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De Arganil com muito sabor

Coração no centro de Portugal

RUI DUARTE SILVA

Depois de o fogo ter rondado o único fumeiro do concelho de Arganil, e de a fábrica ter parado durante quatro dias, as máquinas já estão novamente a laborar a todo o gás, ou melhor, na estufa de lenha

Há poucos dias, pelo São Martinho, enquanto procurava um enchido para fazer uma sopa de cozido (que ficou bem saborosa, modéstia à parte), entre as várias marcas disponíveis no supermercado descobri a do Fumeiro de Arganil. Mal sabia que também o único fumeiro deste concelho da região Centro tinha andado 16 horas a proteger a sua fábrica do fogo que apareceu sem avisar. No ar, o barulho dos helicópteros que já andavam a apagar o incêndio chamou a atenção da família Damião e Soares. Quando vieram cá fora ver o que se passava, espantaram-se com as labaredas que já desciam desenfreadas pela Serra de São Pedro Dias, passaram Poiares e aproximaram-se como nunca tinha acontecido. Valeu-lhes três tanques cheios de água e uma velhinha pick-up Strakar para carregar os depósitos. “Não sei como tudo se salvou”, reflete agora Patrícia Soares, 28 anos, filha do casal fundador do negócio de enchidos.

Seguiram-se quatro dias com a fábrica parada, pois sem água e sem eletricidade a maquinaria não funciona. Veio o medo das multas, se não cumprissem com as encomendas para as grandes empresas, como a Sonae e a Jerónimo Martins, os seus dois maiores clientes, cuja marca própria sai desta fábrica a vinte minutos de Coimbra. Mas não foram penalizados.

No Fumeiro de Arganil saem por dia entre duas e sete paletes que podem chegar aos 500 quilos de enchidos

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RUI DUARTE SILVA

Dois porcos por cinco contos

Há 35 anos, Laurinda Damião e António Soares andavam na casa dos vinte. Foi quando casaram e decidiram começar a trabalhar por conta própria. Com cinco contos compraram um casal de porcos e deram início à criação. Laurinda inventou a receita do chouriço tradicional, o ex-líbris de todos os enchidos produzidos (chouriço lavrador, mouro, paio, salpicão, morcelas, bacon, farinheira). O segredo passa pela escolha das carnes mais magras, o tempero da vinha de alhos, as especiarias e a secagem no fumeiro a lenha com azinho. Laurinda até começou a cultivar o alho e a fazer o vinho para apurar o tempero. O resultado sente-se mal se abre a embalagem e vem o aroma da lenha.

Nessa altura, nos anos 1980, Laurinda e António faziam a venda porta a porta e começaram a receber as primeiras encomendas. O chouriço era cortado à mão, numa enchedeira, uma espécie de funil.

18 funcionários asseguram trabalho na fábrica de Vlarinho do Alva

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RUI DUARTE SILVA

Sopa de feijão pela manhã

Em uma década o negócio cresceu e foi preciso ampliar as instalações da salsicharia e da fábrica, em Vilarinho do Alva, na freguesia de Pombeiro da Beira. Agora já não têm criação de suínos e compram a carne de porco nacional às peças, já desossada. Depois, entre o fabrico, as estufas, a embalagem e a expedição, não há nada que Laurinda Damião não saiba fazer, enquanto António Soares tem a seu cargo a secagem dos enchidos. Hoje, empregam 18 pessoas e Laurinda continua a ser a primeira a chegar. Às sete e meia da manhã abre a porta da fábrica e começa o dia que pode durar até às cinco da manhã – tal como aconteceu ainda na semana passada. As encomendas não podem falhar e para aguentar estes dias duros, ao pequeno-almoço Laurinda come uma bela sopa de feijão com couve galega.

Com o mestrado em Gestão de Recursos Humanos, Patrícia Soares promete assegurar a continuidade deste negócio de família. E genica não lhe falta.

Há 35 anos, tudo começou com a compra de um casal de porcos

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RUI DUARTE SILVA

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