Joe Biden, o debate promete. A gritante impreparação de Sarah Palin parece castigo para John McCain, que sempre tem centrado a sua linha de ataque a Obama na sua... falta de preparação para o cargo. Aliás, talvez a frase que mais ficou do seu debate como o candidato democrata foi a que repetia, como se de um estribilho se tratasse, para introduzir todas as questões de política externa: "O senador não percebe...". Já agora, por muito que se diga que não existem diferenças significativas entre ambos em termos de política externa, na mesa-redonda que a CNN promoveu logo a seguir ao debate ficou patente que, pelo contrário, nestas eleições há mesmo, senão grandes divergências de propostas, pelo menos uma atitude bem distinta entre os dois candidatos nesta matéria. Obama defende, de facto, uma via mais negocial, enquanto McCain usa um tom bem próximo da Guerra Fria, quer relativamente ao Irão, quer mesmo à Rússia.

A arma da Mulher

Além do voto de protesto de algumas feministas e do apoio das hockey moms, Palin parece estar a conseguir uma certa identificação por parte da americana média
Há uns bons anos, uma conhecida marca de cosméticos tinha um anúncio com um revólver de onde saía uma rajada de batons, como se de munições se tratasse. Por baixo da fotografia, a promessa: "Batom, a arma da mulher". E alguma razão deve haver sobre esse poder do batom. Talvez a imagem que, com o tempo, mais perdurará sobre o assassínio da ex-primeira ministra paquistanesa Benazir Bhutto seja ela a pintar os lábios, imediatamente antes de entrar para o comício onde a sua vida chegaria ao fim. Sarah Palin, a governadora do Alasca que o republicano John McCain escolheu para sua "vice" na corrida à Casa Branca, resolveu também desenterrar essa arma. Desconhecida entre a classe política, havia até agora um único livro sobre ela, que a descrevia como uma ex-hockey mom, outra versão das soccer moms, expressão muito usada nos EUA para definir as donas de casa mães de família cuja actividade mais notória é levar os filhos ao futebol. Pois logo na sua estreia na convenção republicana, Palin resolveu contar uma anedota: "Sabem qual é a diferença entre uma hockey mom e um pitbull? O batom." Estava lançada a sua imagem de marca e, ao mesmo tempo, definido o seu alvo: as hockey moms, um eleitorado pouco sofisticado mas numeroso e, por isso mesmo, nada despisciendo para qualquer partido. Por mais que Palin se dirija descaradamente aos 18 milhões de apoiantes de Hillary Clinton (em grande parte mulheres) que ficaram pelo caminho nas primárias, sabe que nunca terá o voto das feministas. Só o seu "não" ao aborto já chegaria. Mas ela é também contra os casamentos gay e a educação sexual nas escolas, a favor da pena de morte e do uso de armas. Tudo isso a separa desse sector. Gloria Steinem, conhecida feminista e apoiante da sra. Clinton, publicou um texto no Los Angeles Times onde se insurgia contra a tentativa de McCain de quase querer apresentar Sarah como uma segunda Hillary: "A única coisa que Palin tem em comum com Hillary é um cromossoma", ironizou. E, apesar de as apoiantes da ex-primeira dama continuarem a sentir-se injustiçadas por o Partido Democrático não a ter sequer candidatado como vice-presidente, Steinem opunha-se energicamente ao voto de protesto em McCain: "Seria como alguém dizer 'já que me roubaram os sapatos, então vou cortar as pernas'". Barack Obama teve o seu primeiro deslize desde o aparecimento de Palin ao escorregar precisamente no batom. Queria dizer que não basta a McCain pretender que, afinal, o candidato da mudança é ele, por ter uma mulher como "vice", pois na realidade será sempre "mais do mesmo", o prolongamento dos anos Bush na Casa Branca. Ia ele a acabar o raciocínio quando - sabe-se lá por que poder do inconsciente - lhe saiu aquela expressão tão comum nos EUA "pode pôr-se batom num porco, mas ele continua a ser um porco". Por acaso, McCain usara a mesma expressão a propósito das propostas de Hillary para a Saúde. Mas agora todos a acharam uma referência a Palin. Anda por cima, de mau gosto. Se bem que dificilmente devesse sentir-se ofendida com a imagem alguém que se auto-define como um pitbull de batom. É verdade que Palin não maneja a política internacional com o mesmo à vontade do que o batom. E, logo na primeira entrevista, ao defender que a Geórgia e a Ucrânia se tornem membros da NATO, foi surpreendida pela pergunta do entrevistador se isso poderia envolver uma acção militar contra a Rússia. "Talvez sim", respondeu, porque, afinal, a NATO tem as suas obrigações. Os analistas apressaram-se a destacar a falta de experiência política de alguém que pode tornar-se de um dia para o outro Presidente dos EUA, em caso de acidente do propriamente dito. Mas entre o eleitorado a questão não parece ter tido qualquer relevância. As sondagens efectuadas nos últimos dias mostram que Palin fez MacCain disparar nas sondagens e que este já recolhe agora mais votos do que o seu adversário (53%) entre o eleitorado feminino. Além do voto de protesto de algumas feministas e do apoio das hockey moms, Palin parece estar a conseguir uma certa identificação por parte da americana média. Algumas mulheres (quantas?) acharão que mais importante do que as divergências sobre o aborto é haver na Casa Branca alguém que conhece os problemas da mulher trabalhadora, que começa o dia a correr para o infantário e ainda arranja um minuto para o batom antes de entrar no emprego. Todo um eleitorado que Barack Obama terá de saber reconquistar ou, ele que há poucas semanas parecia imparável no caminho para a Casa Branca, corre o risco de não ganhar. Nem pintado.
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