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Em nome do mel (ou como um apicultor de Serpins encara o futuro)

Coração no centro de Portugal

Marcos Borga

Veio de Lisboa para Serpins, na Lousã, há 36 anos para se dedicar à apicultura. O fogo levou-lhe 40% das colmeias e comprometeu a produção dos próximos três anos. O mel de urze está em risco

Marcos Borga

Marcos Borga

Repórter Fotográfico

“Em 36 anos passei por seis incêndios, mas nunca vi nada como o do dia 15 de outubro”, assegura Fernando Ventura, apicultor de 74 anos. Residente em Serpins, Lousã, o gerente da Apimel teme o futuro. “A produção deste ano não foi afetada”, mas os próximos tempos não vão ser fáceis. As chamas fizeram com que perdesse cerca de 40% das colmeias – um prejuízo grande e a longo prazo. Das 12 toneladas de mel que produz habitualmente, apenas vai conseguir metade nos anos que aí vêm. Não apenas pelas colmeias que se foram, mas também pela vegetação que ardeu “e que vai demorar pelo menos três anos a crescer” para que possa ser polinizada.

Fernando nem sabe bem quando começou a sua paixão pela apicultura: "Isso tem muito que se lhe diga....” Importa-se de explicar? “Quando tinha à volta de dez anos o meu irmão levou-me a ver umas colmeias que o meu pai, que é de Pescanseco, na Pampilhosa da Serra, queria comprar. Foi amor à primeira vista!” Apesar da origem beirense do pai, Fernando Ventura nasceu e cresceu em Lisboa. Embora sempre tivesse vivido na cidade, na terra – “era assim que nós dizíamos” – é que se sentia verdadeiramente em casa. E, aos 38 anos (1981), deixou a capital para ir viver em Serpins com a mulher.

Influenciado pela sua ligação à Juventude Operária Católica (JOC), cedo se identificou mais com ideias católicas, operárias e ecologistas. Com 20 e poucos anos tirou um curso de apicultura. O mel que inicialmente produzia era apenas para consumo próprio, mas cada vez se entusiasmava mais com as colmeias de que cuidava num terreno em Alcabideche, perto de Lisboa.

Marcos Borga

A relojoaria onde trabalhava, na Rua do Ouro, está longe de o realizar profissionalmente, mas não encontrava motivo suficiente para sair. “Cada vez sentia mais fobia da cidade.” O sinal havia de chegar, depois de a mulher conseguir pedir transferência para Coimbra. “Não perdi tempo: comprei uma casa em Serpins e mudámo-nos. Os meus amigos achavam que estava louco!”, conta animado.

Começou então a dedicar-se à apicultura a tempo inteiro. O mel deixou de ser para consumo próprio e tornou-se num negócio. No fim dos anos 90, o casal abriu uma casa de turismo rural ao lado de onde viviam. Com sete quartos, ainda hoje é esse outro negócio que ajuda a pagar contas e a aumentar o investimento na Apimel, que conta com dois colaboradores a tempo inteiro e a ajuda dos filhos do casal.

Fernando Ventura é atualmente um dos maiores produtores de mel da região e um dos principais apicultores dedicado ao mel de urze, uma espécie autóctone que apenas existe na Serra da Lousã e no Gerês. “Tenho 250 colmeias que arderam. Em muitos casos, sobrou apenas esta chapa”, diz enquanto segura com as duas mãos no objeto metálico. Mas há também algo que o descansa: a nível financeiro os danos podiam ser muito maiores. Graças ao seguro, o apicultor vai ser ressarcido “praticamente a cem por cento”. “E já deve estar quase a cair na conta!” A ideia de Fernando é começar já a semear. “Quanto mais rápido, melhor. Menos temos de esperar.”

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