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'XINGU': UM BRASIL DE HERÓIS IMPERFEITOS

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Xingu, de Cao Hamburguer.

Esta semana, estreia nas salas nacionais 'Xingu', de Cao Hambuguer um excelente filme brasileiro que mostra, a grande aventura dos irmãos Villas Boas, sertanistas e defensores dos direitos territoriais dos indios da Amazónia, na década de 50. 'Xingu' é um filme que conta essa história incrível e a criação do primeiro parque indígena no Brasil. Contudo, trata-se de um filme que aborda de uma forma cirúrgica uma parte da história dramática e esquecida do Brasil, que se tornou mais do que nunca atual e urgente de revelar ao grande público. 

José Vieira Mendes

O Brasil está mais do que nunca na ordem do dia, devido a grandes convulsões sociais internas, aos vários níveis da sociedade. Há que recordar ainda que apesar de falarmos a mesma língua é cada vez mais raro chegarem filmes brasileiros às nossas salas. Por isso 'Xingu', de Cao Hamburguer (o realizador de 'O Ano em que os Meus pais Foram de Férias'), um filme produzido por Fernando Meireles ('Ensaio Sobre a Cegueira' e '360'), pode tornar-se numa excelente oportunidade para os espectadores portugueses conhecerem um pouco do cinema brasileiro da actualidade. Sobretudo inspirarem-se na história recente do Brasil, através de uma obra de contornos épicos, um filme de aventuras, com cenas quase como as de um verdadeiro western americano. Em 1943, os jovens irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Boas deixaram o conforto das suas vidas boémias na cidade de São Paulo e integraram a primeira expedição oficial ao interior de Roncador-Xingu. Esta expedição tinha como objectivo lançar um ambicioso projecto do Presidente Getúlio Vargas, de conhecimento e desbravamento dos vastos territórios de floresta do Brasil. Foi nesta primeira aventurosa viagem que os Villa Boas tomaram contacto pela primeira vez com a cultura indígena. Mais tarde, durante a década de 50 voltaram e fizeram da defesa dos indios, a missão das suas vidas. O objectivo desta excelente obra de Cao Hamburguer é revelar a importância destes três heróis imperfeitos, na criação da Reserva ou Parque Natural do Xingu, um território quase do tamanho da Bélgica. Baseado em factos reais (com um argumento construído a partir de diários e testemunhos vivos), o realizador conseguiu criar uma obra fluída, que conjuga o ritmo de um filme de aventuras com a elegância de um épico histórico, valorizado pelo carisma dos personagens envolvidos. 'Xingu' é uma historia muito bem contada, com cenas muito belas, paisagens exuberantes, vistas algumas através de planos aéreos de cortar a respiração; ou então com fabulosas sequências diurnas e noturnas da floresta e rios da Amazónia, que são de uma exuberante beleza plástica. Todo o trabalho de concepção do filme é aliás extraordinário: desde a escolha das localizações, passando pelo trabalho com o elenco indígena, aos atores escolhidos para interpretarem Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) Villas Boas. Todos em conjunto conseguem dar uma enorme credibilidade e força a aventura de 'Xingu'. Em 'Xingu' o território brasileiro surge ainda como uma terra habitada por povos que sofreram e lutaram pela liberdade e contra a opressão, como por exemplo contra a construção da via transamazónica. 'Xingu' é quase uma nação       dentro de outra nação, onde os índios falam os seus dialetos e vivem à sua maneira, causando a natural a dificuldade em serem contactados pelo 'homem branco'. Os irmãos Villas Boas, conseguiram como nunca até aí, desenvolver uma técnica de aproximação pacífica aos indígenas. E esse é talvez o seu grande mérito. O filme mostra igualmente os Villas Boas como uns sujeitos destemidos e uma espécie de heróis imperfeitos: imersos das melhores das intenções, acabaram na mesma por trazer o progresso, mas também o sofrimento ao povo indígena. Por fim é inevitável insistir que 'Xingu' tem todos os ingredientes de um épico, porque explora uma historia grandiosa, que poderia dar uma sequela ou uma belíssima série de televisão. Contudo é a sua sinceridade e veracidade histórica que torna 'Xingu' numa obra de excepcional qualidade dentro da temática ambientale antropolágica. Estreou em 2012 no Brasil e merecia já ter chegado mais cedo às salas comerciais nacionais. Quanto mais não seja pelo Ano do Brasil em Portugal, até porque teve uma antestreia discreta integrada na Premiere Brasil.

 

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