É uma BD humorística infanto-juvenil com traço caricatural? Também, mas não só. E não seria pecado se "apenas" o fosse, desde que com qualidade e inteligência. É uma aventura de uma série já algo massificada que tem passado por demasiadas mãos (Spirou e Fantásio)? É, sim senhor. Mas esta história faz parte das aventuras canónicas, as desenhadas pelo genial autor belga André Franquin, aqui com a colaboração (muito justamente mencionada, já que nem sempre o foi) do grande argumentista Michel Greg. QRN sobre Bretzelburgo constitui, com Z de Zorglub e O Ditador e o Cogumelo, uma trilogia de brilhantes reflexões satíricas sobre o controlo da população em diferentes tipos de ditaduras (mais ou menos óbvias, mais ou menos aceites) utilizando os métodos clássicos de tecnologia, retórica, publicidade e medo.

Em QRN sobre Bretzelburgo Fantásio é raptado por engano e levado para Bretzelburgo, uma Alemanha apócrifa gerida por um caudilho de opereta que mantém a população num estado de miséria permanente (misto de Alemanha de Leste, Albânia e Coreia do Norte) porque todo o orçamento é utilizado para pagar dívidas a uma troika internacional...; perdão, para armar o país, dada a iminência de um conflito com uma Itália apócrifa vizinha, gerida por uma outra figura grotesca. Um conflito artificial, como se perceberá, mantido por uma caricatura daquilo que o Presidente americano Eisenhower designou como o "Complexo Militar-Industrial", já depois de um outro ex-General Smedley Darlington Butler (1881-1940) ter publicado em 1935 o livro War is a Racket, no qual fazia denúncias sobre interesses económicos sórdidos por detrás de qualquer guerra e uso abusivo de patriotismo saloio para cegar a população (a vida deste americano notável pode ser apreciada em Devil Dog: The amazing true story of the man who saved America, de David Talbot). Argumentos que podiam perfeitamente ser repetidos com propriedade em muitas ocasiões.

A componente absolutamente séria e profunda de QRN sobre Bretzelburgo é no entanto "amaciada", quer pela história linear do salvamento de Fantásio por Spirou e de como fácil e utopicamente caem ditaduras com pés de barros; quer, e sobretudo, pelo humor de Franquin e Greg. Na verdade os autores parecem ter aqui querido experimentar tudo o que havia no catálogo, utilizando estratégias muito diversificadas, desde o absurdo ao irónico, passando pela comédia física (para a qual o desenho de Franquin é particularmente apropriado), por trocadilhos, e pelo uso dos animais-mascote da série como contrapontos (a intelectualidade sarcástica do esquilo Spip, a força de natureza que é o Marsupilami). De tal modo se carrega na(s) tecla(s) humorística(s) que, numa leitura distraída, o livro nem parece conseguir ser sobre aquilo que é: uma parábola intemporal brilhante, tão atual que um novo leitor dificilmente a identificaria como tendo sido publicada no original há 46 anos.

A excelência em banda desenhada tem muitos cambiantes. Apesar de um público menos atento a reconhecer mas facilmente em certas obras, não é só feita de Maus, Blankets, Persepolis, Palestine. E às vezes diz-se muito precisamente por não se parecer estar a dizer grande coisa.

 

 

As aventuras de Spirou e Fantásio: QRN sobre Bretzelburgo. Argumento de Greg e Franquin, desenhos de Franquin. ASA, 62 pp., 16,95 Euros.