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Óscares: Por Favor, podem incomodar!

Cinema

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óscares

 Depois da fase Peter Pan que assolou os filmes da passada temporada dos óscares, em que Hollywood "adolesceu", esta  85ª edição é marcada por filmes sisudos, densos, longos, políticos e sobretudo incómodos. Alguns duelos e duetos do "top-nine" deste ano



2012 foi o ano mais "pipoqueiro" de Hollywoood (descontando A Arvore da Vida de Terrence Mallick, uma espécie de sinfonia visual, oração para ateus, e Meia Noite em Paris, com referências literárias e artísticas mais sofisticadas); 2013 um "osso duro de roer" - quer dizer,  mais circunspecto e maduro. Se os óscares fossem uma espécie de oráculo para espreitar para dentro deste ano, muito haveria a especular sobre esta mudança drástica de registo nesta 85º edição (na madrugada de Domingo, dia 24 de Fevereiro), com Seth MacFarlane enquanto anfitrião. Mas há definitivamente qualquer coisa que se apanha no ar dos tempos. A edição passada foi varrida por uma vaga de "feel-good movies", para menores de 18, sem sexo, violência, crises e guerra. E até Scorsese (quem diria?) se rendeu ao infanto-juvenil e ao 3D com A Invenção de Hugo (que de entre 11 nomeações, conquistou 4 óscares, embora nenhuma nas chamadas categorias major). O grande vencedor (5 óscares, entre eles o de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor actor) foi um filme francês de um realizador praticamente desconhecido, O Artista: um pastiche engraçado, a preto e branco, mudo, cheio de música, artifícios visuais e sapateado, claro), em formato quadrado e com actuações expressionistas, sobre um ator e um Jack Russel Terrier com dificuldades em se adaptarem aos novos tempos sonoros. Curiosamente, ambos os filmes se encaracolavam sobre os seus umbigos: a indústria cinematográfica. Mas enquanto o americano Scorsese homenageava o bisavô dos efeitos especiais, o francês Méliès e a sua Viagem à Lua (1092); o francês Hazanavicius celebrava os anos dourados de Hollywood.  

Este ano, encontramo-nos em pólos opostos: as obras que figuram na categoria de Melhor Filme não fazem cedências aos box-office, estatisticamente sempre mais invadidos pelos tais adolescentes das pipocas. Os filmes contemplados são longos, alguns bastante opacos, e até embaraçosos para a política americana. Mesmo o musical, que costuma ser "the joy of the party", é baseado n' Os Miseráveis, de Victor Hugo e na comédia romântica Guia para um Final Feliz,  as personagens sofrem de distúrbios mentais, como se os mais malucos estivessem ficado do lado de fora do manicómio. Spielberg não fez o biopic da tutelar e incontestada figura unificadora americana, o presidente Lincoln: apanhou-o na sua fase mais crítica, aquela em que ele jogou tudo, até o prolongamento da guerra e a continuação da carnificina fraticida, para aprovar a 13ª emenda, a da abolição da escravatura- um tema que ainda se manuseia com pinças nos EUA. Tarantino, em Django, coloca os seus extraordinários personagens uns anos antes da guerra civil, mas usa o mais americano dos géneros, o western, para escarafunchar na ferida, remexer nesse passado "negro", incómodo e desalmado que os seus compatriotas prefeririam esquecer. Kathryn Bigelow e Ben Aflleck (em 00:30 Hora Negra denunciam as intervenções desastrosas dos americanos no Médio Oriente. O filme indie do grupo (As Bestas do Sul Selvagem) mostra uns seres repugantes mergulhados num charco infecto e até o vibrante Life Pi, de Ang Lee, é difícil de digerir, com todo aquele panteísmo e animais náufragos que se devoram num bote. Quanto a Amour é talvez o filme mais duro e violento de Haneke. E aqui não há culpas a quem atribuir. Apagar-se lenta e dolorosamente faz parte da natureza humana. Como um coto de vela, sem préstimo nem chama.

 

 Dores CIÁticas

Argo, de Ben Affleck

7 nomeações para os óscares

00:30, A Hora Negra, de

5 nomeações para os óscares

 

