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O CAVALO DE TURIM... E o vento lá fora

Cinema

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A banda sonora, de Mihály Vig, é notável e merece ser ouvida em separado, mas o que mais se ouve é o soprar de vento. Sopra mais forte do que no Monte dos Vendavais. O vento é o único e verdaedeiro antagonista do filme, o obstáculo que torna remoto e inatingível o mundo exterior. O vento sopra e comanda sem a hipótese de retaliação.

O filme é húngaro, mas as personagens quase não falam e o que dizem não é muito importante, à exceção talvez de um discurso, mais ou menos longo e agoirento, de Bernhard, um visitante em busca de palinka (a aguardente húngara). O Cavalo de Turim, o primeiro filme a estrear em Portugal de Béla Tarr, esteve em Berlim, no antes de Miguel Gomes. Adivinha alguma tendência para um revivalismo estético (verificado também em O Artista). Só que Béla Tarr, o cineasta húngaro que está a montar uma escola de cinema na Croácia, embrenhou-se do espírito de Carl Dreyer, num filme a preto e branco e austero. Contudo, tal como em Miguel Gomes, não há uma repetição mimética nos seus gestos, serve-se de um espírito, talvez obtuso, para criar algo de surpreendente, com uma noção do tempo muito própria, lenta e contemplativa, enquadrada num contexto (aqui aproxima-se de Mãe, de Sukorov).

Em O Cavalo de Turim  - o título é tirado de um episódio ocorrido com Nietzche  -, defendeu um cavalo que se recusava a andar - vivemos seis dias com um casal austero e isolado, em terras remotas dos confins da Hungria, no meio de uma tempestade intransponível.

A banda sonora, de Mihály Vig, é notável e merece ser ouvida em separado, mas o que mais se ouve é o soprar de vento. Sopra mais forte do que no Monte dos Vendavais. O vento é o único e verdaedeiro antagonista do filme, o obstáculo que torna remoto e inatingível o mundo exterior. Não há uma luta heroica ou frustrada, como nos filmes de género americanos, em que a tempestade é um desafio para os grandes heróis. Aqui o vento sopra e comanda sem hipótese de retaliação.

Fechamo-nos então neste casal peculiar e agressivo no trato, comunicante no silêncio e na luta perdida. Ele já é um homem velho, ela tenta ser o esteio, a força motora, mas as investidas de ambos nascem frustradas. O cavalo recusa-se a ser montado, ela, meiga apesar de tudo, recusa-se a insistir.

Béla Tarr escusa-se a fazer qualquer tipo de exercício de estilo - as pessoas quase que não falam, mas lá vão falando. Da mesma forma o trabalho de câmara quase que dispensa a montagem, os planos sequência são longos, acompanhamos as personagens mesmo nas transições interior-exterior, mas há corte. E os corte não são disfarçados como o do casaco de James Stewart, em A Corda, de Alfred Hitchcock - Béla Tarr não quer provar nenhuma habilidade estética, a montagem mínima serve bem o filme. Da mesma forma tem planos interiores e exteriores, com a regra de que lá fora tudo é comandado pelo vento, mas sem entrar numa fúria melodramática.

Com interpretações notáveis, neste primeiro filme do húngaro a estrear em Portugal percebe-se porque é que Gus Van Sant reconheceu a influência de Tarr na sua trilogia  Jerry/Elefante/Os Último Dias. Em O Cavalo de Turim, há uma estética minimalista e forte, dominada pela expressividade dos rostos dos atores e por ambiente gélido. A sobrevivência como algo de mais subtil.



O Cavalo de Turim, de Béla Tarr, com János Derszi, Erika Bók e Mihály Kormos, 146 min