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Renascer em Oliveira do Hospital

Sandra Figueiras trabalha na primeira empresa do concelho a iniciar a reconstrução, logo no dia seguinte ao incêndio. Urge preparar o futuro da filha de 15 anos, numa cidade cercada de cinzas

Filipe Luís

Filipe Luís

Editor Executivo

Luís Barra

Luís Barra

Fotos

Repórter Fotográfico

Aos 35 anos, Cláudio Marques, dono de uma empresa com o mesmo nome, está habituado a controlar o clima: ele fornece frio e calor aos seus clientes, através da instalação de equipamentos de climatização, canalizações, serviços de eletricidade. Mas, no dia 15 de outubro, o "aquecimento" foi-lhe imposto pela fúria da Natureza e os elementos tornaram-se "inclimatizáveis".

Vindo dos matos que cresciam nas traseiras, mas já em plena malha urbana de Oliveira do Hospital, o fogo deitou-lhe a língua de fora, como se estivesse a escarnecer dos seus equipamentos de frio, e varreu tudo: os próprios equipamentos, o armazém, os escritórios, as cinco viaturas, deixando incólumes, à esquerda e à direita, as instalações das duas empresas vizinhas e quase geminadas. Cinco 200 mil euros de caldeiras que teria de instalar este inverno e meio milhão de euros de prejuízos depois, logo no dia seguinte, a 16, Cláudio olhou para as suas hostes - oito funcionários - e improvisou uma equipa de trolhas voluntários.

A Cláudio Marques Empresa de Climatização tornou-se, assim, a primeira firma de Oliveira do Hospital a começar a erguer-se das cinzas. Por estar temporariamente ausente, é o seu braço direito, Sandra Figueiras, responsável pela contabilidade e gestão financeira da empresa, quem nos serve de cicerone e nos deixa um retrato duro daquelas horas de vida ou de morte: "Não houve culpados, mas houve um culpado: o Estado. Sentimo-nos completamente abandonados, sem sinal, durante horas, da presença de bombeiros, ambulâncias, proteção civil... As pessoas já só estavam a lutar pela sua própria sobrevivência."

Sandra Figueiras

Sandra Figueiras

Luís Barra

Salários pagos

Lutar pela sobrevivência da empresa e dos postos de trabalho foi o que fizeram os oito trabalhadores, de mangas arregaçadas. Onde era o armazém, ergue-se agora um estaleiro de obras. No interior das instalações, na zona de escritórios, cheira a novo. Empresa sem dívidas ou créditos bancários, que esperara faturar, este ano, 700 mil euros, aplicou os capitais próprios nesta reconstrução impressionante. Sinais de fumo, apenas os das carcaças calcinadas das carrinhas de transporte e de apoio às instalações de material. Os rostos cegos das viaturas parece, mesmo assim, que nos fitam e interpelam, empilhadas a um canto de ferros retorcidos. Mas as máquinas e os materiais de construção já povoam este patio de terra batida que ainda há um mês era um bem recheado armazém. Os salários foram pagos pontualmente. Alguém emprestou uma carrinha para que a empresa continue a fazer as entregas possíveis. Clientes e fornecedores têm-se mostrado compreensivos. Os técnicos de climatização aprenderam a acarretar baldes de massa e sacos de entulho. Há ínstalações novas a crescer. E foi apenas há um mês...

Em Oliveira do Hospital deitou-se mãos à obra na reconstrução do que foi destruído pelo fogo

Em Oliveira do Hospital deitou-se mãos à obra na reconstrução do que foi destruído pelo fogo

Luís Barra

Estado continua sem funcionar

Mas há um outro lado desta moeda que desmente e trava o dinamismo de quem quer recomeçar rapidamente. Como nos explica Sandra Figueiras - e ela, como responsável pelos números, sabe do que fala... - as promessas de agilização nos incentivos fiscais à reconstrução parecem ter sido palavras piedosas para aplacar a interpelação da opinião pública: "Continuamos a ter de pagar pontualmente a segurança social, o IRS, o IRC... Não há qualquer diferença ou flexibilidade dos poderes públicos. Nós vamos à segurança social, e os funcionários, que vivem cá e sabem o que se passa, sentem-se impotentes, porque as promessas de incentivos não foram regulamentadas em decreto lei e eles não têm autonomia para decidir por si. Tudo o que foi prometido pelo Estado tarda em sair efetivamente e os serviços têm de atuar como se nada se tivesse passado. As empresas destruídas, mesmo as mais viáveis e prósperas, estão sem conseguir laborar normalmente, não faturam, mas continuam a ter de cumprir com as suas obrigações salariais e junto do fisco e da segurança social. E, se não cumprirmos os prazos, a seguir vêm as coimas...»

Uma adolescente cercada de cinza

Meio milhão de euros de prejuízos depois, a Cláudio Marques, empresa fornecedora de equipamentos de climatização, tenta superar a tempestade. Liderada por um jovem empreendedor, que acredita e investe no interior, parece ter a saúde financeira suficiente para poder dar a volta por cima. Cláudio Marques e Sandra Figueiras não vão abandonar Oliveira do Hospital para procurar um emprego do Estado, ou nalgum resort turístico, num qualquer ponto do litoral. Tão pouco pretendem emigrar para aplicarem o seu know how num País onde o Estado funcione melhor. A fachada da empresa, que também ficou destruída, está reconstruída e cheira a tinta fresca. Os interiores têm aquele odor do estuque acabado de retocar. O proprietário foi hoje a um concelho vizinho tratar de negócios. A Sandra Figueiras termina a entrevista com uma certa pressa, porque tem de ir buscar a sua filha de 15 anos à escola. A sua aposta é a de encontrar um futuro para esta adolescente, numa cidade cercada de cinzas, até onde a vista alcança.