Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Mirtilos, fruto de uma paixão

Coração no centro de Portugal

RUI DUARTE SILVA

O que é que um fotógrafo e uma psicóloga fazem em Covas e no Piódão? Plantam mirtilos e têm um alojamento rural – atividades bem necessárias para dinamizar a agricultura e o turismo da Região Centro do País

Ninguém toca nos arbustos dos mirtilos. Nem para fazer a poda que chega a demorar 40 dias. A paixão e dedicação que Ângela Santos põe no que faz sente-se mal começamos a caminhada com a psicóloga pelo seu pomar. Ela arranca as ervas, pois como a raiz da planta é fraca as pragas aproveitam-se, não deixa que lhes falte água e deita-lhes calda bordalesa, um produto de agricultura biológica, à base de cobre, usado na prevenção de doenças. Com o forte incêndio de dia 15 de outubro à porta de casa e da plantação com 1,3 hectares, parte do sistema de rega gota a gota ardeu e já arrancaram mil plantas destruídas. Vai demorar dois ou três anos para atingirem novamente o ponto em que estavam. Era suposto colher oito toneladas, em vez das três que irão conseguir. Cada vez mais vão tentar vender diretamente ao consumidor, através do site da Quinta do Fundo.

Ângela nunca chorou durante os incêndios, nem mesmo quando teve medo e se refugiou no centro da aldeia. Só caíram lágrimas, e foram de alegria e comoção, quando o companheiro Luís Carvalho lhe telefonou a dizer que as Liberty já estavam a nascer de novo – a sua variedade de mirtilos mais querida.

Nada cobre a perda de rendimento da plantação, mas o casal vai candidatar-se ao apoio até cinco mil euros para conseguir substituir a tela, o sistema de rega e algumas plantas. Pelo menos 800 já estão à espera à porta de casa.

RUI DUARTE SILVA

Três quilos de mirtilos por hora

Habituado às lides jornalísticas, Luís Carvalho, 41 anos, morava mesmo na baixa do Porto, ali perto do carismático café Piolho, quando juntamente com Ângela, em 2010, decidiram mudar-se para a região Centro – divididos entre Tábua e Piódão.

Em Covas, na aldeia onde o relógio dá horas a cada meia hora, de dia e de noite, Ângela tinha casas e terrenos de família onde quis montar um projeto agrícola que gerasse um rendimento mais seguro.

Porque não mirtilos? Originário da América do Sul, onde há muito calor mas também os níveis ideais de humidade para o crescimento deste fruto, também no Centro de Portugal as condições climatéricas e dos solos são propícias ao desenvolvimento deste fruto antioxidante. Solos ácidos e arenosos, abundância de águas e consequente humidade, horas de frio adequadas são a receita perfeita.

Ângela Santos conhece como ninguém a meia dúzia de variedades que plantou, de entre cerca de trinta que existem. A Duke é a mais doce, a Blue Gold a mais ácida; a Oneal doce mas mais pequena, a Camélia é enorme e docinha, só a Blue Crop tem um travo agridoce. Com a plantação entre o outono e fevereiro, a colheita acontece nos meses quentes, de maio a julho. “A colheita é muito minuciosa, apenas três quilos por hora e nas caixas só vão os mirtilos que estejam no ponto certo de maturação, não entra nenhum que tenha sido bicado por pássaros”, explica.

RUI DUARTE SILVA

Ouvir é o melhor remédio

Ângela Santos, 33 anos, é também colaboradora da Câmara Municipal de Tábua, integra o recém-criado Gabinete de Apoio Psicológico às Vítimas dos Incêndios. No terreno andam sociólogos, assistentes sociais e técnicos de educação a sinalizar os casos mais complicados. São as pessoas a quem morreram familiares os que apresentam mais sintomas de stress pós-traumático. “No atendimento em crise funciona melhor ouvir”, e Ângela ouve tão bem os pacientes, como sabe falar com os mirtilos. “Tento estimular as pessoas para falarem, para deitarem cá para fora o que sentem.”

E se Ângela é a “chefe da agricultura”, como a própria diz a brincar, Luís é o “chefe do turismo”. Desde junho, quando a zona de Pedrógão ardeu, que a região do Piódão também tem sentido o afastamento dos turistas. “Temos sofrido com a quebra do turismo. Parece que as pessoas ficaram com medo de se fazer à estrada para chegar ao interior do País”, desabafa Luís. A inXisto Lodges, em Chãs d’Égua, são duas casas, cada uma preparada para receber quatro pessoas. No verão a ocupação tem chegado aos 90%, descendo depois nos meses frios para metade. Sempre que chegam hóspedes Luís faz questão de lá estar para os receber.

Mas nada há a temer por estes caminhos de Portugal. Garantimos que as estradas são boas, mesmo com algumas curvas, e a paisagem está a renovar-se naturalmente com muita vegetação verde a medrar, agora que as chuvas vieram com mais intensidade. É só planear a viagem e sair de casa rumo ao Centro.

VISITE AQUI O SITE - “Uma Redação com o Coração no Centro de Portugal”

Vamos ter uma redação itinerante no Centro do país durante todo o mês de Novembro, para ver, ouvir e reportar. Diariamente, vamos contar os casos de quem perdeu tudo, mas também as histórias inspiradoras da recuperação. Queremos mostrar os esforços destas comunidades para se levantarem das cinzas e dar voz às pessoas que se estão a mobilizar para ajudar. Olhar o outro lado do drama, mostrar a solidariedade e o lado humano de uma tragédia. Para que o Centro de Portugal não fique esquecido. Porque grande jornalismo e grandes causas fazem parte do nosso ADN.