>> Matosinhos

As sete vidas de Narciso

Há quase um mês que Narciso anda com o coração nas mãos. E na boca. "Se me quiserem ver de novo na presidência, têm de votar no coração. Não é na setinha, nem na mãozinha ou no pezinho. É no coração." Indiferente ao cenário, seja ele uma arruada, um comício ou mesmo um debate televisivo, o agora candidato independente à Câmara de Matosinhos não se faz rogado e, por entre risos  trocistas e críticas mais duras, saca de um boletim de voto para mostrar como se deve fazer. O realizador muda o plano. Narciso não. Cinco anos depois dos fatídicos acontecimentos da lota, está de volta à faina eleitoral. Aquele que ficou conhecido como o "Senhor de Matosinhos" quer regressar ao altar que foi seu durante quase três décadas. Ao longo desse reinado, socialista que se prezasse não abdicava de ir a banhos de multidão, no município. De Soares a Almeida Santos, passando por Constâncio ou Guterres, todos provaram o suplemento vitamínico que Narciso proporcionava, em períodos de campanha eleitoral.

Outros tempos. Gloriosos, para muitos, mas passados. Agora, qual dos históricos camaradas do PS quer ser visto com ele? O tempo, lamenta, é "dessa geração de políticos da nova vaga, saídos das juventudes dos aparelhos partidários, gente que nunca trabalhou. Os tipos que não incomodam os governantes e que esses acham uns 'gajos porreiros'". Com saudade, recorda o período em que ele, em Matosinhos, Fernando Gomes, no Porto, e Vieira de Carvalho, na Maia, "batiam o pé aos ministros e o Norte tinha peso político em Lisboa".

Mas a morte de Sousa Franco, candidato socialista ao Parlamento Europeu, em consequência de ter sido involuntariamente apanhado no meio de uma refrega política local, foi também o fim do percurso de Narciso no PS. Cinco anos volvidos, sem a embarcação que lhe era providenciada pelo armador, o arrais juntou os aprestos, arranjou outra tripulação e voltou a soltar as redes. Mas o tamanho do novo barco já não dá para campanhas de arrasto nem para convencer mesmo aqueles que lhe dizem querer votar nele. Muitas vezes é preciso pescar à linha. E mostrar a cruz no coração.

>> Marco de Canaveses

 

O 'sempre-em-pé'

Ninguém apanha Avelino Ferreira Torres. Quase a fazer 65 anos, anda numa correria. Tanta energia "vem do sangue", disse ele à VISÃO, numa destas noites de campanha. Todos os dias, entre as 21 e a meia-noite percorre cinco localidades para fazer o seu comiciozinho, na tentativa de reconquistar a Câmara de Marco de Canaveses. E é vê-lo saltar da escola primária de Gouveia, em Várzea de Ovelha, para o seu Mercedes, onde já o espera o motorista, com o motor ligado, para arrancar "a mil à hora" para a segunda sessão da noite.

As estradas estreitas que serpenteiam serras desertas e escuras não lhe metem medo. Sítios recônditos, povoados de pessoas pobres, humildes, e de horizontes cortados pela interioridade, são o seu habitat natural. É a eles que Torres, truculento e terra-a-terra, garante gerir a autarquia como a sua casa. Pelas dez e meia, já vai na terceira visita. Casa do Povo, na Toutosa. Esperam-no, há mais de uma hora, umas 50 pessoas. Entra a correr, salta para o palco e desbunda os dez minutos de propaganda. Dominam os ataques a Manuel Moreira, o autarca do PSD. "Ele diz que têm medo de mim. Mas eu não sou nenhum Hércules!" Risos. Apela ao voto na candidata comunista à freguesia e assegura: "Vamos pôr em vigor o PDM antigo, para que todos possam fazer a casa onde quiserem e os vossos filhos não precisem de mudar de concelho." Sabendo que apenas 25% do município têm rede de esgotos e água potável, um homem atira: "O saneamento é para se fazer?" Nim. "Se é o que dizem, a Câmara está em ruptura financeira... não sei se pode fazer-se", foge Avelino. 

Ala que se faz tarde. Ninguém o apanha. Nem a Justiça. Os 23 anos à frente da autarquia (1982 - 2005) valeram-lhe vários processos.  Contas feitas ao rol de condenações e inocências, ele aí anda. Há quatro anos, teve a primeira derrota: perdeu no concelho natal, Amarante, como independente.

