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Crónica da Transilvânia

Intervalo

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A ficção romena que, na última década, tem maravilhado o mundo ou, pelo menos, os principais festivais europeus, caracteriza-se por um realismo quase documental polvilhado por um alto sentido de auto-ironia. Quando o registo passa para o documentário propriamente dito, as diferenças entre os géneros por vezes são ténues

Se dobrarmos o mapa da Roménia em quatro e voltarmos a abrir, o cruzamento dos vincos está precisamente em Sibiu. Mas nem por isso se transforma na mais romena das cidades romenas, é apenas a mais central. Aliás, o que é isso de ser romeno? É na vasta mistura de culturas que está a riqueza da Roménia, portanto, há um todo diverso. A Transilvânia, em concreto, que Bram Stooker tornou famosa sem nunca a ter visitado (o verdadeiro Conde Drácula empalava os seus inimigos mas jamais lhes mordia o pescoço), é por excelência um local de transições. Alem dos ciganos, uma minoria com presença em todo o pais, há uma forte comunidade húngara. Mas em Sibiu, concretamente, quem manda são os alemães. É verdade que a comunidade alemã ou germano-descendente hoje não ultrapassa os dois mil habitantes. Contudo, os seus vestígios encontram-se por toda a cidade, que é de resto de uma beleza superior, lembrando a Baviera. Mais do que isso, o partido alemão ganhou as eleições e o atual presidente da Câmara é germano descendente.

Sibiu está para a Roménia assim como Curitiba está para o Brasil. É a mais organizada das cidades, com as casas do centro histórico impecavelmente pintadas e uma zona moderna pequena mas digna de uma metrópole de respeito.

É aqui, na mais bela das pequenas cidades romenas, que, desde há 20 anos, se realiza o Astra Film Festival. Um festival bienal exclusivamente dedicado ao documentário. Ao contrário do que acontece no DocLisboa (que é um festival com outras pretensões), o sentido de cinema documental é bastante estrito. E é bom barómetro da cinematografia romena, atualmente uma das mais fascinantes da Europa.

A ficção romena que, na última década, tem maravilhado o mundo ou, pelo menos, os principais festivais europeus, caracteriza-se por um realismo quase documental polvilhado por um alto sentido de auto-ironia. Quando o registo passa para o documentário propriamente dito, as diferenças entre os géneros por vezes são ténues, embora, tal como acontece com ficção, não há um único cinema romeno contemporâneo, mas sim vários. Contudo, encontram-se linhas fortes comuns aos filmes e realizadores mais emblemáticos. O desafio da nova geração é assumir essa herança, mas, simultaneamente, encontrar novos caminhos. E no Astra Film Festival contam-se histórias de verdade.