Aos 65 anos, Dick Fosbury continua a manter um físico de atleta, reforçado pelos seus 1,95 metros de altura e uma simpatia natural. Além, claro, de uma paixão confessa pelo desporto, assunto sobre o qual se percebe que esta autêntica lenda olímpica adora falar. 

O que achou da cerimónia de abertura dos Jogos?
Foi fantástica. Não era uma tarefa fácil depois de Pequim, mas os britânicos mostraram que se pode contar uma história, de uma forma inovadora e divertida. E podem ficar orgulhosos, porque conseguiram produzir uma cerimónia que será lembrada por muitos anos.

 

A pressão de um povo, dos adeptos, pode ser negativa para os atletas nuns Jogos Olímpicos?
A pressão de hoje é muito superior à do meu tempo de atleta. Mas hoje também os desportistas têm muito mais apoio do que no meu tempo: equipas dedicadas à volta deles, com psicólogos, relações públicas e uma série de pessoas que os ajudam a lidar com essa pressão. Porque ela é, de facto, mais um dos desafios que um atleta tem que enfrentar nuns Jogos Olímpicos. Quando se chega a um nível destes, se entra na Aldeia Olímpica e se vê todos aqueles que admiramos à nossa volta... é normal uma pessoa ficar excitada e desconcentrada. É preciso ter alguém que o ajude a focar novamente na competição, naquilo que veio cá fazer.

 

Qual é a melhor recordação que guarda dos Jogos Olímpicos?
Foi um momento no México 1968 que nada teve a ver com a competição. Antes dos Jogos começarem, eu e um amigo soubemos que a chama olímpica ia ficar durante a noite nas pirâmides, nos arredores da Cidade do México. Fomos para lá e por lá ficamos, toda a noite, numa festa absolutamente inesquecível, em que percebemos a paixão e a alegria que o povo mexicano tinha pelos Olímpicos. Quando quisemos regressar, de manhã, apanhámos com um enorme engarrafamento de trânsito. Resultado: nenhum de nós pode participar na cerimónia de abertura. Ficámos a dormir.

 

Como é que se lembrou de começar a saltar de costas, quando todos o faziam com o chamado rolamento ventral?
Foi um acidente. Teve tudo a ver com a forma como, nos treinos, nós fazíamos umas corridas de aproximação à fasquia. Aos poucos comecei a alargar a curva, cada vez mais. E comecei a saltar de costas, porque era o movimento mais natural provocado por essa corrida. Qualquer um podia ter inventado essa técnica. Qualquer um... Este é um movimento natural. Mas, obviamente, estou muito orgulhoso por ter sido o primeiro.

 

De tal modo que a técnica ficou com o seu nome...
Sim, mas só tem o meu nome porque obtive resultados. Podia ter inventado todas as técnicas de salto em altura, mas se não tivesse sido campeão olímpico ninguém sabia o meu nome. Essa é que é a verdade. Os Jogos Olímpicos é que mudaram a minha vida.

 

No início foi difícil convencer os seus treinadores?
Sim, claro. Mas como eu ia melhorando os meus resultados, eles próprios começaram também a tentar perceber o que estava ali a funcionar melhor. E, como sou muito competitivo, fui fazendo evoluir a técnica, saltando sempre mais e mais.

 

Alguma vez esperou que a técnica se tornasse depois usada por todos os atletas, como hoje sucede?
Não. Nessa altura não pensava nisso. Fiz aquilo porque queria melhorar.

 

É essa vontade de melhorar sempre que define um campeão?
É essa vontade, claro. E a sua capacidade para se adaptar às circunstâncias e aos adversários. Quando chegamos aos Jogos Olímpicos, todos achamos que somos os melhores, mas a verdade é que temos sempre que olhar para os que vêm atrás. É essa a beleza do desporto: não há vitórias garantidas nem antecipadas. Nuns Jogos Olímpicos, as medalhas ganham-se com 10% de físico e 90% de parte mental. Não tenho dúvidas sobre isso. Todos os que cá chegam vêm numa forma física extraordinária. O que os distingue, no fim, é a sua capacidade mental para se excederem no momento certo. Lembro-me do meu colega Al Oerter. Em quatro Jogos Olímpicos ganhou quatro medalhas de ouro no lançamento do disco e bateu quatro recordes mundiais. E, nas quatro vezes, nunca partiu como favorito. Só que provou sempre que era mentalmente mais forte do que todos os outros.

 

Disse que os Jogos Olímpicos lhe mudaram a vida. De que maneira? Ficou rico?
Não, não fiquei rico. Mas deram-me a oportunidade de conhecer gente maravilhosa. Logo em 1968, pouco depois de me ter tornado campeão olímpico, com apenas 21 anos, fui convidado para ir a uma festa organizada pela revista "Time". Foi aí que percebi como a minha vida tinha mudado. De repente ali estava eu a conviver com os outros ícones de 68: a Janis Joplin, o Dustin Hoffman, o Andy Warhol...

E, desde então, tem andado sempre em festas, não?
(risos). Tenho sido, isso sim, convidado para andar por todo o mundo. É um privilégio poder fazer isso, contar a minha experiência pessoal e dizer às pessoas que, ás vezes, temos que mudar... se queremos ganhar.