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Os Miseráveis: Quem Canta, Seus Males Agiganta

Cinema

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os miseráveis

Hugh Jackman é um veterano do canto, Anne Hathaway comove a entoar as mais desventuradas baladas, a voz digna de Russel Crowe, com porte de gladiador, surpreende... O problema é que neste musical Os Miseráveis (estreia-se hoje, dia 3), quase nos esquecemos de que se trata de uma adaptação de uma das mais poderosas obras do século XIX, do grande Victor Hugo, e não de um concurso de apreciação dos dotes vocais das estrelas

E tudo por causa de um naco de pão. Roubado para salvar um sobrinho famélico. E não bastava infortúnio tamanho como ser condenado 20 anos de trabalhos forçados nas galés. Jean Valjean (Hugh Jackman), o protagonista criado por Victor Hugo, e cujas desditas se percorrem ao longo dos cinco volumes de Os Miseráveis (1862), ainda precisa de ir mais fundo, de ser apedrejado pelas aldeias francesas como um cão vadio, de ser escorraçado nos caminhos, de ser enxovalhado, perseguido, humilhado, mergulhado nos esgotos parisienses e ter sempre à perna um polícia obcecado pela justiça, Javert (Russel Crowe). Ele está fora de grades, evadido, mas mantém esta grilheta, quase até à morte - como uma maldição, uma espécie de culpa sem expiação, que lhe garrota o tornozelo e o deixa de passos tolhidos.

Porque Victor Hugo era um romântico. Um romântico revolucionário, as suas personagens eram mártires, derramavam sentimento, despenhavam-se em desgraça até à última gota de sangue. Exangues de sofrimento e lágrimas. Muito dadas a acessos de nobreza moral. Tudo é exacerbado, tudo se esparrama em êxtase. O amor ou o ódio. "Quando se trata de sondar uma ferida, um abismo ou uma empresa, desde quando é errado ir para abaixo demais, ir ao fundo? Não explorar tudo, não estudar tudo, parando ao longo do caminho, porquê?", questionava-se Victor Hugo.

Valjean já quase nem é homem, é herói, é uma bandeira da injustiça, que abana durante o livro inteiro, tal como se agitam aquelas, vermelhas, cheias de frémitos revolucionários e ingenuidade sã, nos tumultos das barricadas de Paris, em 1832, na Rua de São Denis, aquando da falhada tentativa republicana contra a monarquia orleanista, ou no quadro de Delacroix A Liberdade Guiando o Povo (1830, por altura da queda dos Bourbons), que, diz-se, muito provavelmente terá inspirado o escritor. E ao longo de Os Miseráveis, outras personagens-bandeiras: umas agitam a prepotência oficial implacável (Javert); outras oscilam com veemência a inclemência imoral contra as mães solteiras, descriminadas, desamparadas (Fantine/Hathaway), sobretudo humilhadas, a quem a sociedade desapiedada esmifra tudo, sugadas, vendidas, o cabelo, os dentes, o corpo... A bandeira da criança explorada (Cosette), a bandeira do oportunismo (a dupla de estalajadeiros Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), a bandeira do amor incondicional, a bandeira dos ardentes revolucionários que se erguerá até à morte. La liberté ou la mort era um dos gritos da Revolução Francesa iniciada em 1789, seus refluxos, avanços, recuos e circunvagações...

Figura tutelar

Victor Hugo morreu velho, acompanhou praticamente todo o século XIX, toda a turbulência social, da miséria extrema à ostentação opulenta, dos corpos pendurados às guilhotinagens em série, ao terror, dos vários fulgores da liberdade, igualdade, fraternidade às pequenas derrotas deste slogan que jamais foram totais. Viu como a infâmia e a miséria andavam a passo, assistiu à indiferença pelo outro, à inclemência insana de um sistema repressivo. Um homem muito à frente do seu tempo, tinha uma esperança imensa na generosidade humana - e Valjean era o seu arquétipo. Exilado depois do golpe de Napoleão III numa ilha do canal da Mancha, o escritor mesmo à distância continuava figura tutelar das letras e da encarnação do espírito democrático francês. Venerado como Tolstoi na Rússia. Uma figura maior do que a própria vida.

