Na dedicatória, o autor Tiago Carrasco, 28 anos, lembra, obviamente, os companheiros de viagem, João Fontes e João Henriques, ambos com 27 anos. Mas não esquece também "todos os chefes que nunca me propuseram um contrato de trabalho - sem eles este livro não teria sido possível".

Em África, desenrascados
DR

O livro Até Lá Abaixo (Oficina do Livro, 314 págs., €13,50) nasceu em três meses, após terem regressado de uma viagem-aventura por África, que os levou aos três para dentro de um jipe, sem mapas nem GPS, e com pouco dinheiro no bolso (15 mil euros), para percorrer 30 mil quilómetros. Objetivo final: ver o Mundial de futebol, na África do Sul. Perderam-se ainda antes de terem passado a ponte Vasco da Gama, em Lisboa. Era apenas o início de um ror de histórias que teriam para contar. Basta pôr o gravador no on para se multiplicarem:

Tiago: "Não devíamos ter preparado esta viagem em dois meses, porque éramos inexperientes. Mas foi o desespero, queríamos fugir à rotina."

João H.: "A coisa correu bem, porque fomos genuínos e sempre assumimos isso."

João P.: "Trabalhámos todos os dias. Só baixámos os braços na África do Sul."

Tiago: "Dormimos 80% das vezes na pensão mais barata que encontrávamos. Também o fizemos em tendas, ao relento, no jipe ou em casa de amigos que íamos conhecendo. Só quando estávamos exaustos procurávamos um hotel de 20 euros para os três."

João H.: "O tempo de espera nas fronteiras, que podia chegar a cinco horas, durava até eles perceberem que nós não tínhamos mesmo dinheiro para lhes dar. Quando dizíamos que íamos montar a tenda na fronteira, eles acreditavam."

Tiago: "Passámos três dias em Lagos [Nigéria], no maior bairro de lata de África, a que chamam cidade selva. Foi brutal."

João H.: "Claro que nos zangámos, mas para o que podia ter corrido mal... Depois das zangas, tínhamos de voltar para o carro, por isso não havia outro remédio senão resolver as coisas a bem."

João P.: "Numa cidade horrível do Zimbabué, começámos a mudar o pneu que um miúdo nos tinha rasgado, por não lhe darmos dinheiro, quando reparámos que nos estavam a roubar o carro. Vi um tipo com a minha mochila e comecei a insultá-lo. Fomos a correr atrás dele, o que resultou, porque largou a mochila, antes de chegar a um carro com mais quatro pessoas. Pensaram que nós éramos doidos..."

Lição de vida

Quando chegaram à África do Sul, no tempo estipulado, os três amigos não tinham um tostão. Ficaram refugiados em casa de uns primos de Tiago, até conseguirem dinheiro para voltar, fará em julho um ano. Esta viagem deu-lhes a volta à cabeça. Já não pensam como antes, tudo se tornou mais relativo. Percebem, agora, que quando desejam realmente uma coisa, não há obstáculos que os impeçam de a perseguir. Em Portugal, continuam a trabalhar, em versão precária, no jornalismo (Tiago escreve, João Fontes filma e João Henriques fotografa). Por isso, nada os impossibilita de partir outra vez, agora com mais alguma coisa na mala do carro. Em vez de 45 bolas de futebol, lá estará a experiência...