Mário Jorge Santos, sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Suicidologia, um dos intervenientes no seminário, referiu hoje à Agência Lusa que esses comportamentos são especialmente detectáveis em famílias em que os dois cônjuges perderam o emprego, "o que vai sendo cada vez mais comum".

O especialista referiu que está bem estudada a relação entre a depressão e o desemprego e entre a depressão e os comportamentos suicidários: "É de facto um triângulo muito perigoso".

Os comportamentos autodestrutivos, de que o suicídio é a forma mais grave, surgem num contexto de uma "extraordinária desesperança e de uma descrença em que se consigam resolver os problemas" e são uma das principais consequências do desemprego.

"O desemprego não só impede a pessoa de trabalhar e de ter um rendimento aceitável, como também destrói as famílias, aumenta o alcoolismo, que é um factor que está muitas vezes associado aos comportamentos suicidários. Aumenta a disfunção das famílias e destrói a auto-estima", sublinhou.

"A pessoa começa a achar-se incapaz, a achar que não vale nada, a achar às vezes que é só um fardo para os outros e tudo isto são ideações que podem levar a comportamentos autodestrutivos", disse.

Num trabalho sobre "Suicídio e Saúde Mental em tempos de crise económica", o psiquiatra Nuno Pessoa Gil assinala que não basta haver médicos ou serviços de psiquiatria para atender aos efeitos da crise sobre a saúde mental das populações.

"Não há cápsulas, comprimidos ou psico-terapias estruturadas capazes de resolver problemas como a pobreza, a miséria económica ou a exclusão social", assinalou.

O seminário, organizado pelo núcleo distrital de Beja da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal, inclui a participação de autarcas, representantes policiais e da Direcção-Geral da Saúde, bem como psicólogos e psiquiatras.