Em última análise, todos estes clássicos italianos são musicais. Mesmo sem música, nem décores artificiais, nem um elenco todo profissional, nem bailados, nem finais felizes... Mas sempre nos farão levitar alguns centímetros acima do solo. Para já porque estas obras se passeiam sobre ombros do gigante que foi, a dada altura, a cinematografia italiana - curiosamente erguida com o impulso de Mussolini que queria mais entretenimento, mais escapismos e filmes de "telefone branco" e não contava com a pujança do neorealismo italiano que contagiou ou contagia ainda outras linhagens.

Não admira, então, que pareçam tão altos, ainda que alguns destes filmes não constituam as obras mestras da cinematografia dos respectivos autores. Descontando sempre Fellini (que será sempre qualquer coisa de intermédio) - e esta, está prometido, é a última ressalva da página - há sempre o encantamento daquelas ruas, cheias de sedimentos arqueológicos e murmurejos de outras épocas, que sobressaltam o transeunte e magnetizam o espectador. Há a coreografia única do gesto e não se encontra expressão corporal assim em nenhum outro local do planeta. E a língua, sempre a língua, mais musical do mundo, que tal como na poesia oscila entre o som e o sentido- e os compositores de ópera bem o sabiam. De resto, o facto de todos serem italianos (e não é nada pouco) parece ser o que une estes DVD de reedição de cinco filmes, dos anos 50, 60, e 70. Que une a Gelsomina (Giulietta Massina) vendida pela mãe ao circo em A Estrada, de Fellini (1954), a Giacinto (Nino Manfedi), o indigente que vive com dezenas de familiares numa barraca no grotesco e absolutamente devastador Feios, Porcos e Maus, de Ettore Scola (1976). Pelo meio, a feliz circunstância de Ontem, Hoje e Amanhã (1963), Matrimónio à Italiana (1964), ambos de Vittorio de Sica, e de Um Dia Inesquecível (1977) serem protagonizados por um dos casais mais compatíveis da história do cinema: Sophia Loren e Marcello Mastroianni. No cinema os pares são como as palavras, algumas não se sabe bem porquê mas só funcionam quando casadas entre si. No tríptico Ontem, Hoje e Amanhã, pode-se observar, como uma cena em laboratória, a forma como a química entre os dois actores destilava em tubo de ensaio. Todas em versão comédia (nesta fase o neorealismo já entrara em decadência), vemos o casal ora como indigentes de rua, ele desempregado e exangue de fazer filhos e ela a acumular gestações e a exigir mais, para não ir parar à cadeia. Ora enquanto burgueses milaneses que combatem o tédio com relações extra-conjugais. Ora Loren numa versão mais sexy de sempre a seduzir o mastroianni mais beato de sempre. Filumena, em Matrimónio à Italiana, também é uma prostituta que usa a sua força de gravidade planetária para atrair Domenico. Curiosamente, talvez o filme mais esquecido de todos, Um Dia Inesquecível, ofuscado pelo sucesso estrondoso de Feios, Porcos e Maus. Durante um encontro oficial estrepitoso de retórica fascista, entre o Duce e o Fuhrer, o encontro mais improvável de dois seres, numa prédio concentraccionário,  esvaziado pelas paradas, de bandeiras nazis adornado, rigorosamente vigiado por uma porteira de bigode, nesta Roma, a palpitar de exaltação, de sonante orgulho nacionalista. Mussolini e Hitler encontram-se intencionalmente. Esta dona de casa, de pantufos, mãe de seis filhos (a pensar no sétimo para ter direito ao prémio das famílias numerosas) cruza-se por acaso com um vizinho, locutor proscrito, por não usar camisa negra nem assumir a virilidade do braço esticado. Mas a vida também é isto, desencontros inconsequentes. E, apesar de tudo, chora-se sozinho, mas só se ri a dois.