 É mais aquilo que os une do que aquilo que os separa. Ambos os filmes retratam, com 30 anos de diferença, as manobras da secreta americana, às vezes desastradas, outras incrivelmente amadoras, e tão inverosímeis que davam um filme. Foi o que aconteceu com Argo, uma história disparatada demais para ser real, em que um agente da CIA especializado em "extrair" reféns tem o melhor dos piores planos para resgatar meia dúzia de compatriotas seus, refugiados na casa do embaixador canadiano, quando a respectiva embaixada, no Irão, é invadida por turbas fundamentalistas, depois de os EUA terem apoiado o xá deposto e Aiatolá Khomeini decretar a caça ao americano. Nas catacumbas da CIA há quem sustente um plano que consiste em arranjar umas bicicletas (e alguém que os ensine a equilibrar-se nelas) e fazê-los pedalar quase 500 km até à fronteira do Iraque. O agente, interpretado por Affleck, sugere umas "rodinhas" e contrapõe um plano mirabolante de se fazerem passar por uma louca equipa de filmagens canadianas que vem ao Irão fazer a repérage de décors exóticos para rodar um filme de ficção científica. Argo (sem dúvida o melhor dos três que Affleck realizou) está construído de uma forma muito convencional, muito didáctico até (mesmo feito para americano ver e perceber), a colagem entre imagens de época é funcional e a tensão da fuga dá para maltratar algumas unhas. Mas a história é tão fantástica que merecia melhor, nomeadamente um protagonista mais carismático (Affleck mantém a mesma poker face do princípio ao fim do filme) e um grupo de reféns a quem não sobressaísse tanto bigode, óculos de massa e golas avantajadas de camisa. Nos óscares aparece com uma ligeira vantagem em relação ao filme da Bigelow, também sobre as tentativas de uma década da CIA para capturar o inimigo número um da América, Bin Laden ( e atenção que "as tentativas" incluíam técnicas de tortura por afogamento e humilhação) - ambos estão nomeados para melhor filme, embora não para melhor realizador, o que lhes retira possibilidades de vencerem (só por quatro vezes na história dos óscares o Melhor Filme não concorre também com Melhor Realizador). No entanto, Argo acumulou (algo inesperadamente) prémios e Hora Negra tem tido uma receção bastante morna. Por outro lado, Argo não tem nenhuma nomeação para ator principal (não admira), mas Alan Arkin figura na categoria mais forte deste ano, a dos actores secundários - todos os nomeados são oscarizados. Jessica Chastain é um nome muito recente (ainda há dois anos era desconhecida) mais com alta cotação em Hollywood. Infelizmente revela-se um erro de casting neste filme, é tão bonita que distrai, não empresta a ferocidade necessária a uma agente obcecada, que assiste às torturas, e nem está presente na cena climática, porventura a melhor do filme, em que pela meia noite, na escuridão de uma moradia sinistra do Paquistão, cheia de crianças, um membro do corpo de intervenção chama baixinho: Ossama, Ossama!



 

 À lei da bala ou do voto

Lincoln, de steven Spielberg

12 nomeações

Django Libertado, de Quentin Tarantino

5 nomeações

 

Spielberg é o candidato mais forte nesta edição dos óscares, naquele que é talvez o seu filme mais contido, numa reverência quase respeitosa à personalidade de Lincoln. O realizador já foi nomeado 12 vezes por oito filmes e foi vencedor de três óscares. E se por um lado, Lincoln está nomeado para a categoria de Melhor Filme e Melhor Realizador (o mesmo não acontece com Django: "apenas" para Melhor Filme), e o protagonista Daniel Day-Lewis (dois óscares) já é quase dado como vencedor antecipado, em Django, apenas Christoph Waltz, o caçador de prémios germanófono no velho oeste, é nomeado, sendo que as tão sinistras quanto inesquecíveis atuações do traidor de classe e de raça, Samuel L. Jackson e do esclavagista sulista, Leonardo Di Caprio, são ignoradas. E enquanto Spielberg acaba com a ignomínia da escravatura através do cumprimento das regras da democracia (a aprovação da famosa 13ª emenda) , Tarantino (apenas um óscar pelo guião de Pulp Fiction) opta pela subversão e prefere outra lei- a da bala e a da dinamite. Lincoln é colocado como uma estranha figura em pano de fundo, Day-Lweis trabalha mais as cordas vocais e a curvatura do lombo, do que a espessura psicológica da personagem, enquanto os seus "colaboradores" manobram nos bastidores, através da chantagem, do lóbbie, da corrupção. É mais um filme de palavras, de pequenas pinceladas e detalhes perfeccionistas de época,  do que de acção ou de grandes cenas inolvidáveis. É assim o vale tudo da política: desde que seja por debaixo da mesa.  São assim as regras obscuras da democracia: insidiosas. Django também dessarruma tudo, como sempre, de uma forma hiperbólica, cheio de humor e provocação (e também muito sangue). Tarantino remexe na ferida pouco cicatrizada da escravatura, usa o western para denunciar o holocausto negro na américa, à mistura com a fábula alemã da donzela que aguarda que o poor lonesome cowboy a liberte do dragão, e faz explodir uma mansão do Mississipi à Tudo o Vento Levou, com o mesmo gozo de vingança pura, com que rebenta o cinema parisiense, em Sacanas sem Lei, com todo o 3º Reich lá dentro.  



