Em primeiro lugar, dizer que estamos perante uma nova moda linguística. Qual? Antes de mais, manifestar perplexidade pela falta de perspicácia do leitor. Há um novo modelo de expressão, divulgado sobretudo por comentadores televisivos, mas que, como tudo o que é bom, tem vindo a extravasar as fronteiras da televisão e a enraizar-se nos hábitos do cidadão comum. Se há coisa que o cidadão comum aprecia é a apropriação de chavões do discurso de profissionais da televisão, com destaque óbvio para os jornalistas desportivos. O cidadão comum está frequentemente em casa, munido de um bloco de apontamentos e uma caneta, a recolher uma vasta quantidade de "tudo fizemos", de "quando assim é", e de "apenas e só".

Começar frases com o verbo no infinitivo é uma moda recente mas pujante. Em pouco tempo, superiorizou-se a outras modas, também populares, como a que impõe que nenhum relato possa principiar sem a expressão "então é assim". E o sucesso da nova moda é tanto mais surpreendente quanto a sua origem: o mundo, frequentemente aborrecido, da análise política. A acumulação de casos políticos trouxe consigo uma previsível acumulação de comentadores políticos. Qual delas é mais perniciosa para o País? É difícil dizer. Mas é extraordinariamente simbólico que, por causa da crise, várias pessoas tenham sofrido: as pessoas que constituem aquilo a que antigamente se chamava o povo vivem pior, mas as pessoas do singular e as pessoas do plural também passam por dificuldades. Nunca mais se ouviu falar delas. A primeira pessoa do singular nunca mais falou. O comentador político do passado, que falava na primeira pessoa, deu lugar ao comentador moderno, que inicia raciocínios a dizer "dizer". Em primeiro lugar, dizer que a situação é complexa. Depois, dizer que o segredo de justiça tem sido vilipendiado. Para terminar, dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. É, no fundo, o comentador-Tarzan. Mim dizer, tu ouvir. Trata-se de uma estratégia linguística que reduz ao mínimo as conjugações verbais. Para fazer comentário político, ninguém precisa de saber conjugar um verbo, o que acaba por ser democrático. Pela minha parte, aprecio qualquer observação política que faça ainda mais sentido se lhe acrescentarmos, no início, a expressão "grande chefe índio". Grande chefe índio dizer que a situação é complexa. Grande chefe índio dizer que o procurador-geral tem estado tíbio. Parece mesmo que vivemos no faroeste. Ora aqui está como a forma de expressão pode produzir conteúdo.