Mais uma vez chego tarde para apanhar o autocarro. Ir para Madrid de Getafe requer paciência. Penso duas vezes se estico o dedo e peço boleia ou se saco do livro e rabisco. Tento desligar-me dos longos minutos de espera pelo "autobus" e meter conversa com quem faz o mesmo. Somos quatro ao todo. Seguramente, todos com mais do dobro da minha idade. Sentado no chão, vou comendo a poeira que as dezenas de camiões levantam. Não é fácil ir para Madrid especialmente se tivermos um encontro marcado.

Entretanto, para a paragem, aproxima-se o Juan. Um velhote gordinho com uma passada curta pouco ágil. "Buenos dias" dizemos. Vem para o mesmo que nós, senta-se e começa a puxar conversa. Enrolado no seu espanhol, difícil de entender, falamos da minha volta ao mundo em desenho. "Então e quando voltas para Portugal?" pergunta-me. "Ui, ainda demoro uns anos. Comecei agora a minha volta ao mundo" digo eu. "Eh pá, então precisas de ter dinheiro!". Naquele momento, veio-me à cabeça os tempos difíceis que os nossos avós passaram e a preocupação em poupar cada tostão ganho. O Juan pareceu-me um "avô" desses. Ali estivemos uns valentes 30 minutos à conversa.

É a quinta vez que faço este percurso. Como já o conheço, arranjo maneira de ficar ao pé de uma miúda gira para me ir intercalando o olhar com a rua. Com sorte repara que estou ali e acabamos por falar um pouco. Não me perece o caso. O ar de sono e os gigantes auscultadores, que leva nos ouvidos, definem uma muralha intransponível em torno dela.

Madrid é uma cidade grande. Tão grande que cabe gente de todo o mundo. Mexicanos, cubanos, brasileiros, venezuelanos, chineses e tantos outros que recheiam as ruas, praças e avenidas principais. Saio da confusão. Num largo pequeno, junto à "Calle del Espíritu Santo", existem várias explanadas. Residentes locais, todos eles jovens, relaxam e convivem até que chegue o frio da noite. No meio, para que se vejam bem, estão dois artistas. Um canta e toca guitarra, o outro mantém o ritmo numa pequena tarola. Ouvem-se músicas conhecidas em acústico, num tom tão agradável, que nos convida a viver uma cidade diferente. Bebem-se cervejas e ouvem-se risos entre conversas. Uma vida boémia, que naquele momento, ganhou-me por dentro. Saíram, ainda eu estava a saborear. Ficaram as vozes das dezenas de pessoas que agora passaram a ser o som de fundo. Uma infelicidade para quem gosta de música em jeito de ensaio.

Sigo para casa. A meio apanhamos "un chino" a vender cervezas. "Hola, quieres una cerveza? Está fría de cojones!"

Madrid é grande demais para se ver com o tempo contado. No fim do dia, o cansaço acumulado de mochila às costa, agradece o descanso no autocarro que me leva à autocaravana. Oito pessoas silenciosas, povoam o transporte público. O radio, do condutor, grita nomes de jogadores de futebol.

Último dia de sete em Madrid. A cidade que de inicio estranhei, parece agora minha. Assim sabe bem dizer até já. Mais uma vez quem deu brilho à descoberta, foram os laços de amizade criados. Pessoas de coração e cabeça proporcionalmente grandiosa à cidade onde vivem. Só assim é possível sentir o bater do coração urbano. Mais que museus, rotinas turísticas e alimentações plastificadas.

Entro pela "Puerta del Sol" em direcção ao próximo destino. Custa deixar aqui verdadeiros amigos, que a sorte nos cruzou. Graças a eles, a minha vontade de voltar, é só uma questão de tempo. "Próxima estación ..." diz a voz mecânica do metro. As pessoas vão entrando e saindo. E eu, eu vou guardando o melhor que vivi, conheci e aprendi. Joaquim, Emanuel, Isabel, Mora, Pascale e todos os que conheci sem a preocupação de ser apenas uma passagem nas vossas vidas, muito obrigado!