Chama-lhe um remake neurogótico, mas O Barão, de Edgar Pêra, que estreia amanhã em sala e tem passado por inúmeros festivais, é, sobretudo, uma nova experiência cinematográfica, um filme que se destaca formalmente de tudo o que costuma passar em cartaz. Há imagens sobrepostas, legendas que se recusam a submeter-se à parte inferior do ecrã e uma montagem endiabrada. Também a música das Vozes da Rádio, a atuação visceral de Nuno Melo e um sentido estético tão vintage como vanguardista. O JL falou com o realizador e, no site, recuperamos o texto sobre o filme publicado aquando do IndieLisboa

Depois de Rio Turvo, O Barão... Dás-te bem com Branquinho da Fonseca? É um escritor particularmente cinematográfico?
Branquinho é um escritor singular e com o qual me identifico pelo seu desalinhamento. Desafiou dogmas artísticos e políticos. As suas páginas são ecrãs, onde o leitor/espetador projeta as suas imagens. Não é um autor realista que discrimina todos os detalhes duma casa ou do passado duma personagem, o que permite inscrever cinematograficamente as imagens que o livro nos sugere e não apenas as que lá estão escritas. São imagens do pensamento. As personagens voam entre cenários, teletransportam-se. De súbito, a meio dum monólogo, damos conta que o cenário desapareceu e já estamos noutro local. Foi o que fiz no filme.

Mas O Barão nada tem a ver com Rio Turvo, que talvez seja um dos teus filmes mais convencionais. Desta vez rompes com o esperado, mas por caminhos radicalmente diferentes do que nos habituaste em Marialva Mix e num sem número de curtas metragens. O que é feito de todos aqueles K W Y?
Antes de mais, Rio Turvo voltou à sala de montagem e vai agora estrear-se no Festival de Cork, onde haverá uma retrospetiva da minha obra. Os Ks desapareceram dos meus filmes com o findar do século XX. Talvez tenha sido arauto dessa escrita sónica, mas hoje os Ks banalizaram-se nas sms, etc...

Chamaste a O Barão um remake neurogótico de um filme fantasma. Porquê?
Porque é baseado no filme original, rodado por equipa luso-americana durante a II Guerra Mundial, e mandado destruir pelo Ditador (A Besta Que Não Se Deve Nomear).  É um filme neurogótico, ou de terror psicológico,  porque, o espetador tem de imaginar as partes censuradas pelo regime fascista.

A ideia é recuar a um tempo, ao expressionismo alemão mas não só, a uma altura em que o cinema soube usar a imagem e a técnica de forma particularmente criativa, mas também difusa?
Viajei até aos anos 40, concorrendo com os cineastas da época, procurando alternativas cinematográficas, simultaneamente obedecendo aos cânones dos filmes draculescos e reinventando a linguagem do género de horror.

Misturam-se aqui vários elementos. Há um contexto histórico, no salazarismo, mas também um barão com ares de conde Drácula. Que leitura se pode extravasar daqui?
Todos os Dráculas são tiranos e todos os ditadores sugam as almas do seu povo.

O ritmo da montagem, a sobreposição de imagens, a forma como se incluem as legendas, é toda uma experiência cinematográfica para o próprio espetador. De alguma forma proporciona um cinema-espetáculo, através de artefactos técnicos, mas sem recurso ao 3-D. Concordas?
Gosto de criar filmes imersivos em que o som abraça o espetador e o ecrã é um um vortex de imagens. Mas não tenho nada contra o 3-D. Antes pelo contrário, acho que é uma forma de atrair mais espetadores e também um recomeçar da linguagem cinematográfica, como se estivéssemos de novo nos tempos pioneiros do cinema mudo. Aliás, vou fazer de seguida A Muralha do Sonho uma curta-metragem 3-D para Guimarães Capital da Cultura.

Achas que o cinema (pelo menos aquele que mais se vê), por vontade própria, tem abdicado de recursos, como o ecrã dividido, a sobreposição de imagens, etc... Como se de alguma forma se tivesse acomodado a um esquema estabelecido, não procurando formas alternativas de comunicar?
Infelizmente sim. Não necessariamente pela recusa em manipular a imagem, mas sobretudo pela recusa em inovar do ponto de vista plástico e narrativo. Desde o fim do cinema mudo que o cinema hollywoodesco, mas também o europeu, se tem vindo a afunilar. O Barão é cine-cosmopolita, inscrevendo-se na tradição dos filmes que procuram uma voz original, mas dentro de regras definidas, subvertendo um género estabelecido.

No final de tudo, há uma surpresa, é um comic relief em desespero de causa?
Não houve desespero absolutamente nenhum, o filme está como eu queria. Essa sequência é um bónus e 3 minutos para aqueles que ficam até ao fim.

Tens um novo filme no DocLisboa. De que se trata?
Horror no Bairro Vermelho (Prólogo Documental) confronta um parágrafo de H. P. Lovecraft, com um foto-diário do campo de concentração de Auschwitz. O texto, retirado de The Call of Cthulhu foi escrito em 1926, antecipando os holocaustos da Segunda Fuerra Mundial. O título do filme é inspirado noutro conto de Lovecraft, Horror em Red Hook, um bairro de tijolo. Como Auschwitz.

Qual será a tua próxima longa?
Dois projectos em curso: Horror No Bairro Vermelho, adaptação de Lovecraft, um filme sobre a Fobia ao Outro, e Portugal A Arder, um filme sobre o PREC nos liceus e as FP25. Agora resta esperar que os compromissos do FICA com a Cinemate sejam honrados.