Enquanto em Portugal as notícias que ouvimos sobre os bancos prendem-se com a falta de liquidez, com a necessidade de aumentar o capital, com a falta de financiamento às PMES e à economia em geral, e com a perda diária de valor destes bancos em tempos considerados como que "fora de perigo" da crise financeira internacional, em Washington os principais bancos internacionais juntaram-se às agências e organizações ambientais, defendendo a necessidade de se remodelar toda a filosofia do sistema financeiro, passando pelo destino dos investimentos realizados.

Em cada 2 anos, a UNEP FI - United Nations Environmental Programme Finance Initiative - realiza uma conferência internacional sobre o papel dos bancos e do sistema financeiro na promoção de uma economia sustentável. No passado mês de Outubro deu-se o 13º encontro, este ano intitulado: "The Tipping Point: Sustained stability in the next economy ". Esta conferência tinha como objectivo encontrar soluções sustentáveis que pudessem contribuir para a diminuição da volatilidade dos mercados e das disparidades entre os pobres e ricos.

A importância destes temas para o sector bancário é cada vez mais visível, e são vários os nomes sonantes que apelam a um mercado financeiro mais ético e mais preocupado com as consequências de médio-longo prazo dos investimentos realizados. Por isso, esta conferência contou com apresentações de Gordon Brown (ex primeiro Ministro Inglês), Mary Robison (ex primeira Ministra da Irlanda) e de várias casas de investimento como State Street Global Advisors, Aviva Investors, China Merchants Bank e Munich Re. Em termos governamentais, a agência para a protecção do ambiente americana, também esteve presente. De notar que nos EUA existe um enquadramento legal, desde os anos 80, que permite que os bancos possam ser considerados responsáveis pelos danos ambientais causados por um seu cliente, existindo casos em que os tribunais decidiram ser responsabilidade do banco a limpeza do dano ambiental causado. Algo que não existe em Portugal, mas que não está também expressamente excluído da Diretiva de Responsabilidade Ambien
tal em vigor a nível Europeu.

Assim sendo, as recomendações que saíram desta conferência que contou com a participação de Bancos privados, seguradoras mundiais, gestoras de fundos e outras organizações, foram:

  • Implementação de políticas que possam mobilizar investimentos em escala do sector bancário e financeiro para sectores emergentes associados à sustentabilidade, como sector das energias limpas, energias renováveis, construção sustentável e automíveis amigos do ambiente. O CEO de uma das maiores casas de investimento americanas -  Calvert Investments -  afirma mesmo que "As políticas económicas devem movimentar-se de forma a satisfazer as necessidades de todos os stakeholders. Não é suficiente restaurar a indústria financeira para os níveis anteriores de capitalização e lucro, sem simultaneamente existir a possibilidade de se criar um caminho que pretenda devolver a todos os americanos os níveis anteriores de segurança, oportunidade e económicos."

Ao nível do mercado existente para a Economia Verde, Mary Robinson afirmou que " O mundo financeiro tem de fazer a sua parte na criação de mecanismos que levem a uma economia verde e mais equitativa". Na realidade, o mercado da economia verde existe e está à espera que o sector financeiro o reconheça como tal. Estudos realizados pelo TEEB - The Economics of Ecosystem and Biodiversity, uma iniciativa que junta economistas e biólogos para contabilizar o potencial económico da natureza -  estimam que com um mercado bem regulado o potencial valor monetário dos serviços da floresta e seu relacionamento com o carbono, poderia crescer 10 mil milhões de dólares até 2020, estimando-se que  os serviços e bens provenientes dos ecossistemas das florestas atinjam os 5 triliões de dólares. Estes mercados são assim mercados novos, mas com imenso potencial, sendo necessário que o sector bancário os compreenda para poder financiar. Esse parece ser o caminho necessário à promoção da criação de emprego e bem-estar social. E os
bancos internacionais já o recinhecem.

Quando é que teremos em Portugal os bancos a discutir estes temas inovadores e verdadeiramente importantes? Será que nunca conseguimos olhar o futuro e antecipar? Será que é assim tão difícil compreender o mundo que nos rodeia? Caso os bancos portugueses não consigam compreender como estes temas também são importantes para a qualidade da sua carteira de crédito, por julgarem que são temas longínquos, eles podem também estar a aumentar o risco de incumprimento a médio prazo do seu portfolio.

Já era tempo de conseguirmos antecipar o futuro, e não pensar que ele nunca chega.