Quem esperava ouvir da troika uma qualquer alteração de discurso, sobre a necessidade de contrapor medidas de crescimento aos efeitos recessivos do plano de assistência financeira, pode tirar o cavalinho da chuva: para este triunvirato, o cerne do desemprego não está nesta espiral de recessão e de desconfiança no futuro mas, sim, e sobretudo, na permanente rigidez da nossa lei laboral.

Portugal passou em novo exame da troika, o que desbloqueou mais 4,1 mil milhões de euros de ajuda internacional. Os inspetores do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia deram, globalmente, boa nota ao Governo, mas levantaram também algumas reservas em matéria de reformas estruturais e de combate a interesses instalados. Além do desemprego, claro, que disparou para previsões de 15,5%, em 2012, e 16%, em 2013.

Um número de desempregados muito acima do normal, durante um período mais ou menos longo, iria "naturalmente" verificar-se com a aplicação do plano de austeridade a que estamos submetidos. Esse é sempre, como reconhece uma vez mais a troika, o preço a pagar, nos processos de "reestruturação" das economias. Mas, no caso português, o crescimento do desemprego está também a ser "exacerbado" pela rigidez do seu mercado laboral, diz.

É, por isso, necessário, conclui a troika, que se flexibilizem mais ainda os despedimentos... para que deixe de existir tanta gente sem trabalho. Um dia destes, arriscam-se a ter 100% de razão: com tantos desempregados e precários que por aí andam, não deve faltar muito para que os trabalhadores assalariados deste país só possam mesmo ter algo a ganhar com a total erradicação desta inflexível lei que os trama diariamente.

No entanto, os senhores do FMI, CE E BCE congratulam-se com a possibilidade aberta pelo Governo de reduções setoriais da taxa social única, em 2013, para estimular a contratação. O cenário de redução da TSU está, desta forma, de regresso ao discurso político. Surge, todavia, de forma muito mitigada, eventualmente reservada ao recrutamento de jovens, e sempre condicionada à existência de folga orçamental, como o Governo faz questão de sublinhar - mas era bom que, desta vez, as Finanças fizessem bem as suas contas, colocando nessa putativa margem orçamental as vantagens que teriam, quer com o aumento da receita fiscal quer com a redução da despesa social.

Um exercício que pressuporia, de todas as formas, a existência de uma política ativa de emprego, coisa que, lembra-se mais uma vez, não é incompatível com um "estilo" liberal de Governo nem precisa de se confundir com o esbanjar de dinheiro público em projetos de duvidoso interesse e custo insuportável para os cofres do Estado.

Mas a preocupação com o crescimento de curto prazo, e com o combate à dramática situação em que se encontram, já hoje, inúmeras famílias, continua, como é fácil de se ver, ausente das prioridades do Governo ou da troika, centrados apenas nos fatores de crescimento a longo prazo, as chamadas reformas estruturais. Matéria onde registaram "progressos" em algumas frentes, como são os casos do arrendamento, sistema judicial, direito da concorrência e plano de privatizações, mas onde se deixam também alguns recados, pedindo mais "determinação" no combate a interesses económicos instalados, como acontecerá na área da energia.

Quanto ao resto, não há, de facto, grande novidade a assinalar nesta terra da troika. Tudo vai pelo melhor dos mundos: os salários continuam a baixar, o desemprego mantém-se em alta e os pobres não param de aumentar.

Objetivos que, garantem-nos, ninguém verdadeiramente deseja. Mas parecem conviver bem com eles. E a questão é que são eles, esses "danos colaterais", a crise que verdadeiramente interessa hoje resolver. Uma crise à qual a troika continua a desviar a cara, numa lógica circular, distante da realidade e da rua, que é fácil de entender. Mas que é cada vez mais difícil de aceitar.

E também na Europa parecemos andar todos perto do delírio, num gigantesco jogo de roleta-russa. Tal como para Portugal, também há quem continue cegamente à procura de soluções de longo prazo para o espaço europeu, sem garantir, primeiro, a viabilidade do curto prazo, sem atender aos riscos que estão já aí, ao virar da esquina. Entre apostas sobre se a Grécia vai ou fica, ou sobre se o euro resistirá ou implodirá com o colapso dos gregos (e irlandeses, e portugueses, e espanhóis, e italianos, e franceses...), parece mesmo que andamos todos perto do delírio. São bem elucidativas deste estado de coisas as recentes declarações de Angela Merkel, a prometer que a Alemanha será um parceiro muito ativo na construção urgente de uma verdadeira união política na Europa...

Haverá Europa para unir, sra. Merkel? Haverá projeto europeu? Haverá liderança mobilizadora para esse projeto? Haverá ainda, sequer, essa unidade sociológica a que se chama povo europeu, quando a chanceler se dignar a vir a terreiro, de varinha de condão na mão, para fazer o milagre da união política dos povos europeus? Que União existirá então?