Para benefício dos leitores da VISÃO, deixo aqui um breve mas imprescindível léxico para quem quer perceber alguma coisa da trapalhada em que se transformou o caso PT/Telefónica.

Ativo Estratégico. A estratégia, já se sabia, tem costas largas. Serve normalmente de argumento final que dispensa justificação ou recurso. Para além do mais, confere sempre um ar sisudo e inteligente a quem por ela clama. E é, quer sob a forma de substantivo quer sob a forma de adjetivo, uma palavra muito jeitosa (no sentido em que dá um jeitão) para ter à mão. No caso em apreço aprendemos, por exemplo, que o interesse estratégico é um conceito abstrato que convém não definir com grande precisão e que se invoca quando se esgotou qualquer racional económico para justificar um investimento ou recusar um desinvestimento. Na mesma linha, aprendemos, um ativo passa a ser estratégico quando já não há mais maneiras, à luz da ciência conhecida, de justificar o seu valor. Dada a natureza altamente volúvel e misteriosa desta definição, ficamos finalmente a saber, o que hoje é estratégico amanhã pode não ser.

Núcleo Duro. É a designação dada a um saco de gatos vestidos de gravata, com interesses divergentes e normalmente conflituantes que, durante um período curto de tempo, se portam civilizadamente uns com os outros. A sua principal característica é, paradoxalmente, não ser tão duro como isso. É assim um bocadinho como o núcleo de um átomo. Sabe-se que é possível dividi-lo (normalmente através do bombardeamento com vil metal) mas ninguém consegue controlar com precisão o que acontece depois da fissão. Muito menos garantir que a fissão nuclear não dá origem a uma reação em cadeia. E isto para não falar da trapalhada que é ter de enterrar o lixo nuclear, que é como quem diz, a parte do núcleo duro que, deixando de ter utilidade depois da fissão, continua a maçar muita gente durante muito tempo.

Centros de Decisão Nacional. São outra abstração indefinível. Ninguém sabe exatamente o que são, não há provas que alguém tenha visto algum, mas enchem a malta de fervores patrióticos e também dão um jeitão quando se trata de pôr o Estado a defender posições indefensáveis. Tal como os ativos estratégicos, são de natureza instável e volúvel. Aparecem e desaparecem misteriosa e muito rapidamente do discurso empresarial e político. Há quem lhes chame os gambozinos da alta finança. Toda a gente sabe que não existem mas mantém muita gente entretida.

Golden Share (por vezes também conhecida por Golden Chair). É a porta dos fundos por onde a política entra nos bailes masqués dos negócios. Ou se preferirem uma alegoria mais carnal, são aquelas portas em trompe l'oeil que os reizinhos de todo o tipo e de todo o mundo costumam usar para visitar as suas voluptuosas amantes em noites de maior aperto. Em certo sentido são o oposto dos Centros de Decisão Nacional. Toda a gente sabe que existem, toda a gente sabe exatamente para que servem, toda a gente já viu, inclusive, o poder político a usá-las com desbragada volúpia e duvidoso decoro, mas todos fingem acreditar que por ali não passa nada.