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O Futuro: Toda a gente passou dias em que andou desencontrado...

Cinema

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O Futuro

... como à espera do comboio na paragem de autocarro



E se a espera se alonga, torna-se extremamente aborrecido. Porque quando se espera por algo que nunca vem nem nunca virá, caíamos naquela inquietante escada de Esher, o pátio interior onde há degraus contínuos e impossíveis de escalar . Aliás, a imagem comparece várias vezes neste filme, em que suspende o tempo, e se engole o espaço, pode haver monólogos à lua, e há um gatinho velhote de pata partida à espera de ser adoptado por um casal em queda lenta. E este filme estilizado sem ser sequer estiticamente interessante que passou pelo Festival de Sundance  (às vezes, insuportavelmente independente), é isso mesmo: um impasse amoroso. As personagens bem podem deambular por ali, subir por umas escadas que descem, à espera de Godot, que não vai acontecer nada. E enquanto estes dois seres, árvores desenraizadas, incapazes de ver a floresta, estagnam, indolentes num calendário que não avança, porque o romance entre eles paralisou, e nenhum deles tem particular vontade de o empurrar, o gato tece considerações sobre o sentido da vida. Ela é uma dançarina deselegante e desajeitada (além de atriz e performer, é realizadora e faz a voz do gatinho), ele um tipo sem grande empenho em coisa alguma. E ambos passam por esta crise conjugal com um ar de perplexidade estampado na cara. Há cenas em que o non-sense funciona (é impossível chamar-lhe realismo mágico que este termo já está tomado pela literatura), mas outras em que o despretensiosismo se torna muito pretensioso. Trata-se de um casal que se desmorona, e enquanto isso, eles passam por várias fases ociosas, e o tempo estende-se e distende-se nessa lógica da fórmula concebida por Penrose. De resto, nada de encantador.   

O Futuro

De Miranda July. The Future, com Hamish Linklater, Miranda July, David Warshofsky, Isabella Acres, Joe Putterlik. Drama. 91 min. EUA. 2011