Acusado da autoria do crime pelas autoridades brasileiras e a poucos meses de saber se vai a julgamento, é um homem mais magro, de t-shirt, calças de ganga e ténis, que guia a VISÃO pelo corredor de sua casa rumo a uma sala soalheira, onde abundam as obras de arte, o mobiliário de estilo, os álbuns de Bruegel e Bosch e os livros de Borges. No dia seguinte, para a fotografia, aparecerá mais formal, de blazer e sapatos.

Entre o tempo de cadeia e a prisão domiciliária, o advogado não prescindiu das leituras de Curzio Malaparte e George Steiner. À penitenciária de Lisboa, chegaram "manifestações de amizade, solidariedade e carinho" e até alguns cds do maestro e cravista Gustav Leonhardt, oferecidos por um casal amigo. Em casa, reinam, ainda e sempre, os corais de Bach. Lima tem escrito algumas memórias dos mais recentes acontecimentos. Afirma estar a viver "uma experiência demolidora, pior do que a doença, pois a leucemia não deixa qualquer estigma". Os amigos não fugiram, garante. Nem os do PSD, com o qual não está zangado. "O meu partido não tem nada a ver com estes processos. Jamais misturei as coisas." Dizendo-se vítima do "tribunal mediático", fixa-se obsessivamente neste ponto: como pode ele, salvador de centenas de vidas através da Associação Portuguesa contra a Leucemia, ser acusado da morte da sua cliente? Um argumento usado no pedido de habeas corpus que o juiz de Saquarema não atendeu.

VISÃO: O Ministério Público brasileiro diz que é capaz de matar quem não satisfaça os seus interesses pessoais e financeiros...

DUARTE LIMA: É uma frase completamente vazia, não lhe dou qualquer valor. Nunca fui ouvido formalmente no processo...

Diz-se que fez tudo para não ser ouvido...

Não. A polícia tem de respeitar a lei. Enviou uma carta rogatória quando eu tinha pedido acesso aos autos, o que, no Brasil, é permitido em relação à prova que esteja documentada. O meu advogado fez esse pedido várias vezes e foi recusado. Quando fui ouvido, aqui, pela PJ, juntei uma carta do meu advogado em que ele dizia que não devia falar, pois estavam a sonegar-me aquilo que era dado à comunicação social. É atroz. Na carta rogatória, pedem para ouvir-me como testemunha. Ora, quando é concluído o inquérito, o delegado de polícia disse às televisões que eu tinha sido o principal suspeito desde a primeira hora. Se foi assim, porque nunca fui ouvido na qualidade de suspeito? Enganaram o meu advogado e mentiram às autoridades portuguesas.

A versão policial para sustentar a autoria do crime é a de que Rosalina se recusou a assinar um documento pedido por si sobre uma transferência de 5,2 milhões de euros, a provar que o senhor "nada lhe devia nem era depositário de qualquer quantia"...

É ridículo. Os pagamentos da minha cliente foram sempre feitos por transferência bancária e estão registados. Foram até levados ao processo no Brasil pela própria Olímpia. É Armando Carvalho, o afilhado de Rosalina, quem diz no inquérito que eu estava a pedir à minha cliente essa declaração, mas, quando foi ouvido pela primeira vez, nada disse. É quase no fim do inquérito, em 2011, que se lembra disso, alegando ter ouvido essa versão das amigas de Rosalina. Ora, as amigas foram ouvidas três vezes pela polícia e nunca o disseram. É um depoimento forçado.

  • A verdade, segundo Duarte Lima: leia a entrevista na íntegra na VISÃO desta semana