Gosto de ver um daqueles jogos de futebol em que o objectivo é marcar mais golos do que o adversário, mas estes em que os jogadores lutam pelo prestígio de Portugal junto dos mercados financeiros também são interessantes. Várias figuras, anónimas e conhecidas, têm dado o seu apoio à nova modalidade e pedido aos jogadores que endireitem a economia na transformação de livres directos, ou que resolvam o problema do desemprego ao pontapé. Tendo em conta que o governo também tem tratado o desemprego com os pés, não se pode dizer que o pedido seja inovador, ao menos no que ao método diz respeito, mas há que ter esperança.

O campeonato da Europa de mudança da opinião que os estrangeiros têm sobre Portugal começou mal. No primeiro jogo, a imagem do país lá fora foi ao poste antes do intervalo, e, na segunda parte, o futuro dos nossos filhos foi à barra. Antes disso, o guarda-redes alemão já tinha socado para trás o orgulho que os portugueses sentem no seu país. Um português que acompanhava o jogo pela televisão, e não sabia onde tinha posto os óculos, chegou a pensar que a bola tinha entrado na baliza alemã e começou a sentir orgulho em Portugal, mas depois percebeu que afinal era canto e voltou a ter vontade de emigrar. 

No entanto, duas vitórias nos dois jogos seguintes fizeram com que a Europa nos olhasse com outros olhos. Há mais respeito, agora. Um português passeia nas ruas de qualquer cidade europeia e sente a admiração de toda a gente. O ministro das Finanças alemão terá telefonado a Angela Merkel para lhe dizer que, uma vez que a nossa selecção tinha sido capaz de bater a Dinamarca por 3-2, talvez as medidas de austeridade pudessem ser um pouco menos duras. Desempregados que já tinham as malas feitas para emigrar voltaram a pendurar a roupa no cabide e desataram a projectar micro, pequenas e médias empresas.

É infalível: selecção que faça brilharetes nos campeonatos internacionais obtém o respeito do resto do mundo. Repare-se no exemplo da Grécia: venceu o campeonato da Europa em 2004 e, hoje, o seu povo é tido na mais alta consideração. Os gregos mostraram que eram um povo honesto, corajoso e trabalhador, e qualquer pequeno problema que eventualmente possa haver com as finanças do país é desvalorizado quando os responsáveis da União Europeia e do FMI recordam o que Zagorakis e seus pares fizeram, há oito anos, em Portugal.

Os próprios espanhóis, que são campeões da Europa e do Mundo, têm um quarto da população no desemprego, mas esses são desempregados que podem comer um bocadinho do orgulho que foram ganhando naqueles campeonatos, e dar aos filhos a alegria de viver num país cuja selecção de futebol vence bastantes jogos.