 

 

 Ou 8 ou 80

Emmanuelle Riva

(Amour, de Michael Haneke)

5 nomeações

Quvenzhné Wallis

(Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin )

4 nomeações

As idades das actrizes (ambas nomeadas na categoria principal) estão tão distantes quanto os filmes e os seus realizadores. Riva com 85 anos é a actriz mais velha alguma vez nomeada para os óscares e Quvenzhné, com apenas 9 anos, bate o recorde da mais nova -  "roubado" a Abigail Breslin, a menina do Little Miss Sunshine, em  2007. E se Amour é um filme tão cerebral, tão comedido em termos de exposição emocional, e toda a comoção nos chega através da frieza do bisturi de Haneke, que disseca a velhice moribunda da protagonista, meticulosamente, ruga, após ruga; em Bestas... a emoção é gritada, coagida, arrancada a fórceps, num filme desarranjado, cheios de caos, humidade e repugnância. Haneke, o realizador austríaco, até agora nomeado por duas vezes, é conhecido por filmar ensaios sobre vários tipos de violência, como que colocados na frieza de uma gamela de laboratório. Desta vez a violência vem de dentro, da incapacidade interna das células de perpetuarem o seu metabolismo e as reacções químicas de sempre. Zeitlin não é conhecido por coisa nenhuma (esta é a sua primeira longa, Prémio do Júri em Sundance) e a violência que também retrata no seu filme vem não de dentro, mas de fora,  de todo o lado, ao molho, tudo o se puder arranjar. A violência do meio, dos rios que extravasam, dos outros elementos primários: do fogo, da terra, do ar poluído, do aquecimento global, dos animais terrestres e anfíbios, dos seres pré-históricos e imaginários, dos medos infantis, dos cuidados civilizacionais e assépticos dos hospitais, das escolas que formatam, das entidades oficiais que fornecem aos desvalidos resgatados de um pântano insalubre uma refeição (cozinhada) num prato. É uma violência caótica, anárquica, descomposta, num argumento desconexo, ambulatório, como os destroços que boiam nas águas pútridas e vogam à deriva, e cinematograficamente não traz nada de inovador. Tão distante de Haneke, que só trabalha com actores profissionais (Emannuelle Riva era a amante, em Hiroshima, Mon Amour, de Allain Renais, em 1959, Jean-Louis Trintignant contracenava com Vittorio Gassman, em a Ultrapassagem, de Dino Risi e a portuguesa Rita Blanco foi uma escolha tão determinada por parte do realizador que não admitia recusas, e ficou o elenco todo a aguardar que a porteira do filme conseguisse compatibilizar a agenda com a rodagem de Amour. No entanto, e por mais bizarro que seja esta combinação antipodal, estão ambos nomeados a Melhor Filme e Melhor Realizador.  

 

 

Trolls contra Tigres de Bengala

 

A Vida de Pi, de Ang Lee

11 nomeações

The Hobbit, de Peter Jackson

1 nomeação

 

Estávamos em 2003 quando o terceiro filme da trilogia do Senhor dos Anéis conquistou todas as categorias a que foi nomeado. A ascenção foi súbita, em 2001, conquistou 4 dos 13, e em 2006m 2 das seis nomeações. Ao todo foi um festim de óscares que Peter Jackson artilhado com todos os efeitos especiais e o medievalismo mágico de Tolkien conquistaram: 17 estatuetas. Mas a queda foi a pique, quando o realizador neozelandês regressa com à terra do meio, numa prequela, que promete atacar todas as pontas soltas que se desenrolaram na triunfal trilogia. Hobbit causou a maior indiferença, e até com alguma polémica relacionada com a morte de animais durante a rodagem - 27, acusaram uns fazendeiros neozelandeses que supostamente assistiram aos maus tratos. Em A Vida de Pi (talvez o filme mais bem colocado nesta edição - Ang Lee já foi vencedor de um óscar e é um realizador absolutamente  eclético e sabe como fazer filmes para agradar) também há um desfile de animais, que, por nas suas mais ousadas travessias se tornarem virtuais, não consta que houvesse baixas a registar. E tudo o que no Hobbit é negro, medonho, sujo e subterrâneo. Em a Vida de Pi, é vibrante, saturado de cor e muito solar. Ambos utilizam o 3D, mas Ang Lee explora as potencialidades encantatória da técnicas e Jackson mais as de provocar susto nos penhascos e precipícios. O facto de Hobbit ser o primeiro filme alguma vez a  poder ser exibido em 48 frames por segundo (o dobro dos actuais 24), tornando necessariamente o fluxo das imagens mais rápido e impactante para aquilo que o olho humano consegue assimilar, não parece ter sido suficiente para causar um entusiasmo extra. A Vida de Pi mostra uma India luzidia, cheia de pigmentações, e mesmo as cenas trágicas do naufrágio, e dos animais num bote à deriva, têm a depuração do fantasismo de fábula, uma espécie de arca de Noé numa linha muito onírica e panteísta ( "a fé é uma casa com muitos quartos"), em que se salvam apenas os que estão no topo da cadeia alimentar: o homem e o tigre.   



