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WAGNER MOURA E OS FILHOS DE AMARILDO

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Wagner Moura, recebe Troféu Cidade de Gramado.

Ontem foi mais um dia de homenagem, ao grande actor brasileiro Wagner Moura ('Tropa de Elite' e 'Elysium'), que veio propositadamente para receber o Troféu Cidade de Gramado. A competição principal começou a sério primeiro com o filme argentino 'Puerta de Hierro - El Exilio de Perón', da dupla Dieguillo Fernández e Victor Laplace, um filme que a atravessa o período de refúgio forçado do ex-presidente argentino em Madrid; e depois com a projecção da longa-metragem brasileira 'Éden', de Bruno Safadi, já estreada na Europa e uma das grandes surpresas do Festival de Roterdão.(em Gramado)

José Vieira Mendes

A chuva e o frio e a chuva continuam (quem diria com os 37 graus C. em Lisboa!!!), mas o ambiente voltou a aquecer em Gramado, com a presença de Wagner Moura, a grande estrela brasileira do momento. Além de uma carreira preenchida por muitos êxitos no cinema brasileiro de 'Abril Despedaçado', de Walter Salles, à recriação de Capitão Nascimento dos 'Tropa de Elite', de José Padilha, Moura é agora o rosto de Spider, uma das personagens centrais de 'Elysium', do sul-africano Neil Blomkamp ('Distrito 9'), ao lado de Matt Damon, num excelente filme de ficção ciêntífica, que estreia na próxima semana em Portugal. E Wagner Moura é verdadeiramente espantoso (já vimos o filme antes de vir para aqui em visionamento de imprensa) na sua primeira incursão no cinema internacional (e em inglês), num papel que lhe pode trazer outros voos, mas sem nunca sair do Brasil. Mas nem por isso deixou de mostrar a sua humildade: o actor é um misto de simpatia, por vezes brincalhona e de profissionalismo, com um discurso, coerente e organizado, mesmo quando fala de política e das manifestações de rua, em todo o País. Confessou-nos que gostava de trabalhar com o cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho ('O Som ao Redor'), que está com vontade de visitar Portugal, e beber um ginginha.  E quer ver rapidamente o filme de  'Tabu', de Miguel Gomes. Talvez essa se torne uma oportunidade de trabalhar em Portugal. Contudo a sua presença em Gramado, não foi apenas de circunstância, embora hoje mesmo tenha partido para o Rio de Janeiro para almoçar com os filhos. A razão é porque hoje é Dia dos Pais no Brasil. No discurso de homenagem Wagner Moura e simbolicamente dedicou este Troféu Cidade de Gramado aos filhos de Amarildo, o pedreiro da Rocinha, desaparecido e que hoje não poderá partilhar este Dia dos Pais, com os seus filhos. Nem tão pouco os filhos sabem o que aconteceu com Amarildo. Um discurso político, já manifestado na conferência de imprensa, quando sobre 'Elysium', destacou a metáfora de uma sociedade de grandes desiguladades como a brasileira e que se vai manifestando cada vez mais em todo o mundo.

 O ARRANQUE DA COMPETIÇÃO

Feitas as contas ao ambiente e à presença de Wagner Moura em Gramado, é tempo de falar dos filmes: 'Puerta de Hierro, el exilio de Perón' (2012) é um drama de estrutura clássica e académica, baseado em factos reais, mas que abriu espaço para a invenção e livre interpretação do que se terá passado durante as várias etapas do exilio do General Péron: uma parte da vida de Juan Domingo Perón, pós-Eva e da chamada 'Operación Retorno' ao poder na Argentina. O filme é dirigido pela dupla Dieguillo Fernández e o actor e protagonista Víctor Laplace. A história começa precisamente no dia em que o General cumpriu 77 anos e quando uma tal Sofia oferece-lhe uma bobine de gravação, para este contar as suas memórias. Esse é o ponto de partida para uma série de capítulos de um conto autobiográfico, que narra os momentos do exílio de Péron, da relação com Isabel, a sua perturbada segunda mulher e da montagem da operação política e revolucionária (faz lembrar muito até na personalidade política de uma época, o regresso do nosso General Humberto Delgado) que o traria de novo à Argentina. O argumento baseia-se em factos históricos, mas há muito de romanceado e de estruturado num cinema narrativo, que assenta no clássico: principio, meio e fim. O filme tem uma boa construção dos personagens, defendidos por um excelente lote de actores secundários: Victoria Carreras na pele da instável Isabelita, Javier Lombardo, em Jorge Antonio e Fito Yanelli, no bruxo José López Rega. E depois igualmente numa rigorosa recriação histórica dos ambientes históricas, que não deixa escapar nenhum pormenor mesmo no lindíssimo guarda-roupa. Víctor Laplace, um dos maiores actores argentinos já interpretou várias vezes Péron. Portanto a figura do General, parece-lhe quase colada à pele. Este filme centra-se mais na criação do homem e das suas fraquezas (até de saúde) e talvez menos no mito. Péron está mais humanizado e menos esterotipado (estou a lembrar-me de 'Juan e Eva') que em outros filmes sobre a sua vida e figura. No entanto, talvez marcado por um personagem demasiado discursivo e teatralizado, que o discurso ideológico exigia no filme. 'Puerta de Hierro, el exilio de Perón' é um filme histórico de entretenimento, tem até um pouco a marca de série de televisão. Parece querer dirigir-se ao mercado internacional, pois é uma ficção que procura dar a conhecer um pouco mais da história da Argentina. Mas apesar do razoável rigor histórico é demasiado académico pelo menos para os não-argentinos.

Rodado em pouco mais de duas semanas e com um orçamento diminuto, 'Éden', do realizador brasileiro Bruno Safadi, tem o mérito pelo menos de ser uma pequena lufada de ar fresco no cinema brasileiro (e do Rio de Janeiro) da actualidade, fora do universo Globo Filmes. 'Éden', conta a história de forma não muito linear de Karine (a excelente e bela Leandra Leal), uma jovem mulher que é acolhida por um pastor evangélico depois do marido, de quem está grávida, ter sido assassinado, na problemática Baixada Fluminense, na periferia do Rio de Janeiro. O pastor Naldo ( muito bem interpretado por João Miguel) aproveita esta tragédia para converter Karine e promover uma ampla 'campanha de salvação' de várias famílias perdidas e de expansão de fiéis para a sua igreja. Enquanto espera a chegada de seu filho, Karine vai-se sentindo cada vez mais sufocada por esse meio, fortemente controlado pelo fanatismo religioso, pela ilusão e falsidade. O clima do filme é sempre de uma enorme tensão, aliada a um certo ambiente de terror e fantástico que rodeia a figura de Karine. 'Éden' é um filme muito actual que explora o fenómeno do crescimento das religiões evangélicas, sobretudo na periferia e no interior do Brasil, expondo o perigo da religião, como forma de manipulação das pessoas e a aceitação social da pobreza. De qualquer modo o filme reaje a esse facto, afirmando a verdade acima da ilusão e da mentira. Um bom arranque das Competições que teve ainda em 'Pouco Mais de Um Mês', de André de Novais Oliveira, o primeiro e um excelente filme da Mostra de Curtas Nacionais Brasileiras.