Corre, agora, para o pódio, outra vez no Marco. Imperam centenas de cartazes XXL, com o candidato todo-o-terreno. "Gosto de ser grande", afirma-nos. "As estruturas já têm 20 anos, só mudo as lonas." Quando, já perto da meia-noite, chega à escola de Cruzeiro, Alpendurada, uma boa centena de pessoas já está servida de bandeiras e bonés. "A minha vida está tão devassada que tenho dúvidas de que não saibam a cor das minhas cuecas...", queixa-se, com voz empastelada e estrondosa. Se, antes, não se comprometeu com o saneamento, aqui promete a construção de um pavilhão de futsal. E resume, à VISÃO, outras promessas: "Tirar o meu nome do estádio. É ponto assente, pela alma dos meus pais. E vou resolver o problema de duas igrejas. Se a Câmara não tiver dinheiro, faço as obras a expensas minhas." É assim tão rico? "Sou... Não, não sou rico, devo muito dinheiro, mas os bancos emprestam." Há quem, como Pedro Vieira, 29 anos, já tenha vergonha de ver a sua terra identificada com "aquele que anda sempre aos pontapés às coisas". Incontestável, só mesmo o aviso final de Torres à sua audiência: "O futuro do Marco está nas vossas mãos."

 

>> Braga

 

 

 

 

 

 

 

 

Magalhães, versão chouriço

Não é um computador, mas tem programa. Não é para crianças, mas os miúdos querem tocar-lhe. Não é portátil, mas anda de mão em mão. Ou não fosse o chouriço com a cara do candidato o mais apetecido. O sucesso começou há uns anos, nas conversas sobre quem recebia ou não recebia pelo correio as carnes de João Seco Magalhães, 65 anos. O enchido circulou e ele inchou, de vaidades. Dono e senhor de Maximinos, freguesia de Braga com perto de 8 mil almas, atira-se, agora, ao último mandato, à cabeça da lista de independentes "Servir Maximinos". O PS apoia-o. PSD e CDS desistiram. E ele tão desassombrado como no primeiro dia: "Nunca percebi nada de política. Entrei nisto por brincadeira..."

Ora, a brincadeira dura há oito anos. Começou quando pagou "a uns pretos" para colarem os seus cartazes por todo o lado e verificou, espantado, que andavam comboios entre Porto e Braga "com a tromba do Magalhães colada". Hoje, tirando os ataques de "uma certa oposição que parece a Al Qaeda", tem sido um passeio.

Magalhães herdou uma localidade onde a degradação urbana e social não pede licença para se exibir. E ele a todos acode, nacionais ou estrangeiros, ao ponto de o telemóvel tocar de madrugada por causa de um esgoto. Porta dentro, entram-lhe casos de crianças com fome, divórcios, mulheres e homens desamparados, com filhos a cargo. "Pelo Natal, entrego quase 400 cabazes. O meu vencimento de Dezembro vai todo para isso", assegura. No resto do ano, não tem parança. Distribui frigoríficos, fogões, ferros eléctricos, além de bolachas, azeite e detergentes, roupas e agasalhos. "Pareço o Minipreço", diz. Às vezes, também arranja trabalho. "Pus uns ucranianos a dar aulas de português a outros.." E uma vez, comprou mais de 2 mil pares de sapatos para distribuir pela freguesia. Pela amostra, há quem insinue, claro, que ele anda... bem calçado. "Que moralidade tem o Estado para me exigir prestação de contas, se não me dá subsídios para a   campanha?", desafia o autarca a meio-tempo.

Toda a artilharia eleitoral, do fumeiro ao desenho dos folhetos, sai da sua cabeça. "Sem perceber nada de computadores." Segundo a brasileira Andreia Caires, autora de um estudo universitário sobre o "candidato-chouriço", ele conseguiu atingir "os princípios básicos" do marketing sem perceber patavina do assunto. E ele com isso!

Nos contactos de rua, é afável e maroto. Sem tempo para leituras ou esperas por papeladas e audiências, entra onde quer, como quer. Nascido em Maximinos e "feito entre dois bidões de azeite de 800 litros", estudou o mínimo indispensável e fez-se azeiteiro, com orgulho e "sem acidez", dando seguimento a herança paterna. Sonha construir um lar para idosos e um berçário. Depois, quem sabe, talvez pense em candidatar-se à Câmara de Braga. "Vou ser modesto, acho que ganhava. Mas, nessa altura, já terei 69. Para um candidato que distribui chouriços é um número complicado, não acha?"