Rei, capitão, soldado, ladrão

Phillipe Seymour Hoffman

Joaquín Phoenix

(O Mentor)

3 nomeações

 

Curiosamente, o mais fantástico duelo do cinema em 2012 não acontece no faroeste de Tarantino. E a melhor cena de animal enjaulado não ocorre quando o tigre de Ang Lee percorre os escassos metros quadrados de um bote salva-vidas. Mas no inclassificável O Mentor, de Paul Thomas Anderson (cinco nomeações e nenhum óscar) que cometeu a proeza de ter todos os três atores (Phillipe Seymour Hofman, Joaquín Phoenix e Amy Adams) que conduzem o argumento nomeados, ao contrários do que acontece com outros, como é o caso da Vida de Pi, que entram na categoria de Melhor Filme, sem qualquer atuação reconhecida pela academia.  É um caso raro, mas por mais incómodo e inconveniente e até hermético que seja o filme de Anderson, dificilmente se descartariam as cenas em que os atores batalham pelo controlo. A cientologia está lá, vigilante mas subterrânea, sem nunca sem mencionada, apenas sugerida, mas toda a questão roda em torno do tema da dominação, latente nas suas várias vertentes. O da mente sobre o corpo (e todas as outras teses de controlo defendidas pela cientologia, e afinal é disto que se constrói uma seita, uma religião); o do passado sobre o presente; o da mulher sobre o marido; o do mentor sobre o pobre diabo, marinheiro sem rumo nem graças do mar; e mais do que tudo, as fantásticas sequências, longas e sufocantes - mesmo de cortar a respiração - quando os actores contracenam uns com os outros e tentam conquistar o espaço, como numa cápsula espacial em que o oxigénio escasseia. O filme desenvolve-se sempre assim, nesta asfixia, no plano do argumento, mas também no das reais performances de Phoenix (3 nomeações) e Hoffman (um óscar). Um escritor, médico, físico nuclear e aquele drogado, bêbado, ladrão,  imprevisível, animalizado, apanhador de couves, de ombros curvados e gestos hesitantes. Cada diálogo é um duelo, momentos mágicos, atmosfericamente perfeitos, em que cada um nunca pode ser o primeiro a piscar os olhos. Senão perde o jogo. É uma questão de controlo. Sempre.  

 

 

Se cantaste, agora dança!

 

Guia Para um Final Feliz, de David O. Russel

8 Nomeações

 

Os Miseráveis, de Tom Hooper

8 nomeações

 

Têm um empate técnico a comédia romântica e o musical, ambos nomeados para Melhor Filme, mas apenas David O Russel foi escolhido na categoria de melhor realizador. De facto uma das coisas que desilude em Os Miseráveis, uma adaptação de uma adaptação (de uma peça da Broadway) do majestoso livro de Victor Hugo, o revolucionário romântico, figura tutelar da literatura mundial. Hooper (o realizador britânico oscarizado pelo Discurso do Rei) parece tão concentrado nas cordas vocais dos seus atores que passa o tempo a fazer-lhes close ups, a apanhar-lhes as vibrações das gargantas, as veias das testas do esforço, os lábios trementes do canto. De resto, reina um convencionalismo de telefilme que não se coaduna com os excessos e todas as intemperanças admissíveis e até bem-vindas num musical. Já Davi O. Russel tem um percurso muito mais ousado (três nomeações) e depois de o extraordinário Três Reis, 1999, um filme híbrido de guerra e aventura, realizou O Jogador que também chegou aos óscares e valeu a Christian Bale um óscar por um papel e uma caraterização de personagens excelente. A comédia Romântica é dos três o menos interessante. Mas estão tão acostumados os americanos a assistirem a comédias do género "Boy meets girl" pouco inteligentes que quando aparece uma acima da média, entusiasmam-se. Pode explicar-se assim a presença deste filme tão bem posicionado, com bons diálogos, algumas boas situações e um casal com algum potencial - embora Bradley Cooper surpreenda muito mais com seu ar perplexo perante a loucura de todos os que o rodeiam, gente que a sociedade considera sã de espírito, mas afinal cada qual coleciona e tem para a troca o seu distúrbio mental - e ele é que esteve internado num manicómio. A solução é mais ou menos aquela de que Pina Baush falava. Dancem, pela vossa saúde mental.