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TIFF O sangue do cinema romeno

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Qual é o segredo de uma das cinematografias mais bem-amadas da Europa? O JL esteve no Festival de Cinema da Transilvânia, em Cluj, e descobriu os vários cinemas romenos. Salas cheias, numa pequena cidade que respira cultura. E, enquanto nós admirávamos os filmes romenos, os romenos aplaudiam o cinema português. Na assistência, uma entusiasta dizia a Nuno Lopes: "Sangue do meu Sangue [de João Canijo] foi o melhor filme que já vi na vida". O segredo dos romenos foi perceber que não são precisos grandes meios para fazer grandes filmes. E também aquela capacidade para se rirem de si próprios.

Qual é o segredo de uma das cinematografias mais bem-amadas da Europa? O JL esteve no Festival de Cinema da Transilvânia, em Cluj, e descobriu os vários cinemas romenos. Salas cheias, numa pequena cidade que respira cultura. E, enquanto nós admirávamos os filmes romenos, os romenos aplaudiam o cinema português. Na assistência, uma entusiasta dizia a Nuno Lopes: "Sangue do meu Sangue [de João Canijo] foi o melhor filme que já vi na vida". O segredo dos romenos foi perceber que não são precisos grandes meios para fazer grandes filmes. E também aquela capacidade para se rirem de si próprios.

Nem alhos, nem crucifixos, nem camisola de gola alta. Também não encontrámos romenos de tez esquálida e dentes afiados, apesar do festival incluir uma secção de terror. Nada daqui é como o filme de Polanski. Só as cerejas são da cor do sangue e crescem selvagens nas montanhas da região. A doçura das cerejas torna as gentes mais felizes, comprova-se. Bram Strooker escreveu Drácula sem nunca ter posto os pés na Transilvânia. Assim como Henri Rosseau pintou um Haiti imaginário. Mas tal não impediu que a Transilvânia se tornasse um dos mais famosos e temidos locais do mundo, cuidado não vos mordam o pescoço. Ao ponto de, nos anos 80, o ditador Ceausescu ter inventado um castelo nas montanhas para americano ver. O príncipe Vlad III, com o cognome de Drácula (filho do dragão), foi uma personagem histórica e um herói popular na Roménia, que não mordia pescoços, mas tratava com sadismo os seus inimigos, ficando também conhecido como o Empalador. Tudo o resto é inventado. E nem sentimos calafrio quando soubemos que o programa musical do TIFF sediou-se no antigo Hotel Continental,  um belíssimo edifício de arte deco, recuperado enquanto espaço de lazer, exatamente o mesmo sítio onde se instalou Jonathan Harker quando chegou a Cluj-Napoca, a capital da Transilvânia, e de onde nunca devia ter saído.

Mas não se pense que não existem dráculas na Roménia. O verdadeiro e mais temido vampiro (daqueles que comem tudo, como os da música de Zeca Afonso), esteve no poder durante mais de 20 anos e destruiu tudo quanto pôde, edifícios e gerações. Mordia mais que pescoços. Arquitetonicamente, arruinou Bucareste e aniquilou alguns dos mais significativos bairros de Cluj. Contudo, o que agora encontramos é já uma cidade (mais pequena do que o Porto), renascida e com alguns traços de imponência, entre a austeridade comunista e o estilo austro-húngaro. No centro, não se encontram lojas de marca, quase todos os pronto-a-vestir são de roupa em segunda mão. Para compensar, há várias livrarias (uma delas ia receber um recital de poesia portuguesa), cinemas e até uma ópera teatro nacional, além de várias igrejas ortodoxas e católicas.

Cluj que acrescentou o nome Napoca, para enfatizar a sua origem romana, deve ser dos sítios do mundo com mais cultura por metro quadrado. As ruas do centro, que aos poucos tem sido recuperado, enchem-se de bandeiras romenas. O nacionalismo na Transilvânia sempre foi uma defesa da proximidade magiar, e do domínio saxão e austro-húngaro. Os habitantes são afáveis e, aparentemente, recuperaram bem do espírito de desconfiança social imposto pelo regime de Ceausescu.

Mas o Drácula Ceausescu deixou as suas marcas. Um dos momentos mais importantes do festival foi a estreia do filme Três Dias antes do Natal, um docudrama sobre os últimos dias do ditador e da sua mulher Elena, de Radu Gabrea. No final, o cinema Florien Piersci cheio, como em grande parte dos filmes (incluindo Sangue do Meu Sangue), a discussão foi acesa. Um elemento do público acusava a equipa de tentar humanizar o ditador. O filme é uma obra importante historicamente e consegue gerir com tato este género particularmente difícil, que muitas vezes cai num didatismo algo irritante. Facto é que a Roménia continua a fazer contas com o passado. E talvez seja uma reação ao patriotismo exacerbado e malévolo de Ceausescu que leve a que o cinema e a música romenas sejam menos apreciados dentro de portas do que no estrangeiro.

Nem é o caso do TIFF, onde, como já se disse, as salas ficaram cheias. Estranhou-se no entanto a ausência de alguns dos grandes, como Cristina Mingiu, cujo último filme, Para além das Colinas, esteve em Cannes. Um festival onde se faz um panorama diferenciado do Cinema Romeno, demonstra a variedade de registos, fora do que se estipulou ser uma estética romena de cinema. Everybody in Our Family, de Radu Jude, o filme vencedor da competição nacional, que também passou pelo IndieLisboa, é um argumento de novela com toda essa força do cinema romeno (apurámos que as novelas da Globo são muito populares no país, e são exibidas com legendas, pelo que eles estão habituados a ouvir falar português). Já Killing Time, de Florin Piersci Jr,  é um Tarantino à romena, em que pega no lado tarantinesco mais facilmente reproduzível como meios escassos: todo o filme é um diálogo entre gangsters. Crulic, de Anca Damian, uma animação, na melhor tradição dos países de leste, que não é para crianças: retrata antes um caso sinistro de um emigrante romeno injustamente condenado na Polónia. Best Intentions, de Adrian Sitaru, por sua vez, é uma espécie de contraponto de Senhor Lazarescu: o sistema de saúde é perfeito, mas o filho da paciente é hipocondríaco em relação à mãe e quase que estraga tudo. Mas o que tem de melhor é a posição na câmara, que acompanha sempre o olhar de uma das personagens. Adivinha-se a distribuição internacional. Muito aplaudido foi Of Snails and Men, de Tudor Giurgiu, que também é o diretor do festival. Talvez fosse o mais banal dos filmes a concurso, uma comédia simples com uma ideia rebuscada: os trabalhadores vendem o seu esperma para comprar a fábrica onde trabalham. Comédia por comédia, mais vale Chaising Rainbows, de Dan Chisu, duas histórias cruzadas com imensas peripécias, que mostram quanto as pessoas podem inadvertidamente complicar a sua vida. Um filme cheio rasu-plânsu. Uma palavra exclusivamente romena, que mostra bem o espírito do seu país. Significa chorar e rir ao mesmo tempo. Coisa que nós por cá também sabemos fazer, mas não temos uma palavra para isso.



* Em Cluj, a convite do Instituto Cultural Romeno