E Os Miseráveis, nesta sucessão de personagens cujos destinos se vão entrelaçando, em épicos e líricos movimentos, às vezes de forma totalmente inverosímil, sobreviveu dois séculos. Idolatrado por uns, condenado por muito contemporâneos que o consideravam "o livro mais perigoso do seu tempo". O fascínio mantém-se, fizeram-se mil e uma adaptações, vilipendiou-se a obra em simplificações várias, resumos, súmulas, versões infantis, séries televisivas, filmes e o tal musical que se estreou nos palcos há mais de 25 anos, mas cujas músicas continuam a ser cantadas em concursos televisivos. E agora a adaptação de uma adaptação. O filme do musical. O que se pode fazer para não tornar Os Miseráveis num fado dos desgraçadinhos? Como garantir a dignidade daqueles sentimentos tão em carne viva ao ponto de não serem credíveis? Como não deixar cair a obra no lamaçal infame do ridículo? E não tornar Os Miseráveis numa versão - cair no trocadilho é demasiado fácil, mas irresistível - mesmo miserável? Era este o grande desafio do britânico Tom Hooper, galardoado há dois anos com o Oscar para melhor realizador pelo telefilme certinho O Discurso do Rei.

 

Fado dos desgraçadinhos

Hooper começou por tomar uma opção muito arriscada e, se não inédita, pelo menos rara. Colocou os atores a cantarem ao vivo, sem a habitual dobragem a posteriori. Acompanhados por um piano, que seguia os seus ritmos e criava uma química e um ambiente particular - e só na pós-produção colocou a música orquestral. A lógica devia ser mais ou menos esta: perdia-se na perfeição, na afinação de algumas notas, ganhava-se na intimidade, na exclusividade dos momentos. Como no teatro, em suma. E o realizador mostra-se tão concentrado na performance vocal dos protagonistas que parece não saber onde colocar a câmara. Passa o tempo a fazer close-ups às suas caras, às suas bocas, às suas gargantas enquanto cantam. Vemos os tremores do queixo da Hathaway, os tendões do maxilar de Jackman a retesarem-se, o olhar concentrado de Crowe...E ao longo das mais de duas horas e meia ficamos mais comovidos com as intrépidas interpretações melódicas (algumas músicas são melhores do que outras) do que com este esforço secular do enorme Victor Hugo que nos mostrava, de forma tão pungente e tumultuosa, a exploração do homem pelo homem. "Cada homem é um rei", grita-se do alto das barricadas, feitas de móveis, cadeiras, mesas, pianos, o que estivesse ao alcance e servisse para estancar as tropas oficiais, os tiros dos canhões, ainda que apenas por alguns dias. E tout le monde se une... E tout le monde aguenta...

A realização é como uma luz de presença, está ligada mas não ilumina. Não acrescenta, apenas sublinha. E o mais estranho é estarmos na presença de um musical, que supõe coreografia, design, orquestradores. Num musical assume-se, como em nenhum outro género, a quebra da quarta parede. Estamos no reino do artificialismo, tudo é possível, as pessoas dialogam a cantar, entoam solilóquios, portanto, a mistura entre a realidade e fantasia é descarada, sem reparos. São admissíveis todas as hipóteses de fuga, de evasão ao óbvio: é total a liberdade do realizador e argumentista. Permite-se a exuberância. Hooper preferiu seguir a linha do realizador bem comportado, com um literalismo enfadonho e um respeito imenso pelas interpretações, o que é louvável, mas menos pelo texto ou pelo espírito do texto. E a questão é que Os Miseráveis não se trata de uma ópera, e antes de ser um musical da Broadway é um livro referencial.

Para cortar a cadência das desgraças funestas, dos destinos desvalidos, o filme contém uma espécie de enxertos burlescos da dupla Carter/Cohen (o suposto alívio cómico) que parece saída de outro filme - mais precisamente do musical de Tim Burton (ver caixa), quase os mesmos penteados, os mesmo figurinos, os mesmos gestos assarapantados, o mesmo tom de comédia picaresca e gótica.

Nomeado para quatro Globos de Ouro, auguram-se boas perspetivas para os Oscares. Muitos já vieram dizer que, desde Chicago, nunca um género tão caído em desuso durante décadas como o musical (o mesmo aconteceu com o western) esteve tão próximo de ganhar o Oscar de Melhor Filme. A academia gosta de ver estrelas a exibirem as suas habilidades - neste caso, a de cantores.

Por outro lado, as metamorfoses físicas são sempre muito bem-vindas e apreciadas. Neste filme há duas transformações notáveis. A de Jackman, que emagreceu 30 quilos e deixou crescer a barba para se tornar num prisioneiro a escanzelar os ossos e a rebentar músculos enquanto puxa navios. E depois, já mais composto e reconhecível, quando se consegue redimir do seu pecado animalesco de trair o padre que deixa as pratas à mão de semear, que é como quem diz de roubar. Hathaway rapa o cabelo, faz-se também emagrecer radicalmente, até se tornar numa prostituta de boca ulcerada e olheiras cavas, enfermiça e tuberculosa. Ela preferiu não divulgar os seus segredos de emagrecimento. Para, disse, não 'glamourizar' a coisa...