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Tempo de renascer, para depois viver em irmandade

Coração no centro de Portugal

Foi com um certo espírito nómada que Ana João Carvalho e Nuno Marques chegaram a São Martinho da Cortiça. Uma especial ligação às pequenas coisas da vida dá-lhes agora força para reconstruirem do zero a casa no meio da floresta onde querem formar uma comunidade

O consumismo já está desenfreado nas grandes cidades, mas se a Black Friday da última sexta-feira serviu para alguma coisa foi para Ana João Carvalho e Nuno Marques comprarem ténis, meias e outras roupas para toda a família. João Nuno mostra os seus ténis pretos, já o mais pequenino Simão preferiu com umas listas amarelas fluorescentes. No último mês, o porta-bagagens do carro tem sido a casa ambulante desta família do Norte, servindo de apoio nas várias deslocações entre Ovar, de onde é o professor de Educação Física (antigo atleta e treinador da Ovarense Basquetebol), Vila Nova de Gaia, terra da doula e fisioterapeuta e Arganil onde, esta semana, receberam a boa notícia de que uma senhora lhes vai emprestar uma casa para morarem nos próximos tempos. “Saiu-nos um peso de cima”, desabafa Nuno, ao mesmo tempo que vai deixando cair o semblante carregado.

A Black Friday da última sexta-feira serviu para alguma coisa foi para Ana João Carvalho e Nuno Marques comprarem ténis, meias e outras roupas para toda a família

A Black Friday da última sexta-feira serviu para alguma coisa foi para Ana João Carvalho e Nuno Marques comprarem ténis, meias e outras roupas para toda a família

RUI DUARTE SILVA

Do alto dos seus sete anos muito expressivos, João Nuno sabe que a equipa da VISÃO vai contar uma história sobre a sua família, mas não nos deixa ir embora sem dizer que devíamos também contar a dos seus amigos de Serpins, porque nos últimos tempos vai espreitando os incêndios no telemóvel do pai, revendo as fotografias da destruição total da casa onde moraram um ano, um mês e 15 dias.

Almoço vegetariano para toda a família

Almoço vegetariano para toda a família

RUI DUARTE SILVA

Casinha de madeira no meio da floresta

Nas margens do rio Alva, em Ponte da Mucela, o casal encontrou o lugar ideal para dar asas aos seus sonhos: queriam transformar a casa ecológica e sustentável num retiro de acolhimento, no meio da floresta. “Um lugar para receber pessoas, para partilhar experiências. Para sentirem o vento, o cheiro da terra, no fundo, reencontrarem-se a nível espiritual”, descreve Ana João. Ele sempre quis ter uma casa pequenina de madeira no meio da floresta, ela preferia algo mais semelhante às casas dos hobbits. Com sistema de rega no telhado, os móveis quase embutidos na casa e mobília com características anti-fogo, era um lar muito orgânico. Agora sabem ao cêntimo quanto vão receber do Estado pelo recheio (€2 949,23) e por um outro apoio agrícola (€1 900).

Aos sete anos João Nuno já morou em nove moradas. Andam com a casa às costas desde que Nuno Marques foi colocado numa escola em Albufeira. “Ir para o Algarve foi a minha desculpa perfeita para ser mãe. Para criar uma criança e gerar outra”, lembra Ana João. Passado um ano subiram para Alvaiázere – um nome que demoraram algum tempo até conseguirem pronunciar. Os três anos que se seguiram não começaram da melhor maneira, mas vieram embora com boas recordações. Seguiu-se a colocação numa escola na Lousã e assim se foram aproximando de Ponte da Mucela, cada vez mais em contacto com a Natureza.

João Nuno já disse aos pais que queria morar numa cidade, porque aí não há incêndios

João Nuno já disse aos pais que queria morar numa cidade, porque aí não há incêndios

RUI DUARTE SILVA

Nem livros, nem brinquedos

Depois de Ana João ter fugido com os filhos para Arganil na noite do incêndio de outubro, foi Nuno quem lhe deu a má notícia pelo telefone. “Vamos reconstruir tudo outra vez”, disse. Ana João nem queria acreditar. Ainda perguntou se a estante dos livros estava intacta e pelo menos os brinquedos. Nuno respondeu com uma única palavra: “Nada”. Às crianças não esconderam a história e foram aos escombros quando eles pediram. Uns dias à frente João Nuno soltou as primeiras reações: pontapés às coisas, tentar destruir o que havia por perto, querer limpar o entulho. A raiva saía quando esmagava a colher da sopa. Já Simão, tido por ser mais tranquilo, tem andado zangado nos últimos dois dias. João Nuno já disse aos pais que queria morar numa cidade, porque aí não há incêndios.

Nuno Marques ainda não conseguiu voltar a dar aulas na escola em Arganil. “Depois de ter ficado sozinho a combater o fogo, pensei que podia nunca mais vê-los, por isso tão depressa não vou sair de pé deles.”

De baixa e com acompanhamento médico, o professor de Educação Física diz que ainda tem de se tratar, “este é tempo de sarar as feridas”. Em termos práticos há muito para fazer, a começar pela limpeza dos escombros, reflorestar a zona, cortar árvores para tudo estar em segurança. Devagarinho, o sonho começa a ganhar novas formas e querem à mesma fazer um centro de retiro mas versão comunidade. “Queremos viver em irmandade, com várias famílias, em abundância, onde cuidamos uns dos outros”. É Ana João quem diz mas Nuno assina por baixo.

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Vamos ter uma redação itinerante no Centro do país durante todo o mês de Novembro, para ver, ouvir e reportar. Diariamente, vamos contar os casos de quem perdeu tudo, mas também as histórias inspiradoras da recuperação. Queremos mostrar os esforços destas comunidades para se levantarem das cinzas e dar voz às pessoas que se estão a mobilizar para ajudar. Olhar o outro lado do drama, mostrar a solidariedade e o lado humano de uma tragédia. Para que o Centro de Portugal não fique esquecido. Porque grande jornalismo e grandes causas fazem parte do nosso ADN.