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E quando o chão está queimado… voa-se!

O que fazer quando se tem um projeto de turismo de natureza para uma zona onde, de repente, 85% do terreno está ardido? Literalmente, levantar os pés do chão. Bem-vindo ao Eco Sky Park

Os projectos podem voar como os sonhos, ou podem arder como fósforos. No caso de Jacinta e Octávio Teixeira, 54 anos, um casal que há sete anos decidiu trocar Oeiras por Vouzela, as duas ideias cabem na mesma frase. Em conjunto com a Câmara Municipal de Vouzela, a empresa de turismo de natureza de que são proprietários, a Nómadas, tinha estruturado um projeto para tornar Vouzela na Capital da Aventura – mas a iniciativa ardeu como um fósforo quando, a 16 de outubro, se verificou que 85% do concelho estava completamente queimado. «O fogo também esteve mesmo às portas de nossa casa», lembra Jacinta, que gosta de ser tratada por Jesse. E aí um outro projeto voou como um sonho. Aproveitando uma das bolsas de verde que se mantêm, a mata do Monte da Nossa Senhora do Castelo, Otávio idealizou um parque em que as pessoas podem passear entre as copas das árvores.

Entre os altíssimos eucaliptos, haverá plataformas em que qualquer um poderá andar, sem ter de usar equipamento de segurança. De outras árvores nascerão slides que, à semelhança das lianas do Tarzan, permitirão deslizar de tronco em tronco sem nunca por os pés nos chão e observar, 30 e ta metros acima do solo, a belíssima paisagem do vale do Vouga e da Serra da Freita, mesmo ali em frente. Haverá também um percurso para pessoas com mobilidade reduzida.

Quando a Capital Aventura ardeu, houve que retirar o projeto da candidatura ao Tourism Up, um programa de aceleração de âmbito nacional de apoio a projectos de empreendedorismo nas áreas do turismo, e avançar com a nova ideia. No final de Outubro, soube-se que o projeto tinha vencido o Tourism Up, e esta semana tomou a forma de candidatura à linha Valorizar, do Turismo de Portugal, no qual se espera que obtenha os 300 mil euros necessários à concretização da ideia.

Lucilia Monteiro

Otávio Teixeira e Jacinta tinham todas as razões para se virem embora. Nada os prende à região: não têm família, não nasceram ali, não construíram, na verdade, grandes relações de amizade. O fogo de 15 de outubro esteve às portas da sua casa, em Sejães, concelho de Oliveira de Frades. Deixaram Oeiras há sete anos e foram viver para Vouzela, à procura de um lugar com menos trânsito e com mais tranquilidade.

Quando o fogo, em outubro, chegou às portas da sua casa, e quando lhe fez arder o projeto como um fosfóro, o mais fácil teria sido virem-se embora. «Sim. Mas não fomos», diz Otávio. «Não gostamos de desistir», acrecenta Jesse.

Em sete anos, mudaram quatro vezes de casa. Aventuraram-se num negócio de agroturismo na Serra da Freita, a 700 metros de altitude, que se revelou ruinoso porque só tinha clientes três meses por ano. «Dei comigo a ser pastor», explica ele. «E a ordenhar cabras», diz ela. «Percebemos que não era isso que queríamos.»

Otávio teve uma sensação semelhante há duas décadas, ao acordar um dia. Decidiu que no final desse ano deixaria o emprego e a carreira na área da informática e que se iria dedicar de corpo e alma à Nómadas, que lhe entretinha os fins de semana. E é desde essa altura a actividade a tempo inteiro deste antigo paraquedista militar.

Jesse foi oficial do Exército durante dez anos e dava aulas de Sociologia, área em que é licenciada, em Lisboa, numa escola superior, quando, em conjunto com o Otávio, decidiram mudar-se para Vouzela. Hoje é terapeuta de massagem biodinâmica e também dá aulas de ioga. «Aqui temos a alma mais cheia», explica, de sorriso rasgado.

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