"Quer participar numa investigação sobre sexo?" O repto foi lançado aos frequentadores do site da VISÃO, em novembro do ano passado. A ele aderiram milhares de homens portugueses, que responderam anonimamente ao inquérito deste estudo internacional, sobre interesse sexual masculino. Liderado pela investigadora do ISPA, o estudo foi feito em conjunto com as universidades de Zagreb, na Croácia, e de Tromso, na Noruega. Os resultados preliminares, aqui apresentados em primeira mão, sugerem: os portugueses deixam a desejar na cama (16% não tem vontade), mas não tanto como os croatas e os noruegueses (25% e 30%, respetivamente). O trabalho já foi aceite para publicação no Journal of Sexual Medicine.

A que se deveu este trabalho, exclusivamente com homens e nestes países?

A ideia partiu da minha experiência clínica, onde fui recebendo cada vez mais queixas de diminuição do desejo no masculino. Esta web survey surgiu na sequência de outra que realizei, com uma amostra de quase 4 mil mulheres portuguesas. Eu já conhecia os investigadores Aleksandar Stulhofer (Croácia) e Bente Træen (Noruega) e quisemos fazer uma análise comparativa dos dados obtidos. Sondámos 6 mil homens dos três países, com inquéritos online, e validámos 4 mil, com idades entre os 18 e os 75 anos. A parte portuguesa (70% dos inquiridos) contou com o financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Que conclusão pode tirar, a partir dos resultados preliminares?

Tanto no estudo feminino como no masculino, há dificuldade em distinguir entre excitação (natureza fisiológica; exemplo, lubrificação, ereção) e desejo. Apenas uma minoria o reconhece enquanto uma vivência cerebral, uma vontade ou motivação. O stresse laboral é o grande inimigo dos croatas, em menor grau para os portugueses e ainda menos para os noruegueses.

O que a surpreendeu mais nas respostas da amostra portuguesa?

Eles também ficam sem vontade para o sexo. Sobretudo entre os 30 e os 39 anos (24%), quando se confrontam com a ascensão na carreira, a paternidade, problemas no casamento, divórcios. Nas entrevistas qualitativas constatei alguma indefinição e dúvidas, relativamente ao que é esperado deles, no seu papel de género.

Nas três amostras, os inquiridos afirmam ter relações sem vontade e a maioria (mais de 60%) refere perturbação pessoal. O que se passa?

A fadiga, o stresse profissional e aspetos interpessoais (conflitos conjugais, passividade da parceira, desajustamentos eróticos) são as razões mais apontadas para não ter vontade. Há também os problemas de saúde e os efeitos secundários dos medicamentos. Mas a masturbação e o consumo de pornografia (muito acentuado nos croatas, mais do dobro que em Portugal) são comuns na amostra masculina, o que não acontece no estudo das mulheres. A grande surpresa é a associação entre a perda de interesse sexual e a perceção negativa da autoimagem. Isto acontece com as mulheres, mas nos homens, é a primeira vez que se verifica num estudo.

 

Quem é Ana Carvalheira: Psicóloga e sexóloga, 40 anos 

Presidente da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica. Investigadora no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. Doutorada em psicologia pela universidade de Salamanca, pela normativa europeia. Exerce clínica privada há 12 anos. Autora de números artigos sobre sexualidade feminina e masculina, publicados em livros e jornais científicos.