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Lutar contra o fogo na Lousã e cortar madeira em Pedrógão

Roberto andava há quatro meses a limpar pinho e eucalipto quando as chamas chegaram à sua aldeia. Em casa ou no trabalho, para onde quer que olhe hoje só vê árvores queimadas

Rosa Ruela

Rosa Ruela

Jornalista

André Moreira

André Moreira

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Jornalista Multimédia

Uns dias passados no triângulo Figueiró dos Vinhos-Castanheira de Pêra-Pedrógão Grande deixam-nos com os olhos cheios de montanhas e vales cobertos de árvores queimadas, muitas agora já cortadas e deitadas pelo chão às dúzias, parecendo ainda mais mortas do que nunca. Será heresia escrever que quase ficamos imunes ao cenário? Ou a verdade é que pisamos tanto no acelerador para não sentir que só estacamos quando passamos por algo inusitado como ver um homem sozinho e o seu machado?

Roberto Santos Alves ainda é só um homem e um machado quando o vemos ao longe e decidimos parar para conhecer a sua história. Havemos de lhe perguntar o nome à despedida, para passá-lo à equipa da VISÃO que for este mês à serra da Lousã. A sua aldeia, Serpins, fica a uma hora de carro de distância, e é para lá que agora ele ruma outra vez diariamente ao final da tarde, estafado de limpar o negro do pinho e do eucalipto. Mas nos últimos quinze dias foi por lá que ficou o tempo todo, teve de ser.

Roberto Alves era só um homem sozinho e um machado quando o vimos ao longe, entre milhares de troncos queimados

Roberto Alves era só um homem sozinho e um machado quando o vimos ao longe, entre milhares de troncos queimados

Tiago Miranda

Após os fogos de junho, o patrão de Roberto seria dos primeiros a chegar à zona de Pedrógão Grande. O trabalho tem sido feito por empreitadas, montanha acima, montanha abaixo, com os homens a revezarem-se aos comandos da máquina que corta a madeira e da máquina que a leva. A tarefa de limpar os troncos, de lhes “tirar o negro” do queimado, é toda à mão, com o tal machado certeiro a fazer saltar as cascas. “Com elas não entram na fábrica”, ensina Roberto.

O pinho segue habitualmente para serrações, destinado a móveis ou paletes, mas por estes dias já pouco estão a aceitá-lo. Perdeu valor porque perdeu água com o tempo. O eucalipto calha quase sempre ir para moer, para o papel, nem por acaso uma indústria com tradição na aldeia de Roberto. Era em Serpins, entre a Lousã e Arganil, que ficava a antiga Fábrica de Papel do Boque, classificada como imóvel de interesse municipal e agora destruída pelo fogo.

Serpins foi evacuada logo à hora do almoço de 15 de outubro, considerado o “pior dia do ano” em matéria de incêndios florestais. Como era domingo, Roberto estava em casa e defendeu-se como pôde até a sua aldeia ser evacuada. Nas duas semanas seguintes, ficou pela zona a ajudar o patrão a refazer-se dos prejuízos – em poucas horas, o homem perdeu um armazém, um camião, o material todo.

Roberto é pai de três filhos pequenos. Aos 14 anos já trabalhava como madeireiro, aos 26 confessa-se preocupado com o futuro. “Em Arganil ardeu tudo, não há lá nada. E isto”, diz, a olhar os troncos queimados em volta, “vai fazer falta um dia.”

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