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Spring Brakers, de harmony Korine

'O Gebo e a Sombra' o mais recente trabalho do mestre Manoel de Oliveira foi muito bem recebido no Lido de Veneza, apesar de ter sido apresentado fora da Competição. Mas a pedrada no charco foi 'Spring Breakers', do aberrante realizador Harmony Korine.

José Vieira Mendes

Aos quase 104 anos o realizador português (que não viajou por mera precaução) continua a ser uma das marcas mais prestigiadas do cinema e da cultura portuguesa. Desta vez com 'O Gebo e a Sombra', uma actualização da peça do escritor Raul Brandão, escrita em 1932. Se a peça de Brandão se fixava na nostálgica aceitação da pobreza e na humildade, o filme de Oliveira dá completamente a volta ao texto original transformando num registo dramático-teatral de uma actualidade espantosa e de uma lacónica ironia: isto é um filme sobre a condição humana e sobre o poder do dinheiro nas sociedades contemporâneas. 'O Gebo e a Sombra' conta a história de um velho contabilista (Michael Longsdale) que continua trabalhar para sustentar a família, composta por sua esposa (Claudia Cardinalle) e a nora, Sofia (Leonor Silveira). Gebo tem um filho, João (Ricardo Trêpa), que à muitos anos abandonou a familia. O regresso do filho a casa vai destabilizar o equilibrio familiar e as finanças do pobre Gebo. Um grande conto moral metáfora dos nossos tempos, onde Oliveira conseguiu reuniu um elenco internacional de excepção e alguns dos seus actores fectiche, aos quais se junta ainda Luis Miguel Cintra e Jeanne Moreau. O realizador e argumentista Harmony Korine (escreveu 'Kids' para Larry Clark) deu uma pedrada no charco em Veneza com 'Spring Breakeras', um dos melhores filmes até agora na competição. Sempre à sua maneira um tanto aberrante continua a fazer filmes que são uma caricatura da juventude americana e do 'american way of life', mostrando estereótipos ao limite da putrefação e do mal estar social, que podem também se estender à Europa. Quatro miúdas adolescentes nas habituais férias de primavera de estudos (spring breakers), que comparativamente à nossa realidade podemos chamar de passeio(s) de finalistas. E que em alguns casos até têm acabado recentemente nas noticiadas tragédias, em pleno Sul de Espanha. Quer isto dizer, em experiências de consumo de álcool desenfreado e as primeiras relações sexuais nos apartamentos ou nas partes praias paradísiacas de águas quentes e ensolarados. Só que agora estamos nos EUA e para financiar as férias, o quarteto de protagonistas (um notável elenco de 'lolitas', que arriscou muito na precose carreira, Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Ashley Benson e Heather Morris), faz um assalto a banco. O melhor dos resultados e o mais óbvio seria a tragédia ou a prisão. Contudo o imprevisivel efeito não é directo, mas antes collateral para um super rapper-traficante (uma belíssima interpretação de James Franco), que passa de caçador a caçado. Vejam que vale a pena!Em 'Bella Addormentata', o realizador italiano Marco Bellocchio com o seu habitual registo politico-dramático centrou-se nos primeiros dias de Fevereiro de 2009, para contar história verídica de Eluana, um jovem em coma há 17 anos e mantida viva artificialmente e que muitos reclamavam a piedade de uma morte assistida. O filme é mais um ensaio sobre a questão da eutanásia e ao mesmo tempo um retrato de uma Itália durante um verdadeiro terremoto ético, político, humano. Mas é igualmente um tema universal. O mestre italiano construiu personagens ficcionais (à custa de um grande elenco, com Toni Servillo, Alba Rohrwacher, Michele Riondino, Isabelle Huppert, Maya Sansa) para regressar aos seus temas de eleição (religião, família, educação católica, compromisso político). 

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