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Enquanto há música, há esperança

A história de um rádio que continua a tocar num armazém em chamas, sem que ninguém o tenha ligado, enquanto o fogo dá cabo de grande parte da produção vinícola da Casa de Mouraz

Esta história não podia ser contada sem um copo de vinho à frente. E é por isso que a escrevemos enquanto bebemos um branco de 2015, saído de vinhas velhas, biológicas e tratadas de forma biodinâmica, e de uma variedade imensa de castas. Isso ajuda António Ribeiro, 46 anos, a lembrar-se do momento em que, ao aperceber-se de que o armazém da Casa de Mouraz estava a arder, se aproxima e ouve o rádio, que normalmente era sintonizado na frequência da Antena 3, inexplicavelmente a tocar. Quando sentiu a música, já a madrugada de dia 16 de outubro ia lançada, encheu-se de alento e desatou a atirar gravilha e água para o fogo, com a ajuda dos vizinhos, e assim minimizou os estragos. "Se o rádio funcionava era porque nem tudo estava perdido", pensou de imediato. Só depois percebeu, mistério, que a frequência já não era a do costume, mas uma regional que só passava música pimba, "mazinha", e que o aparelho nem podia estar ligado a nada, porque a eletricidade já acabara há muito.

Depois teve de largar aquilo, porque soube que a casa dos pais, em Mouraz, estava destruída e que metade das suas vinhas já eram apenas cepos queimados. Quando voltou ao armazém com um enólogo da Nova Zelândia para salvar tudo o que conseguissem, acabou no hospital a levar 40 pontos na cabeça - uma das lajes do teto caiu-lhe em cima. Mas isso é o menos quando comparado com os 90% da produção do Elfa de 2013 (o vinho mais caro que produz) no lixo: as garrafas partiram-se, o lacre derreteu e as rolhas saltaram.

À vinha do Pego só foi ontem pela primeira vez (tem 25 hectares divididos por várias parcelas). É um sítio especial, aonde costuma trazer os seus clientes maioritariamente estrangeiros (95% do que produz vai para fora). "Este o nosso château", explica-nos no alto de uma enorme pedra, com vista para a floresta e o que resta da biodiversidade local, no concelho de Tondela. "Sabemos que muitas pessoas vêm a primeira vez aqui porque provaram o nosso vinho em algum ponto do mundo e querem conhecer a terra onde é produzido."

Sara Dionísio, 49 anos, é a sua mulher e mãe dos seus dois filhos, de 11 e 13 anos. Mudou-se com ele para aqui em 2001, quando ambos deixaram as suas profissões (ela era professora de dança e socióloga, ele editor de uma revista de arte, embora tenha o curso de Direito) para se dedicarem ao negócio do vinho, há anos na família de António, de forma sustentável. Sem nunca esquecerem a floresta onde estão inseridos.

Apesar de contabilizarem os seus prejuízos em qualquer coisa que nunca será menos do que 700 mil euros, andam confortados com a onda de solidariedade gerada à sua volta. Alguns dos principais clientes já se predispuseram a comprar a colheita em primor (quando é vendida mesmo antes de o vinho ser feito), outros produtores nacionais contactaram-os para cederem espaços de armazém, por exemplo, e há lojas que lhes disseram que tudo o que tiverem de lucro com a venda dos seus vinhos lhes será entregue. Ao mesmo tempo, estão a tratar de criar um crowdfunding para fazerem face às muitas despesas.

Apesar de terem passado três semanas sobre o incêndio que lhes mudou a vida, não podem mexer em nada. Já fizeram a declaração de prejuízos no Ministério da Agricultura, mas ainda não tiveram a visita de nenhum técnico para uma vistoria aos danos. Assim que tiverem luz verde, António há de ir para o terreno com uma tesoura de poda, para ver, uma a uma, quais as árvores que terão chances de recuperar. Raspando-as, verificará se há verde por dentro do tronco queimado; se for esse o caso, daqui a uns anos - não sabe quantos - voltarão a dar uva.

"Vamos ter de refazer tudo e isso é possível. Mas não conseguimos influenciar o que está à nossa volta, o que nos preocupa. Qualquer dia já nem existe ruralidade. A reorganização da floresta devia ser um desígnio nacional", afirma Sara Dionísio, indignada perante a profusão de eucaliptos e mimosas naquela floresta.

Sabem por isso que não podem parar, nem que seja pelos seus clientes, alguns deles sentados às mesas de restaurantes como a Bica do Sapato ou o Eleven, em Lisboa, ou o Noma, na Dinamarca, durante anos considerado o melhor do mundo.

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