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Agostinho não quis deixar a sua aldeia. Garantiu que as chamas não chegariam às casas e estava certo

Coração no centro de Portugal

Marcos Borga

Na madrugada de 15 para 16 de outubro o fogo ameaçava entrar em Cabanões, na Lousã. Agostinho Santos, que nasceu na aldeia e conhece bem o terreno, recusou-se a deixar a sua casa. Assegurava que, “pela forma como estava a avançar”, o incêndio não chegaria às habitações. Adivinhou.

Marcos Borga

Marcos Borga

Repórter Fotográfico

A aldeia de Cabanões, em Lousã, foi evacuada no dia 15 de outubro devido à proximidade do incêndio que lavrava em Serpins. Com apenas seis pessoas a residir permanentemente nesta povoação, os bombeiros julgaram que seria fácil retirar todos os habitantes. Mas Agostinho e o cunhado recusaram-se a sair. Estavam convencidos de que as chamas não chegariam às casas. “O vento soprava na direção contrária e a mata em redor das casas está quase toda limpa. Não tinha por onde arder”, diz, com convicção.
Os bombeiros que apelaram à retirada dos moradores eram do Alentejo. “Não conheciam o terreno, coitados”, lamenta o morador de 67 anos. “Eu e o meu cunhado percebemos que o diabo não ia chegar aqui”, afirma com segurança. Por isso preferiu ficar a precaver uma eventual mudança de direção do vento. “Mesmo que as chamas começassem a vir para aqui, eu e o meu cunhado conseguiríamos fugir porque conhecemos todos os caminhos”, explica. E acrescenta: “Mas antes disso iria combater as chamas… Nem que lançasse contra-fogo! O vento jogava a nosso favor.”
Agostinho Santos viveu durante quase 40 anos na Marinha Grande. Desde que, há uns 12 anos, pediu a reforma, vive na aldeia onde nasceu. Entrincheirada na Serra da Lousã, Cabanões tem um aumento de visitas no verão e em certos fins de semana. “Há alturas em que as casas estão todas cheias”, conta a mulher de Agostinho. Por já não ser verão, naquele trágico domingo de outubro, estavam apenas cinco pessoas na aldeia: um casal de idosos e o filho, Agostinho e o cunhado. Os três primeiros foram retirados por uma carrinha da câmara. Os dois últimos nem os bombeiros, após sucessivos avisos, conseguiram demover. Afinal, “o fogo nem se estava a dirigir para a aldeia.” As advertências eram, para Agostinho, “exageradas”, pois vinham de pessoas que, “por desconhecimento ou inépcia não sabiam do que estavam a falar”.
No dia seguinte, todos os habitantes puderam confirmar que Agostinho estava certo. Mas é o próprio que deixa um alerta: “Não ardeu agora mas há-de arder a seguir… Se não tirarem daqui quem vem cá deitar-nos o fogo não se resolve nada.” Nessa altura, nem o morador com melhor conhecimento do terreno vai poder ajudar.

Marcos Borga