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O AMOR E A DOR

Cinema

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To the Wonder, de Terrence Malick

'To the Wonder', a nova fábula filosófica e romântica de Terrence Malick, não foi muito bem recebido na sessão de imprensa desta manhã. Ontem à noite 'Fill the Void', da isreaelita Rama Burhtein, uma história no feminine dividiu opiniões, mas não deixa de ser um filme tocante pela sua enorme sensibilidade.

José Vieira Mendes

Os planos do por do sol num linha do horizonte incerta, sobre um céu nevoado de 'To the Wonder' são lindíssimos como nos postais ilustrados. Como aliás já é habitual em todos os filmes de Terrence Malick. Eles são a metáfora para a história de vida (mais uma vez não linear, como a linha do horizonte) e de sentimentos incertos e cruzados de dois amantes que dolorosamente não conseguem, por mais que se esforcem permanecer juntos, interpretados por Ben Affleck e Olga Kurylenko.  Depois de um período de felicidade em Paris onde ela vive, regressam ao Oklahoma de onde o jovem analista ambiental vive e trabalha. Depois do entusiasmo inicial da relação, caminham para um naufrágio afectivo que acaba por consumar-se, ele numa relação com uma antiga namorada da infância (Rachel Adams); e ela que conhece entre outros, um padre exilado da sua pátria (Javier Bardem) num momento de grandes dúvidas em relação à sua vocação. Na verdade, 'To the Wonder' (uma referência ao Monte de Saint Michel, uma das Maravilhas do Mundo) é uma pretensiosa história de amor, que se consuma num instante, no silêncio e no diálogo interior dos personagens ao longo de todo o filme de novo exageradamente filosófico e existencial. O registo é lento, professoral e profundamente enrraízado (já se duvidava) no pensamento cristão de Malick e numa necessidade absoluta de afirmar uma explicação teológica para a nossa existência, com aliás já o fazia em 'Árvore da Vida'. Portanto um pouco mais do mesmo e na linha do filme anterior, mas agora explorando lugares comuns e caducos de uma amor falhada. Igualmente o amor e a dor, mas agora aliados ao compromisso e à resignação são os temas de 'Fill the Void', da isreaelita Rama Burhtein. A jovem Shira (Hedas Yaron) a filha mais nova de uma familia judia ortodoxa de Telavive encontra-se perante um grande dilema: seguir a razão ou a escolha dos seus pais. A procura da felicidade da jovem passa pelos conceitos de tradição ou emancipação. A primeira obra desta cineasta que assumidamente trabalha para a comunidade religiosa ortodoxa é uma história de um conflito de uma mulher, muito intímo e privado, no seio de uma comunidade muito conservadora. Mas acaba por ter uma dimensão global, nos que diz respeito à emancipação e ao papel das mulheres nas sociedades orientais. E acima de tudo é um filme que toca pela sua surpreendente sensibilidade e delicadeza. 

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